Viajar sempre foi uma paixão, muitas vezes sem o perceber. Por acaso, ou talvez não, tive a sorte de a transformar em trabalho. Enquanto repórter ou viajante, sinto-me mais atraído por zonas menos conhecidas, tantas vezes esquecidas, onde há sempre algo de novo por revelar – histórias, tradições, cheiros, sabores e, acima de tudo, pessoas
Ilha de Prócida, Itália
Sem o mediatismo de Capri ou dimensão de Ísquia, a mais pequena das ilhas do golfo de Nápoles é a que melhor preserva o espírito e o ambiente dos velhos tempos. Do porto Marina Grande, a principal porta de entrada, dominada pela fachada do Palazzo Montefusco, podem apanhar-se todo o tipo de transportes para as outras zonas da ilha, que devido à sua pequena dimensão pode, e deve, ser percorrida a pé. Um dos itinerários óbvios é subir a Via Roma em direção às ruas estreias do centro histórico. Quase sem darmos por isso, já estamos no outro lado da ilha, com vista para a bonita Marina Corricella, imortalizada no filme O Carteiro de Pablo Neruda, aqui filmado em 1994 (existe um percurso assinalado pela ilha a ele dedicado). Aconselha-se uma subida ao pequeno bairro fortificado de Casalle Vascello e, um pouco mais acima, até à Terra Murata, o ponto mais alto da ilha, de onde se pode apreciar a vista panorâmica sobre a baía, com as suas típicas casas mediterrânicas construídas em anfiteatro ao longo da encosta, descendo depois pelas estreitas ruelas até junto da água, onde inúmeras esplanadas convidam a ficar, para provar as especialidades gastronómicas desta ilha de pescadores.

Samarkanda, Bukhara e Khiva, Usbequistão
Em pleno coração da Ásia Central, o Usbequistão capitaliza como poucos países o imaginário exótico da Rota da Seda, através de uma série de cidades históricas exemplarmente preservadas, como a mítica Samarkanda, porventura a mais conhecida, devido à literatura e à banda desenhada de Corto Maltese. Habitada desde o século VIII a.C., é a cidade mais antiga da Ásia Central, onde ao longo da História se cruzaram culturas, povos e impérios – dos persas a Alexandre, o Grande, de Gengis Khan à União Soviética, meio mundo por aqui passou, e ficou. Igualmente impressionantes são Bukhara e Khiva, que se apresentam antes como história sob a forma de cidade. A primeira fica situada num oásis à porta do imenso deserto de Kyzyl Kum e as influências que recebeu mantêm-se até hoje, como é o caso da língua tajique, de origem persa, maioritariamente falada nestas ruas. Já Khiva, reza a lenda que terá sido criada por um dos filhos de Noé, que aqui, no meio do deserto, terá cavado um poço de onde brotava uma água sempre fresca. Hoje, apresenta-se aos visitantes como um daqueles locais que parece suspenso no tempo, onde a história se materializa nas feições, vestes, usos e costumes. Mas também em pormenores mais velados, como os símbolos zoroastras, expostos nas colunas das velhas mesquitas e nas paredes dos imponentes palácios como mera decoração, mas com significados mais profundos, há muito perdidos no tempo: suásticas, árvores da vida e as célebres “borboletas de Khiva”, que representam a eterna linha divisória entre o bem e o mal, sobre a qual todo o homem deve conseguir equilibrar-se ao longo da sua vida terrena.

Ilhas Lofoten, Noruega
Cem quilómetros acima do Círculo Polar Ártico, este arquipélago, composto por cinco ilhas principais e um sem-fim de ilhotas e ilhéus, tem sido nos últimos anos redescoberto por viajantes de tudo o mundo, que aqui chegam atraídos por uma natureza quase virgem e um modo de vida desacelerado. À medida que o ferry avança pelo mar da Noruega, começam a avistar-se, no horizonte, os enormes picos nevados, também conhecidos como muralha de Lofoten, por parecerem um enorme muro, com cerca de 100 quilómetros de extensão e nalguns casos com mais de mil metros de altura, a erguer-se no meio do mar.
O porto de chegada é Svolvær, considerada a cidade mais antiga do Círculo Polar Ártico, desde que foi fundada pelos vikings por volta do ano 800. Entre maio e julho, o sol nunca se põe por estas paragens, transformando a noite num longo lusco-fusco de luz mágica e confundindo por completo o relógio biológico. São diversos os locais da ilha de Austvågøya merecedores de visita, como a pitoresca vila piscatória de Kabelvåg, o lago Kongsvatnet ou o pico Tjeldbergtind, de onde se pode apreciar uma vista panorâmica sobre as ilhas e montanhas vizinhas.
Embora as principais ilhas do arquipélago estejam ligadas por estrada – por uma única estrada, aliás, a E10, com 130 quilómetros, que permite desbravar todo o arquipélago em modo road-trip –, há locais apenas acessíveis por barco, como é o caso de Trollfjor, o fiorde dos Trolls, ou a ilha de Skrova, uma das mais pequenas e isoladas do arquipélago, com apenas 2 quilómetros quadrados e pouco menos de 200 habitantes.
Seguindo pela E10, chega-se a Henningsvær, uma vila distribuída ao longo de uma sucessão de ilhéus, ligados entre si por diversas pontes e molhes. É também famosa pelo seu campo de futebol, considerado um dos mais bonitos do planeta, devido à singular localização: ocupa um ilhéu inteiro e em vez de bancadas está rodeado de postes com bacalhau a secar. Em direção a norte, fica a pequena ilha de Gimsøya, onde o isolado lugar de Hov é ideal para apreciar o sol da meia-noite ou, a partir de setembro, as auroras boreais. Mas se existe um verdadeiro postal ilustrado das Lofoten, então esse fica em Reine, uma localidade de ruas estreitas e casas pintadas de vermelho e branco, nalguns casos ainda com o tradicional teto de relva. É daqui que se acede ao miradouro situado mesmo no topo do Reinebringen, a montanha sobranceira a Reine. Para lá chegar é necessário subir uma íngreme escadaria de 3,5 quilómetros escavada na rocha.

Região das 4 mil ilhas, Laos
Enquanto a pequena embarcação avança lentamente pelo rio Mekong, sob a luz do sol-posto, é impossível não desligar do mundo lá fora. O destino é a pequena e bela ilha de Don Det, uma das inúmeras existentes na região de Si Phan Don, mais conhecida como “4000 ilhas”. Don Det tem pouco mais do que uma rua, mas onde já abundam esplanadas e alojamentos com vista para o rio, num ambiente bastante relaxado que se prolonga em bares como o OuSa Library House, conhecido pela música ao vivo, a cargo de uma banda local e da potente voz da vocalista, que também é proprietária do bar. Esta pequena ilha é também o ponto de partida perfeito para explorar as margens do imenso rio Mekong, a pé, de bicicleta ou de caiaque, o meio de transporte mais indicado por permitir várias paragens para caminhadas pelos campos e aldeias, e, claro, para refrescantes mergulhos. Um dos percursos mais populares é atravessar de Don Det para a ilha de Don Khone, deixando os caiaques junto à aldeia e percorrendo em seguida um trilho ao longo dos arrozais, que conduz à cascata Khonpasoi. Já na aldeia de Veun Kham, seguindo agora por terra, chega-se à impressionante cascata de Khon Phapheng, a maior do Sudeste Asiático em comprimento, com quase 10 quilómetros.
LEIA TAMBÉM:
Suíça: Um postal de Natal
Um inverno branco entre Genebra, Berna e Basileia
Itália: O fascínio das Dolomitas
À descoberta das montanhas que Le Courbusier apelidou de “a obra arquitetónica mais bela do mundo”
Europa encantada
Dezenas de mercados de Natal enchem as principais praças do Velho Continente com árvores iluminadas, música e muitas barraquinhas com brinquedos, iguarias gulosas e vinho quente
Islândia: Um abraço à mãe-Natureza
Ver auroras boreais e ir a banhos numa lagoa de águas quentes no país do gelo e do fogo
Cabo Verde: A ilha da calma e da gentileza
São pouco mais de 50 quilómetros de uma ponta à outra de Santiago, da cidade da Praia ao Tarrafal de má memória
Espanha: De Madrid a Toledo
Há muito para descobrir para lá da Gran Vía, com o bónus de visitar a capital manchega a meia hora de comboio
Marrocos: Tânger, a Branca
Paul Bowles sabia-a toda. E nós só não vamos na sua peugada se formos tontos
Brasil: Na terra dos Manezinhos
Na ilha de Santa Catarina encontramos as tradições açorianas. Um turismo de praia com muitas histórias para ouvir
Escolhas de Bernardo Conde
Fotógrafo, fundador do festival internacional de fotografia e vídeo de viagem e aventura Exodus Aveiro Fest e fundador e líder de viagens em Trilhos da Terra
Sofia Aparício: “Viajo para ganhar mundo, não é para descansar”
