Vale a pena ver o vídeo e observar a jogada do princípio ao fim. Desde o momento em que o guarda-redes Vozinha, com o pé, recupera a bola após uma tentativa de ataque rápido da Argentina. O que acontece depois são 38 segundos perfeitos de verdadeiro jogo de equipa, com a bola a ser tocada 31 vezes por oito jogadores. O último toque fica para a História: um remate em arco de Sidny Lopes Cabral, que fez a bola deslocar-se, em grande velocidade, numa diagonal perfeita, desde a esquina da área até às redes da baliza da Argentina, sem qualquer hipótese de defesa para o guardião campeão do mundo.
Foi um golo inesquecível que tornou ainda mais inesquecível a participação de Cabo Verde num Mundial em que a sua seleção chegou com o rótulo de uma das mais fracas, mas que depois, jogo após jogo, soube conquistar o coração de todos os que ainda se emocionam com um jogo de futebol. Uma seleção que chegou às Américas aparentemente para tentar “perder por poucos”, mas que soube demonstrar, em todos os momentos, como um coletivo consegue ser muito superior à soma de todas as partes que o compõem. E isso ficou demonstrado plenamente nesse golo: o pontapé mágico de Lopes Cabral só foi possível porque antes, durante 38 segundos, todos os membros da equipa se movimentaram e jogaram unidos e solidários uns com os outros.
Isto aconteceu assim porque, na verdade, Cabo Verde soube, nos estádios americanos, ser fiel às suas origens, à sua História e àquilo que caracteriza as suas gentes: um espírito gregário, aqui e ali irreverente, com gosto pelo risco, mas sempre com a certeza de que só unidos podem alcançar os seus objetivos. E ainda algo que não pode ser esquecido: uma postura leal e pacífica, traduzida, por exemplo, no incrível feito de terem sido punidos com apenas uma única falta no seu empate contra a Espanha.
O jogo coletivo de Cabo Verde foi a demonstração de um país que tem perfeita consciência da sua realidade de nação pequena. Mas que, como sempre aconteceu ao longo da sua História, soube expandir-se para lá das suas fronteiras geográficas. E, dessa forma, criar laços permanentes com a sua diáspora. Não o fez através da narrativa de batalhas heroicas, como é tradição na Europa, mas orgulhando-se das suas raízes culturais e da sua dimensão humana, moldada em condições sempre difíceis, numa geografia que obriga à resistência, mas também à entreajuda.
Cabo Verde é hoje um país com uma identidade universal, com comunidades fortes em muitas latitudes. A sua seleção impressionou o mundo porque foi o espelho disso mesmo.
Demonstrou também que o futebol é, de facto, o desporto mais democrático alguma vez criado – e é daí que vêm a sua beleza e a sua popularidade. Como a seleção de Cabo Verde mostrou, num dia especial, um grupo de jogadores, mesmo de escalões secundários, pode anular a seleção campeã da Europa. Num dia bom, um futebolista vulgar consegue marcar um golo maradoniano, mesmo num grande palco mundial. E num dia excecional, um grupo coeso e disciplinado consegue chegar ao fim dos 90 minutos empatado com o campeão do mundo.
Nada de semelhante acontece nos outros desportos. Não há dias bons que façam um atleta anónimo correr mais depressa do que Usain Bolt, nadar mais rápido que Michael Phelps ou ganhar uma etapa de montanha a Pogacar, numa competição de três semanas.
O futebol, na essência do jogo, é absolutamente democrático. Nenhuma equipa consegue reunir 11 jogadores fora de série. Há sempre, em qualquer campeão, meia dúzia de jogadores que poderiam estar ali como no décimo classificado. O que faz a diferença, mesmo nas equipas com grandes estrelas, é sempre a força do conjunto.
E isso é algo que Donald Trump e muitos americanos não conseguem compreender, como temos visto neste Mundial, em que a FIFA se vergou às leis do mais forte. Primeiro, na excessiva comercialização dos bilhetes, depois na imposição das “pausas para hidratação” que apenas servem para vender anúncios na TV, e finalmente, na ingerência da Casa Branca para reverter o castigo a um jogador dos EUA que tinha recebido ordem de expulsão, por causa de uma entrada violenta sobre um adversário.
Há males que, se calhar, vêm por bem e que ajudam a vincar as diferenças que precisam de ser sublinhadas. O desporto, como catalisador de emoções, é o terreno ideal para isso. E, neste caso, para ajudar a realçar a diferença entre o esforço coletivo e a arbitrariedade das decisões ditatoriais.
O resultado está à vista: Cabo Verde, com o seu espírito solidário e coletivo, ganhou o respeito global, mesmo perdendo com o campeão do mundo. Já Trump, com a sua ânsia de controlar o Mundial, perdeu o pouco respeito que ainda lhe restava no resto do mundo. Afinal, ainda há histórias com finais felizes.