Espirros repetidos, congestão ou corrimento nasal, comichão persistente, olhos lacrimejantes, falta de ar ou um inchaço súbito que surge sem aviso. Para muitas pessoas, estes sintomas são encarados como um desconforto passageiro, quase banal. Para outras, são uma condição clínica permanente que exige adaptação e vigilância constantes e que, por vezes, pode até representar risco de vida.
As alergias, tantas vezes desvalorizadas, são das doenças crónicas mais frequentes em todo o mundo. Os dados mais recentes de organizações mundiais e sociedades científicas indicam que 20 a 30% da população mundial tem alguma doença alérgica, como asma alérgica, rinossinusite alérgica ou alergia alimentar, entre outras. Em Portugal, estima-se que cerca de 25 a 30% da população tenha uma doença alérgica, sendo a rinite alérgica a mais frequente. Estes números refletem vidas e decisões clínicas diárias.
A expressão “é só uma alergia” continua enraizada no discurso comum. No entanto, esta visão simplista ignora o impacto real e a heterogeneidade das doenças alérgicas. Uma rinossinusite alérgica não controlada pode comprometer o sono e reduzir a capacidade de memória e concentração. Por sua vez, a asma alérgica não controlada pode limitar a atividade física e impactar de forma significativa a qualidade de vida com absentismo escolar e profissional. Uma alergia alimentar pode transformar um gesto quotidiano, como partilhar uma refeição, num momento de ansiedade. Em situações mais graves, como na anafilaxia, pode desencadear sintomas súbitos potencialmente fatais, que exigem intervenção médica imediata.
O aumento da prevalência das doenças alérgicas não acontece por acaso. A crescente urbanização, a poluição atmosférica, as alterações climáticas, as mudanças nos hábitos alimentares e de higiene têm contribuído para alterar a forma como o sistema imunitário responde ao ambiente.
Perante esta realidade, torna-se evidente que a resposta não pode ser apenas individual. É fundamental investir na literacia em saúde, capacitando as pessoas para reconhecer os sintomas que possam estar associados a uma doença alérgica. É igualmente importante promover o acesso a avaliação clínica especializada, permitindo um diagnóstico atempado e uma abordagem terapêutica adequada. Contudo, também é necessária uma responsabilidade coletiva. As políticas públicas, por exemplo, devem apostar na melhoria da qualidade do ar e na criação de ambientes mais saudáveis.
Falar de alergias é falar não só de qualidade de vida, mas também de segurança, inclusão e empatia. É reconhecer limitações que nem sempre são visíveis, mas que têm um impacto significativo no quotidiano de milhares de pessoas. É substituir a desvalorização pelo conhecimento e a indiferença pela ação.
Neste Dia Mundial das Alergias, o desafio é simples, mas urgente: dar às pessoas com doença alérgica a atenção de que precisam. Porque, quando o (in)visível condiciona tanto, ignorá-lo deixa de ser uma opção.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.