Estava uma noite de verão, como há muito não se via e decidi ir jantar fora com a família. Era o último dia de férias e fomos a um sítio especial. A vista era de facto deslumbrante, um mar azul e infinito. Casais, famílias e amantes foram chegando para jantar, todos eles a transpirar praia e saúde. Uma noite como o Algarve merecia. O ar a acariciar-nos, os cheiros subtis mas vivos, definindo um bem estar incrível.
O tempo podia parar ali por uns minutos.
Às vezes são estes momentos pelos quais sonhamos e esperamos quando estamos exaustos do trabalho, à espera das férias e do verão.
No entanto, durante todo o jantar houve um intruso que persistiu em praticamente todas as mesas: o telemóvel.
Numa das mesas, um casal com um filho, com talvez 8 anos, vê o seu iPad antes da refeição e quando espero que pare quando lhe é servido o jantar, os pais colocam-lhe uns auriculares e o ecrã um pouco mais atrás do prato, para que a criança continue na sua sessão de cinema/reels/TikTok.
Noutra mesa, um casal que provalmente estaria acompanhado dos pais, num jantar agradável, passaram o tempo, à excepção da refeição propriamente dita, fazendo scrolls infinitos e trocando algumas impressões.
Numa outra mesa, um casal jovem, num momento que diria romântico, pouco conversaram e se olharam, sempre interpostos pelo ecrãs dos seus telemóveis.
Quando observo estas situações, que são cada vez mais transversais e independentes do estrato social, salvo poucas e salvadoras exceções, não tenho dificuldades em perceber porque o mundo piorou tanto nos últimos 20 anos.
Mais guerra, polarização, intempestividade emocional e solidão. A solidão que é a nova epidemia, curiosamente no momento em que nunca estivemos tão conectados.
Há muito que vejo mais contras do que prós nas redes sociais (que também sei que os há), mas estamos todos a viver uma fase de “drogados” digitais. O mais grave é não estarmos a vivê-la em consciência. Compreendo que as pessoas não tenham culpa, da mesma forma que um toxicodependente não tem culpa quando precisa do próximo chuto. As suas necessidades são quimicamente incontroláveis. A cada scroll os mecanismos cerebrais de dopamina são ativados e quanto mais vemos, menos sensíveis ficam os recetores e mais temos que ver para os satisfazer.
Naturalmente, nunca haverá nenhuma conversa interessante, presença de familiares, filhos, amigos ou locais maravilhosos que consigam competir contra tudo isto. Na minha prática clínica, vejo com cada vez mais frequência jovens rapazes com disfunção erétil e líbido diminuída, provocada por consumos excessivos de pornografia. Pensam que a sexualidade se trata de estarem com 10 janelas abertas no ecrã, a verem dez ou mais mulheres diferentes, enquanto se masturbam. Naturalmente, não será possível uma vida sexual plena e saudável enquanto se mantiverem estes hábitos. Nada real os excitará e viverão em constante angústia e ansiedade.
Neste momento já temos gurus digitais que fazem fins de semana de “detox” e que postam esse mesmo fim de semana a falar dos benefícios de estarmos livres de ecrãs. Eles a meditarem, a beberem chá e a lerem um livro. Uma espécie de detox light, pois talvez tenham estado mais tempo a tirar fotos do que a meditar e a ler… de qualquer forma, já revelam consciência de que existirá um problema.
Se os adultos vivem obnubilados sem se aperceberem, como poderão viver as crianças? A este propósito, aconselho a todos, pais ou não, a leitura de um livro chamado Geração ansiosa do psicólogo social americano Jonathan Haidt.
A vida real passou a ter muito pouco interesse. Não fornece os estímulos necessários à nossa felicidade, que ao que parece já ninguém sabe bem do que se trata.
O concerto já não chega, o museu não chega, os amigos não chegam, as viagens não chegam, os filhos não chegam, o livro não chega. Fazemos um esforço para viver “normalmente”. Não fotografar um momento é um momento digno de registo, seja ele qual for.
Infelizmente para mim, talvez só a Inteligência Artificial nos possa salvar e enviar para outra dimensão que não esta em que vivemos, porque seguramente a vida já não nos chega.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.