Nas últimas semanas, durante a onda de calor que atravessou a Europa, pelo menos sete crianças morreram depois de terem sido esquecidas dentro de automóveis. Duas delas, de dois e quatro anos, em Carpentras, no sul de França. Escrevo sobre isto porque a reação mais comum a estas notícias é sempre a mesma: “a mim nunca me aconteceria.” É precisamente essa certeza que a ciência desmonta.
Um carro fechado não precisa de um dia de calor extremo para se tornar perigoso. Um estudo de referência do meteorologista Jan Null, da San Jose State University, mediu a temperatura no interior de um veículo ao longo de 60 minutos, em dezasseis dias diferentes, com temperaturas exteriores entre os 22°C e os 36°C. O resultado foi sempre o mesmo padrão: o interior aquece, em média, 22°C acima da temperatura exterior ao fim de uma hora – independentemente de estar mais quente ou mais fresco lá fora. E 80% dessa subida acontece nos primeiros 15 a 30 minutos. Por outras palavras: não é preciso um dia de 38°C. Um dia ameno de 24°C já basta para o interior de um carro ultrapassar os 45-50°C em menos de meia hora.
Duas ideias que a maioria das pessoas usa para se sentir segura não resistem aos dados: deixar a janela entreaberta tem um impacto insignificante na temperatura final; ligar o ar condicionado antes de sair atrasa a subida da temperatura em cerca de cinco minutos – só isso.

O problema agrava-se porque isto mata uma criança muito mais depressa do que mataria um adulto. O corpo infantil aquece até cinco vezes mais rápido: tem uma superfície corporal proporcionalmente maior face à sua massa, e um sistema de sudação ainda imaturo, que demora mais tempo a reagir ao calor. O golpe de calor instala-se quando a temperatura corporal interna atinge os 40°C – e nessa altura os órgãos já estão a sofrer danos. Numa criança pequena, isso pode acontecer em 30 a 60 minutos.
Memória, não negligência
A reação mais comum a estas tragédias é procurar um culpado: só um mau pai, uma mãe distraída esquece um filho. A investigação diz outra coisa. David Diamond, professor de psicologia e fisiologia na University of South Florida, estuda este fenómeno desde 2004 e chegou a uma conclusão desconfortável: o cérebro humano tem dois sistemas de memória que competem entre si nestas situações. A memória semântica – o “piloto automático” que nos leva de casa ao trabalho sem pensarmos no trajeto – pode sobrepor-se à memória prospetiva, a que nos devia lembrar “hoje tenho de deixar o meu filho na creche”. Quando há uma quebra na rotina, stress ou privação de sono, o piloto automático vence. Diamond acabou por abandonar o termo popularizou, “síndrome do bebé esquecido”: hoje prefere dizer que não é mais do que uma falha de memória banal, tal qual o esquecimento do telemóvel, por exemplo, mas com consequências que não são nada banais.
Isto não é argumento para relaxar. É o oposto: é o argumento para não confiarmos apenas na atenção e no amor como sistema de segurança, e para construirmos hábitos que funcionem mesmo nos dias em que estamos exaustos ou a fazer, excecionalmente, o percurso ao contrário do costume.
Vale ainda sublinhar que nem todos os casos são de esquecimento. Segundo dados da organização norte-americana Kids and Car Safety, 54% das crianças foram esquecidas por um cuidador, mas 26% entraram sozinhas no carro a brincar e ficaram presas, e cerca de 19% foram deixadas propositadamente, por breves minutos. São três problemas diferentes, que pedem soluções diferentes.

O que fazer, na prática
A generalidade dos alertas sobre este tema fica-se pelo óbvio – “nunca deixe o seu filho sozinho no carro” – que é certo, mas inútil como prevenção: ninguém que já perdeu um filho assim tinha intenção de o fazer. Há medidas mais específicas e menos divulgadas: colocar, ao lado da cadeira da criança, um objeto de que se precise mesmo todos os dias (o cartão de acesso ao trabalho, a carteira), de forma a que seja fisicamente impossível sair do carro sem passar pelo banco de trás; combinar com a creche ou a ama um horário-limite a partir do qual ligam se a criança não tiver chegado; e, para quem tem um automóvel recente, verificar se este já dispõe de deteção de presença de criança – norma Euro NCAP desde 2023, hoje presente em muitos veículos sem que o condutor o saiba.
Há ainda um dado relevante para quem tem filhos mais crescidos: em caso de pânico, a ação mais eficaz não é tentar abrir a porta – é ir para os bancos da frente e buzinar repetidamente. É um gesto mais fácil de executar sob stress, e a buzina ouve-se de longe.
Em Portugal, deixar uma criança numa situação em que não se pode defender sozinha pode configurar o crime de exposição ou abandono (artigo 138.º do Código Penal), com pena de prisão de um a cinco anos. Mas a lei protege também quem socorre: perante um perigo real e iminente, partir um vidro para retirar uma criança é uma ação amparada pelo estado de necessidade. Na prática, perante uma criança em sofrimento visível num carro, sem localização imediata dos pais, a prioridade é ligar de imediato para o 112 — cada minuto conta, mais do que em quase qualquer outra emergência.
A ciência sobre este tema tem quase vinte anos. Faltava juntá-los num lugar, e traduzi-la em gestos concretos – não em mais um alerta que todos já ouvimos e que, por isso mesmo, deixámos de ouvir.
Joana Freitas é Técnica Avançada em Segurança Rodoviária Infantil (Universidade Pontifícia Comillas, Madrid) e fundadora do D’Barriga, especializado em segurança rodoviária infantil.
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