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Um cartão vermelho costumava mandar um jogador para o balneário e castigá-lo com jogos seguintes de suspensão. No Mundial de 2026, pelos vistos, também pode mandar um Presidente telefonar à FIFA. Nesta grande feira planetária onde o futebol ainda finge ser um jogo enquanto a política, o dinheiro e o marketing vendem camarotes com ar condicionado moral, aconteceu uma daquelas cenas inacreditáveis que a realidade resolveu assinar com letra tremida e carimbo oficial. Folarin Balogun, avançado da seleção dos EUA, viu um vermelho direto contra a Bósnia. Noutro mundo, talvez mais antigo, talvez mais ingénuo, talvez anterior ao reinado de Gianni Infantino e das exceções bem vestidas, isto queria dizer uma coisa simples: castigo, bancada, fato de treino, olhar triste para o relvado e vida que segue. Mas este Mundial não vive nesse mundo. Vive no mundo de Infantino, onde a bola rola, mas a hierarquia do poder telefona e dá ordens.
A FIFA descobriu então, com aquele espanto administrativo de quem encontra uma gaveta secreta no próprio regulamento, que o artigo 27.º permite suspender uma sanção disciplinar. A lei existe, naturalmente. A lei está lá. A questão nunca é apenas a existência da lei. É o momento em que ela aparece, o destinatário que ela salva e o tamanho do poder que lhe sopra ao ouvido. Porque, no futebol como na política, existem regras para todos e interpretações para todos os gostos, sobretudo para benefício de alguns. Balogun foi expulso, mas ficou disponível. A suspensão transformou-se numa espécie de castigo metafísico: existe, mas não se vê; paira, mas não impede; castiga, mas só se o castigado fizer o favor de reincidir dentro do prazo de validade. É a sanção em modo cupão: use mais tarde, se ainda fizer sentido.
Convém não fingirmos virgindade indignada, porque também temos telhados de vidro. Pouco antes, na fase de qualificação Cristiano Ronaldo já beneficiara de engenharia disciplinar semelhante: três jogos de castigo transformados, na prática, num só jogo efetivo e dois em pena suspensa. Também aí o artigo apareceu como aquele amigo influente que chega ao jantar quando a conta vem alta e a paga sozinho. No caso português, a coisa foi recebida com aquele pragmatismo nacional que nos caracteriza: se é para o nosso lado, chama-se bom senso; se é para os outros, chama-se escândalo. Temos às vezes esta qualidade moral muito lusitana de não querer ver o que é evidente e de descobrir princípios universais apenas quando eles nos prejudicam.
O artigo 27.º, esse génio da lâmpada
A beleza obscena da coisa está na elegância burocrática. Nada de rasgar papéis, nada de invadir relvados, nada de árbitros fechados numa cave a observar o VAR. Apenas um artigo, um parágrafo, uma interpretação, uma decisão disciplinar embrulhada em linguagem neutra, essa anestesia geral das democracias cansadas e das organizações internacionais demasiado confortáveis. “Suspensão da sanção”, diz-se. Soa limpo, jurídico, quase higiénico. Mas o futebol percebe estas coisas antes dos juristas. O futebol sabe quando uma decisão cheira a relva e quando cheira a gabinete. E esta cheirava claramente a gabinete, a perfume caro, a fotografia de ocasião e a telefone presidencial acabado de pousar na secretária.
Donald Trump agradeceu. Claro que agradeceu. Trump agradece sempre que o mundo lhe confirma a sua tese preferida: a de que a realidade e a verdade são propriedades negociáveis e que as instituições existem para serem dobradas, desde que se fale suficientemente alto, suficientemente cedo, perto da câmara e, sobretudo, com muito dinheiro em jogo. Agradeceu à FIFA por “corrigir uma injustiça”, como se Infantino fosse um juiz bíblico de suíça lavada e sorriso de patrocinador. E Infantino, esse grande mestre de kung fu do futebol globalizado, lá encontrou no regulamento a porta de serviço por onde a justiça desportiva saiu de mansinho para fumar um cigarro.
Seria cómico, se não fosse tão educativo. Porque este episódio nunca foi apenas sobre Balogun, os EUA ou a Bélgica, que ficou a olhar para a decisão com aquela cara de quem entra num restaurante, pede a ementa e descobre que o prato principal já foi escolhido pela Casa Branca. Foi sempre sobre a FIFA. Sobre esta FIFA que adora falar de valores enquanto cobra bilhetes a preços obscenos; que prega a universalidade enquanto se instala no colo dos poderes fortes, do Catar à Arábia Saudita, passando agora pela América de Trump; que também captura a pequena vaidade política doméstica, de primeiros-ministros em modo bancada VIP, quando o país continua cá fora, a governar-se como pode e a ver os jogos pela televisão. Entretanto, a FIFA distribui discursos sobre inclusão com uma mão e convites VIP com a outra. A FIFA não vende apenas futebol. Vende a ilusão de que o futebol continua acima de tudo isto. E é pura mentira.
A Bélgica fez o que a FIFA não fez: castigou
Só que a bola é redonda e essa mal-educada ainda tem dias em que não respeita comunicados oficiais nem decisões de bastidores. Balogun jogou. Trump venceu na véspera. Infantino sobreviveu ao ridículo. A Casa Branca fez o seu “USA-USA-USA”. Mas depois começou o jogo. A Bélgica entrou em campo como quem vinha não só disputar uns oitavos-de-final, mas fazer uma auditoria moral ao espetáculo. Ganhou 4-1, despejou os EUA do seu próprio Mundial e ofereceu à FIFA uma daquelas respostas que não cabem em pareceres jurídicos: quatro golos, vários erros defensivos norte-americanos, Balogun quase invisível e a seleção anfitriã a sair pela porta pequena, apesar de todos os tapetes vermelhos estendidos antes do apito inicial.
A ironia foi cruel e deliciosa. O jogador que tinha sido salvo pelo telefone presidencial não salvou ninguém. A equipa que queria ganhar o Mundial em casa saiu aos oitavos. A potência organizadora — juntamente com o México e o Canadá, que também já viram as suas seleções eliminadas — transformara o torneio numa espécie de pavilhão da sua excecionalidade e descobriu que a excecionalidade também leva quatro se defender mal. O caso Balogun, que parecia um triunfo de bastidores, acabou por virar metáfora perfeita deste Mundial: muito poder fora do campo, pouca autoridade dentro dele.
Mauricio Pochettino, aparentemente um homem sério, treinador competente, talvez demasiado elegante para a desordem simbólica que o rodeava, ficou com uma seleção partida entre a ambição legítima e o delírio publicitário. Os EUA queriam ser campeões do mundo porque o país anfitrião, ainda por cima no ano dos 250 anos da sua independência, decidiu que o destino também se imprime em merchandising futebolístico. Mas não basta vender a ideia de grandeza. É preciso defender cruzamentos, fechar espaços, não oferecer golos e, detalhe menor, jogar melhor do que a Bélgica. A América quis nacionalizar o futebol por decreto emocional. O futebol respondeu-lhe em flamengo, francês, neerlandês e contra-ataque.
A América que ainda não sabe se gosta de futebol
O mais interessante é que isto acontece nos EUA, país que passou mais de um século a olhar para o verdadeiro futebol — que eles chamam “soccer”, com aquele ar de quem batiza uma coisa estrangeira para a tornar menos ameaçadora — como se fosse uma doença trazida por imigrantes, estudantes cosmopolitas e mães de subúrbio com carrinhas cheias de crianças de caneleiras. O “soccer” sempre foi, na América, mais do que um desporto. Foi uma pergunta étnica, cultural e política: quem pertence realmente aqui? Quem é realmente americano?
Os americanos inventaram para si próprios mitologias desportivas musculadas e domésticas: o basebol como pastoral nacional, o futebol americano como guerra civil com capacete, o basquetebol como jazz vertical. O futebol vinha de fora. Chegou com imigrantes, operários, irlandeses, escoceses, ingleses, alemães, húngaros, latinos, caribenhos, todos esses corpos que a América precisava para trabalhar, mas nem sempre queria reconhecer como parte da sua fotografia oficial.
Durante décadas, gostar de futebol nos EUA era uma espécie de declaração involuntária de suspeita. Ou se era imigrante, ou cosmopolita, ou professor universitário com cachecol do Arsenal ou do Manchester United, ou criança de subúrbio inscrita num clube privado, ou latino-americano, mexicano em Los Angeles ou Miami a ver a Liga MX com mais paixão do que muitos americanos reservavam à própria seleção. O futebol, na América, tornou-se um campo de batalha cultural. Para uns, era sinal de abertura ao mundo. Para outros, sintoma da decadência americana, essa velha ladainha de quem acha que qualquer bola que não seja oval já é uma ameaça à civilização ocidental e um pretexto para uma revolução socialista.
E eis que, no ano das grandes comemorações patrióticas, com a América a celebrar-se a si própria com fogos-de-artifício, hinos, discursos e aquela habilidade única de transformar qualquer aniversário numa campanha publicitária, o futebol chegou finalmente ao centro do palco. Mas não chegou como festa inocente. Chegou com vistos, fronteiras, policiamento migratório, seleções estrangeiras sob suspeita, adeptos impedidos, comunidades vigiadas, bilhetes caríssimos e um presidente que descobriu no “soccer” não uma língua universal, mas mais um palco para exercer poder. A pergunta antiga regressou com chuteiras novas e, curiosamente, quase todas cor-de-rosa: quem pode entrar no estádio? Quem pode torcer pela sua seleção? Quem pode representar a América? Quem pode ser salvo por um telefonema?
A resposta, por agora, é simples: Balogun pôde jogar. Os EUA não puderam continuar.
Portugal, esse outro telefonema que ninguém fez ao futuro
Do outro lado da desilusão, mais perto de nós e por isso mais doloroso, Portugal também se veio embora. Não com escândalo de gabinete, nem com telefonema presidencial, nem com artigo disciplinar tirado da cartola. Portugal saiu como tantas vezes sai: com talento suficiente para sonhar, prudência suficiente para adormecer e uma estranha vocação nacional para transformar gerações riquíssimas em exercícios de melancolia tática. Espanha venceu 1-0. Portugal voltou para casa. E poucos poderão dizer que o desfecho foi uma injustiça. Não foi. Poderão dizer que foi triste. Poderão dizer que foi cruel. Poderão dizer que foi o fim de uma era. Injusto, não.
A equipa de Roberto Martínez parecia ter chegado ao Mundial com um plantel capaz de jogar vários futebóis e escolheu quase sempre o mesmo, o mais pesado: o futebol da reverência. Não reverência pela bola, mas pela figura. Cristiano Ronaldo foi uma das maiores figuras da história do jogo, um monumento competitivo, um animal de área, uma biografia que já não precisa de mais capítulos para ser lida como epopeia. O problema é que uma seleção nacional não pode jogar de joelhos perante a sua própria lenda. E Portugal jogou demasiadas vezes como se ainda fosse obrigatório pedir autorização ao passado para atacar o futuro.
A questão nunca foi simples nem ingrata. Nunca se tratou de apagar Ronaldo, humilhá-lo, descartá-lo como se a gratidão fosse uma peça de museu partida. Tratava-se de perceber que, em 2026, aos 41 anos, Ronaldo já não podia ser o centro gravitacional de uma seleção que tem Bruno Fernandes, Bernardo Silva, João Félix, Rafael Leão, Francisco Conceição, Vitinha, João Neves, Nuno Mendes, Diogo Costa, Trincão, Gonçalo Ramos e mais não sei quantos bons jogadores convocados para verem o Mundial sentados. Portugal tinha um lote de futebolistas capaz de acelerar, pressionar, variar, ocupar espaços, trocar posições, desmontar adversários e substituir quem estava em campo sem que o edifício ruísse ou até mudando o esquema para surpreender o adversário. Em vez disso, demasiadas vezes pareceu amarrado a uma obrigação emocional: colocar Ronaldo no onze e depois procurar um modelo que justificasse sempre a sua presença.
Foi essa a teimosia — ou a obrigação? — de Roberto Martínez. Não a de convocar Ronaldo, que ainda podia ter utilidade, peso, experiência, ameaça, presença de balneário e momentos de área. A teimosia foi maior: foi insistir em fazê-lo caber no centro do sistema como se o sistema não sofresse. Ronaldo já não pressiona como antes, já não ataca a profundidade como antes, já não dribla nem oferece apoios interiores como antes, já não permite a mesma elasticidade coletiva, já não marca bolas paradas como antes e joga praticamente sempre ao primeiro toque. Quando a equipa precisava de um avançado que ligasse jogo, arrastasse centrais, libertasse corredores e abrisse espaços, encontrou demasiadas vezes uma referência fixa, sem grande mobilidade, à espera de cruzamentos que raramente chegavam em boas condições. A lenda continuava lá. O jogo passava ao lado. E os comentadores da RTP reclamavam e gritavam pelo Gonçalo Ramos como nós gritamos quando percebemos que o óbvio, em Portugal, costuma chegar tarde.
A siesta tática de Martínez
Contra Espanha, era inevitável: mesmo com os espanhóis longe de uma exibição imperial, a tragédia foi menos explosiva do que sonolenta. Parecia haver um pacto de não-agressão entre irmãos ibéricos, mas era apenas um engodo espanhol. Portugal adormeceu na siesta e a Espanha, mais dona da bola, mais confortável no desconforto, mais fiel à sua ideia de jogo, esperou pelo momento certo para fazer substituições e espetar o alfinete. Foi um jogo de poucas ruturas portuguesas, muita circulação sem veneno, pouca verticalidade e demasiados jogadores a pedir a bola no pé, como se alguém tivesse desligado o botão da urgência.
A Espanha fez mais para vencer. Não esmagou, é verdade; não deslumbrou; não deu uma lição histórica. Mas teve mais intenção, mais mecanismos, mais clareza. Portugal teve momentos, teve Nuno Mendes enquanto durou, teve João Félix intenso, teve Diogo Costa a impedir que a ferida abrisse cedo demais, teve Leão para assustar por arrancadas, embora por pouco tempo, teve Bernardo num cabeceamento final, teve vontade já quando a vontade sozinha era pouco. O que não teve foi plano suficiente para ser mais do que uma equipa cheia de bons jogadores à espera de uma ideia.
Martínez pagou por várias decisões. Pagou por tratar a fase inicial como preparação quando a classificação também desenha caminhos. Pagou por não perceber a diferença entre ficar em primeiro ou em segundo, entre escolher uma estrada e aceitar um precipício. Pagou por mexer tarde, por insistir em equilíbrios que já não equilibravam, por deixar a equipa viver demasiados minutos entre o medo de perder e a incapacidade de ganhar. E pagou, acima de tudo, por não resolver a questão Ronaldo. Fernando Santos, em 2022, teve a coragem tardia e desajeitada de a enfrentar. Martínez preferiu embrulhá-la em diplomacia. A diplomacia, no futebol, raramente marca golos.
Quando Mikel Merino apareceu para decidir, Portugal já estava naquele estado perigoso em que uma equipa parece satisfeita por ainda não ter perdido. O lance não foi apenas um golo. Foi uma acusação. Uma equipa desligada, uma reação atrasada, centrais arrastados, espaço oferecido, Espanha a fazer com simplicidade o que Portugal complicou durante quase todo o jogo: encontrar o momento, acelerar, ferir. Depois veio o desespero, esse velho plano B nacional. Cruzamentos, precipitação, fé, nomes próprios. Muito pouco futebol organizado.
A geração que ficou à porta da sua própria festa
O balanço português é particularmente cruel porque este não era um plantel menor. Pelo contrário. Portugal chegou ao Mundial de 2026 com uma das gerações mais completas da sua história recente. Talvez não a mais romântica, talvez não a mais épica, mas uma das mais profundas. Havia talento para vários modelos, para vários ritmos, para vários adversários. O problema é que uma equipa com muitas soluções também pode morrer por excesso de reverência e falta de escolha. Martínez quis agradar a todos os tempos: ao passado de Ronaldo, ao presente de Bruno e Bernardo, ao futuro de Vitinha, Neves, Leão, Félix e companhia. Acabou por não construir plenamente nenhum.
Ronaldo queria o Mundial. Portugal queria dar-lhe esse último presente. A intenção era bonita, mas foi-se. O futebol tem péssima educação sentimental. Não respeita despedidas preparadas. Não se comove com guiões de homenagem. A bola não sabe quem merece. Sabe quem chega primeiro, quem ocupa melhor o espaço, quem decide melhor, quem corre no tempo certo, quem lê o jogo antes dos outros. Portugal confundiu homenagem com estratégia. E uma homenagem, por mais justa que seja, não pode ser o modelo de jogo de uma seleção.
Isto não diminui Ronaldo. Pelo contrário. Talvez a melhor forma de respeitar a sua grandeza fosse ter deixado de lhe pedir o impossível. O Ronaldo de 2026 não podia ser o Ronaldo de 2016, de 2018 ou sequer de 2022. Podia — e devia, até por iniciativa própria — ter sido outra coisa: arma específica, presença de área, jogador de momentos, recurso emocional, liderança sem obrigação de titularidade eterna. Mas Portugal, que tantas vezes vive mal com a morte simbólica dos seus pais, preferiu fingir que o tempo estava suspenso. O tempo, como se viu, não estava. Só a sanção da FIFA é que suspende quando convém.
A palhaçada com fato oficial
No fim desta primeira metade decisiva do Mundial, o retrato é extraordinário. Os EUA, país anfitrião, foram eliminados apesar da ginástica disciplinar. Portugal, candidato sentimental e técnico, caiu porque não soube libertar-se da sua própria mitologia. O Brasil já tinha sido apanhado pela Noruega. O México também saiu. O Canadá ficou pelo caminho. Os co-anfitriões foram desaparecendo como figurantes caros num filme que afinal não era sobre eles. E a FIFA continua lá, sorridente, a vender a próxima fase como se nada disto tivesse cheiro a farsa, azar, espetáculo e negócio misturados no mesmo copo de plástico.
Chamemos-lhe pelo nome: isto é uma palhaçada. Mas uma palhaçada cara, internacional, juridicamente fundamentada, servida com gráficos televisivos, estádios cheios e patrocínio oficial. A palhaçada moderna já não usa nariz vermelho; usa credencial. Já não entra no circo por uma cortina; entra por comunicado oficial. Já não tropeça em baldes; tropeça em princípios. E, no fim, ainda nos pede que aplaudamos a maturidade institucional do processo.
O futebol, esse animal teimoso, resiste porque felizmente é maior do que eles, porque tem qualquer coisa de arte. Resiste no passe bem feito, no miúdo que imita um golo no recreio, no adepto que atravessa meio mundo para ver a sua equipa ou seleção, no velho que ainda sabe de cor a equipa de 1950, no mexicano que vê a sua seleção em solo americano e se sente em casa e fora dela ao mesmo tempo, e também em certos portugueses que criticam a FIFA mas agradecem quando o artigo certo salva o seu capitão. O futebol é contraditório porque nós somos contraditórios. Mas existe uma diferença entre contradição humana e cinismo institucional. Uma coisa é o adepto ser parcial. Outra é o regulamento parecer ter favoritos.
O Mundial de 2026 queria ser a consagração americana do futebol. Talvez ainda seja, como espetáculo, como negócio, como máquina. Mas, até agora, está a mostrar outra coisa: a América ao espelho, aberta e fechada, cosmopolita e nativista, anfitriã e porteira, fascinada pelo mundo e sempre tentada a mandar nele; Portugal ao espelho, talentoso e preso, moderno na ficha técnica e antigo nas hierarquias emocionais; e a FIFA ao espelho, exatamente como já sabíamos que ela era, embora às vezes nos esqueçamos por causa de uma boa jogada: uma máquina de poder com relva à frente.
A bola, coitada, continuará redonda e agora até tem chip para acusar foras-de-jogo. A FIFA é que está cada vez mais oval. Trump, que talvez nunca tenha percebido inteiramente o que é um fora-de-jogo, e para que serve o VAR, compreendeu o essencial do futebol moderno: às vezes, para ganhar terreno, não é preciso driblar ninguém. Basta telefonar. Portugal, esse, talvez precise de aprender uma lição ainda mais dura: às vezes, para voltar a jogar futebol, é preciso desligar o telefone do passado.
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