Poucos destinos rimam tão bem com a palavra inverno como a Suíça. Em dezembro, além das célebres estâncias de esqui, o país mais “arrumadinho” da Europa oferece vistas dignas de postal, com animados mercados natalícios, lojas típicas enfeitadas a preceito para a quadra que se aproxima, edifícios e vielas medievais envoltos na fria luz invernal e, claro está, aquele que é talvez um dos melhores chocolates quentes do mundo.
Um périplo de alguns dias pelas cidades de Genebra, Berna e Basileia é uma boa maneira de captar um retrato completo da história, tradições populares, beleza natural, gastronomia, arquitetura e arte contemporânea que o país tem para oferecer.
Capital da paz, sede europeia das Nações Unidas, um dos mais importantes centros financeiros mundiais e dona do lago com o jato de água mais alto do mundo, Genebra é talvez a cidade mais sofisticada da Suíça, com o seu relógio florido, que se tornou um símbolo incontornável, e elegantes restaurantes, lojas de alta-costura e relojoaria.

Conhecê-la a fundo, porém, implica perder-se nas ruas estreitas do centro histórico, aproveitando uma das visitas guiadas disponibilizadas pelo gabinete de turismo municipal, que leva os visitantes a percorrer os passos dos soldados que, na noite de 11 para 12 de dezembro de 1602, defenderam com sucesso a cidade da invasão das tropas católicas do duque de Saboia.
A data ficou para a História e transformou-se na Fête de L’Escalade [pois o exército invasor escalou a muralha da cidade], feriado municipal para sempre associado a Mère Royaume, uma espécie de “padeira de Aljubarrota” local que, reza a lenda, terá sido fundamental na defesa, pois deitou sobre os inimigos o pote de sopa a ferver que estava a preparar.
Ainda que a Fête de L’Escalade se celebre a 12 de dezembro, é possível, desde o início do mês, comprar, em qualquer loja de chocolates, a típica Marmite de L’Escalade, reprodução em chocolate do pote de Mère Royaume, recheado de legumes de maçapão, que, na noite de dia 11, é partido com um murro seco pelo membro mais novo e mais velho de cada família.
Para quem gosta de pôr a mão na massa, após a visita à zona histórica, nada como aprender a construir a sua própria Marmite, passando algumas horas na escola de chocolataria da La Bonbonnière, café, pastelaria e loja de chocolates localizada na Rue Pierre Fatio.
O dia prossegue com uma paragem no Kiosque Des Bastions, cujos telhados de vidro e ferro permitem ver a neve a cair enquanto se almoça, e com um passeio de barco pelo lago da cidade. No inverno, a noite chega cedo e com ela o frio, contra o qual os melhores aliados são inquestionavelmente um copo de vinho quente e uma terrina fumegante de fondue, servidos no mercado de Natal Noël au Quai.
Ursos dançantes e um galo que canta
Na manhã seguinte, é tempo de rumar à capital, apenas a duas horas de distância de comboio. Berna ergue-se majestosa, com as suas catedrais góticas, em torno de uma curva do rio Aare. A névoa invernal paira sobre as águas revoltas do rio e dá-lhe um ar de mistério, evocando um tipo de beleza que faz jus ao título de Património Cultural da Humanidade, atribuído pela UNESCO à cidade.

Aqui viveu Einstein, entre 1903 e 1905, numa casa hoje transformada em museu, ponto de paragem obrigatório, a par do Zentrum Paul Klee, centro cultural dedicado à vida e obra do artista plástico e desenhado por Renzo Piano, das numerosas igrejas, torres, fontes e pontes, e da Gerechtigkeitsgasse [Rua da Justiça], uma das mais longas avenidas comerciais cobertas da Europa, com cerca de seis quilómetros de arcadas.
Imperdível é ainda uma visita ao interior da Zytglogge, a torre do relógio medieval. Além da vista panorâmica única sobre os telhados da cidade, é possível observar o intrincado mecanismo de roldanas, cordas e rodas dentadas que, ainda hoje, dá vida ao mostrador do relógio que se encontra no exterior.
De hora a hora, este anima-se com um espetáculo medieval de marionetas que conta com um comboio de ursos dançantes, um bobo e um galo que canta.
Tantos museus
Se Genebra oferece sofisticação e Berna tradição, Basileia é a casa da contemporaneidade. Antes de rumar à capital cultural suíça, vale a pena parar a meio caminho, na região de Emmental, e reservar uma manhã para fazer uma visita ao museu e à fábrica do queijo homónimo, seguida de um almoço de raclette ou fondue, com vista para os vales nevados.
Berço de uma das feiras de arte contemporânea mais importantes do mundo e casa da primeira coleção de arte aberta ao público na Europa, em 1661, Basileia acolhe quem chega, simultaneamente com o charme de uma aldeia de montanha e o ritmo vibrante de uma metrópole.
Os dias frios do último mês do ano convidam a descobrir alguns dos 40 museus que a cidade possui, da Kunsthalle (exposições) ao Museu Tinguely (dedicado ao artista Jean Tinguely), passando pelo Kunstmuseum (arte clássica e contemporânea).
Ainda que deslocada relativamente aos restantes, a Fundação Beyeler é a joia da coroa dos museus de Basileia e merece a viagem num dos típicos drämmli [elétricos] necessária para lá chegar.
Desenhada por Renzo Piano, resulta de 50 anos de trabalho como colecionador do galerista Ernst Beyeler, e conta, na sua coleção permanente, com nomes que vão de Monet a Cézanne, Picasso, Giacometti, Mondrian, Frank Stella, Mark Rothko ou Anselm Kiefer.
Quem visita a cidade em dezembro será ainda surpreendido pelo enorme mercado de Natal que se estende ao longo de dezenas de ruas, culminando na praça da catedral, em alemão Münster, dominada por um pinheiro com dezenas de metros de altura, decorado com bolas coloridas, estrelas e luzes.
Um perfume a especiarias, vinho, queijo e chocolate paira no ar gelado da noite, aquecendo-nos a alma. E sem precisar de uma única palavra das suas três línguas oficiais, o país deseja-nos um feliz Natal.
A VISÃO viajou a convite do Turismo da Suíça
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