Querida Patrícia,
Continuando na temática do futebol, de que não percebo rigorosamente nada, espanta-me sempre que, em cada oito portugueses, sete falem como treinadores de bancada. A semana começou com um sentimento de frustração para muitos portugueses. A seleção portuguesa foi eliminada do Mundial pela seleção espanhola e parece que é uma derrota que custa a digerir por acontecer às mãos dos nuestros hermanos. Há séculos que se alimenta esta rivalidade ibérica e talvez por isso perder contra a equipa espanhola tenha um sabor amargo para muita gente. Mas não é de futebol que te quero falar. O futebol serve apenas de pretexto para refletir sobre algo mais amplo, neste caso, a dificuldade que temos em lidar com a derrota. E quando digo derrota, refiro-me tanto às pequenas perdas do quotidiano (ver a equipa que representa o nosso país ser eliminada de uma competição, por exemplo), como às derrotas importantes — perder uma oportunidade de trabalho, um casamento, um projeto de vida, uma amizade. Vivemos numa sociedade que nos ensina a celebrar as vitórias, mas não nos prepara para perder. E perder, como tu, eu e quase todos sabemos, faz parte da condição humana. Não é estranho que continuemos a encarar cada derrota como uma humilhação, em vez de a vermos como uma consequência inevitável de quem se atreve a viver?
Lembro-me de ter lido há muitos anos, um livro de José Gil que provavelmente conheces — Portugal, Hoje: O Medo de Existir. Houve uma ideia que nunca mais me saiu da cabeça, a da inveja portuguesa. Aquela invejazinha discreta, mas profundamente corrosiva. Não a inveja entendida como admiração ou desejo de alcançar aquilo que o outro conquistou. É uma inveja que deseja o insucesso do vizinho, que gosta de ver um desconhecido ou um colega cair quando se esforça por subir. Convenhamos que é um sentimento muito, muito baixo. José Gil defende que esta característica, a inveja, faz parte da nossa cultura coletiva. Não sei se será exclusivamente portuguesa, eu acho que não o é, porque a natureza humana é mais universal do que gostamos de admitir. Mas reconheço que esta ideia continua a fazer-me pensar. Talvez porque sinto que aqui em Portugal, em vez de admirarmos quem vence, procuramos muitas vezes diminuir o seu mérito. E quando alguém perde, em vez de haver compreensão, há quem sinta uma notória satisfação. Quando o objetivo deixa de ser vencer e passa a ser apenas impedir que o outro vença, estamos perante um sentimento de ganância. E a ganância nunca produziu nada de bom, no desporto ou fora dele, trata-se apenas de uma rivalidade absurda. Talvez por isso haja quem viva as derrotas da sua equipa como se fossem derrotas pessoais e as vitórias dos outros como uma afronta. Continuo a dizer que não me parece que seja um sentimento ou um comportamento exclusivamente português, mas sem dúvida que é português, penso que todos nós o identificamos.
Esta carta acabou por ficar monotemática, é verdade, talvez também precisemos de voltar a ser monotemáticos — será que esta palava existe? —para ver se percebemos um bocadinho melhor as coisas. Sem pressa, sem a urgência de passar para outro assunto à velocidade de um polegar preguiçoso.
E sabes uma coisa? Tenho a certeza que o verdadeiro desportivismo, dentro e fora dos estádios, começa quando somos capazes de aplaudir quem ganhou, aprender com quem fez melhor e aceitar que também nos cabe a nós perder. Quando eu era miúda ensinaram-me que ganhar ou perder é desporto. É algo que tento ter em mente ainda hoje. Por isso, parabéns, seleção portuguesa, parabéns, seleção espanhola, parabéns a todos os que sabem ganhar e perder.
Cláudia Lucas Chéu
Esta rubrica é uma troca de correspondência entre Cláudia Lucas Chéu e Patrícia Portela