Salman Rushdie é um homem livre, mesmo que, à primeira impressão, se fique com a sensação de que vive enclausurado. Para concretizarmos esta entrevista, combinada uma semana antes entre a organização do festival Babell e os agentes do escritor, tivemos de passar por vários níveis de segurança. Logo à chegada ao hotel combinado no centro do Porto, somos discretamente observados por homens de fato completo e com auriculares no ouvido, que depois encontramos noutros pisos do edifício. São profissionais habituados a garantir a segurança de chefes de governo ou de Estado, mas que estavam ali para proteger um homem que apenas usa da palavra para pôr em página as histórias que saem da sua imaginação e da observação do mundo.
No entanto, a aparente tensão securitária desaparece no momento exato em que nos abrem a porta e entramos na suíte reservada para a entrevista: Salman está lá dentro, tranquilamente de costas para a porta, depois de ter estado a gravar uma conversa de 20 minutos com um canal de televisão francês. O escritor que se transformou numa celebridade mundial por causa da sentença de morte que lhe foi decretada pelo aiatola Khomeini, em 1989, vira-se e abre o sorriso – que só não é completo no rosto por causa da pala negra com que, nos óculos, esconde o olho que perdeu no ataque à facada que sofreu, nos arredores de Nova Iorque, há quatro anos.

