Ao mesmo tempo que andamos entretidos com o Mundial de Futebol, passando ao lado do que está a suceder quanto aos exames nacionais dos nossos jovens, Portugal cumpre o que parece ser o seu fado fundamental: cheias no inverno e, agora, incêndios de grande gravidade no verão.
Trata-se, há décadas, quase de um hábito a que todos aqueles que têm os seus pertences e casas a salvo já se mostraram acostumar, ficando o medo e a insegurança para as populações que veem o fogo de perto. Ficamos no sofá, com a mesma complacência com que assistimos, por exemplo, à tragédia na Venezuela, enquanto vemos os bombeiros e as próprias populações a tentarem fazer o impossível: travar um combate com um inimigo sem rosto mas que tudo destrói à sua volta, ceifando vidas, humanas e não só, e reduzindo a cinzas patrimónios construídos com o trabalho de uma vida. Mesmo quando causados por mão humana, os incêndios a que temos assistido nos últimos anos têm provocado uma alteração morfológica do nosso país a que já não podemos ser indiferentes.
Independentemente do que se possa dizer e reconhecendo-se as dificuldades particulares deste verão, principalmente quando associadas ao mais do que rigoroso inverno que tivemos e cujas consequências ainda não foram completamente debeladas, a verdade é que o que está a acontecer, em especial com a onda de calor já conhecida, não pode continuar.
Portugal não pode continuar a arder todos os verões a este ritmo, sem que esta constatação pretenda representar qualquer crítica para os operacionais que estão no terreno. O problema não parece ser tanto o da falta de meios, que também existe, quanto o da falta de planeamento real, quer no verão, quer no inverno, para os fenómenos climatéricos que cada vez mais nos assolam.
“Erradicar completamente o risco de incêndios florestais é uma tarefa quase impossível, dada a sua enorme complexidade. No entanto, ao compreendermos como funcionam, podemos aprender a geri-los melhor e a salvaguardar o nosso fututo”, diz-se no Relatório da Greenpeace sobre o histórico de incêndios no nosso país.
Portugal parece preso a um ciclo infindável, mediante o qual investimos milhões, umas vezes melhor e outras pior, em forças e meios, designadamente aéreos, para fazer face aos incêndios, chegando a pedir ajuda internacional. Contudo, o que parece um facto incontornável é que as nossas florestas continuam a arder com uma intensidade que parece superar qualquer capacidade de combate, eventualmente porque não existe uma verdadeira e eficaz política de prevenção.
As razões para o sucedido podem ser explicadas por várias vias, desde logo o abandono rural, com muitos idosos a viverem isolados em aldeias e as zonas inabitadas convertidas num mato contínuo, nem sempre sequer devidamente tratado, altamente inflamável. Por outro lado, a própria gestão dos terrenos rurais revela-se complexa, já que cerca de 90% da nossa floresta tem natureza privada, sem que os respetivos limites seja, nalguns casos, plenamente conhecidos. O eucalipto, facilmente inflamável, tornou-se a terceira espécie mais representativa da floresta portuguesa, tornando-se campo fértil para incêndios, já que monoculturas sem gestão são pasto perfeito para incêndios.
Por último, o já inegável aquecimento global traz também as suas consequências a este nível, avançando a uma velocidade muito maior do que a do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais, do Ministério do Ambiente e do Ministério da Administração Interna, reconduzidos que estão não a políticas de prevenção, mas à reação ao que já se encontra instalado.
O que se pede, principalmente numa altura como esta, é uma maior capacidade de prevenção, designadamente afectando-se parte do orçamento a limpezas dos terrenos e à substituição dos eucaliptos por outras espécies, bem como uma ainda maior capacidade de deteção dos ditos incêndios nas suas fases mais iniciais.
Anacronicamente, enquanto vemos água a ser atirada no combate ao fogo, outro problema se agudiza, de sentido inverso. Com as temperaturas ao nível em que estão, Almada e zonas limítrofes têm estado horas a fio, às vezes mais de doze, sem qualquer aviso prévio, sem que os seus habitantes disponham de água, seja nas suas casas, seja em estabelecimentos comerciais. Mais uma vez, parece tratar-se de um problema de prevenção, não estando a rede preparada para o número de cidadãos que passou a residir na margem esquerda do Rio Tejo. Sucede que, para além dos prejuízos causados às empresas, em especial de restauração e hotelaria mas também, por exemplo, cabeleireiros, esta é, de longe, a pior altura do ano para que tal possa suceder, mesmo para o comum dos cidadãos que se vê privado do bem mais essencial para enfrentar temperaturas extremas. Também aqui o essencial estará na lógica da prevenção, uma vez que não terá sido agora que a Câmara Municipal e os Serviços Municipalizados de Água se terão apercebido do eixo migratório.
Durante décadas, Portugal foi o típico país dos “remendos”, tendo-nos nós acostumado a políticas de mal menor. Aqui chegados, por mais que nos custe, tanto quanto aos fogos, como à gestão da própria água, tal como em tantos outros assuntos, temos que mudar de paradigma e passar a uma outra lógica, sob pena de nos tornarmos num enorme deserto, sem floresta e sem água.
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