Nas últimas décadas, a escola, como a conhecemos, tem vindo a ser confrontada com profundas transformações que vieram alterar de forma substancial o perfil de competências exigido às novas gerações. A emergência da Inteligência Artificial, a velocidade da transformação tecnológica, a crescente imprevisibilidade e exigências do mercado de trabalho ou os desafios de saúde mental demonstram que o futuro das crianças e jovens que hoje frequentam a escola dependerá não só do conhecimento científico como de um conjunto de outras competências praticamente ausentes dos currículos escolares.
Diferentes organismos internacionais, como o Fórum Económico Mundial, a OCDE ou a UNESCO convergem na ideia de que educar significa também desenvolver e integrar nos currículos capacidades como empatia, autorregulação, comunicação, cooperação, resiliência ou pensamento crítico, identificando, de forma consistente, as competências socio-emocionais como um dos fatores decisivos para o sucesso académico, profissional e pessoal das novas gerações. Também a ciência aponta no mesmo sentido defendendo que estas competências podem ser ensinadas, desenvolvidas e avaliadas, produzindo benefícios evidentes na aprendizagem, na empregabilidade, na saúde mental e na participação cívica dos indivíduos. Apesar deste reconhecimento, a resposta dos sistemas educativos continua a ser tímida. Em Portugal esta visão encontra algum enquadramento no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (PASEO), que valoriza explicitamente o desenvolvimento pessoal, o relacionamento interpessoal, o bem-estar e a autonomia como dimensões fundamentais da educação. Existe, contudo, uma contradição entre aquilo que as orientações preconizam e o que o currículo efetivamente concretiza. Enquanto as restantes áreas científicas dispõem de tempos letivos próprios e claramente definidos, estas dimensões continuam remetidas para projetos, iniciativas pontuais ou abordagens transversais, cuja implementação depende, em grande medida, da vontade e da capacidade de cada município, de cada escola ou até mesmo da iniciativa de cada professor. Ainda assim importa ressaltar a importância de iniciativas municipais que, em estreita articulação com os agrupamentos de escolas, têm vindo a implementar programas de promoção de competências socioemocionais, baseados em evidência científica, em parceria com outras organizações, reportando resultados muito positivos que apontam de forma consistente para melhorias significativas no clima escolar, na qualidade das relações interpessoais, na motivação dos alunos assim como nas aprendizagens.
Incluir as competências socio-emocionais nos currículos escolares não significa diminuir a exigência académica nem relegar conteúdos científicos para segundo plano, antes representa responder às exigências de um mundo em constante mudança, através de uma visão educativa mais completa, integrada e humanista.
Naturalmente, a integração destas competências nos currículos implica desafios. Para além do investimento em materiais e recursos pedagógicos adequados implica também a adoção de metodologias pedagógicas centradas na participação ativa dos alunos, ambientes escolares seguros e modelos de avaliação que valorizem processos de aprendizagem diferentes dos tradicionais. Por outro lado, esta responsabilidade não pode ser atribuída exclusivamente à escola. As competências socio-emocionais desenvolvem-se desde cedo no contexto familiar, onde se constroem padrões de comunicação, regulação emocional, empatia e responsabilidade. A escola desempenha um papel fundamental, mas a sua ação será tanto mais eficaz quanto mais articulada estiver com as famílias. Neste contexto, uma disciplina curricular poderia assumir igualmente uma importante função agregadora, promovendo uma verdadeira aliança educativa entre escola, família e comunidade.
A questão que hoje se coloca já não é a de saber se a promoção das competências socio-emocionais na escola é importante, mas antes quando as comunidades educativas estarão plenamente dispostas a reconhecer a relevância que estas assumem no desenvolvimento dos alunos. A integração das competências socio-emocionais nos currículos escolares constitui uma resposta às exigências do mundo contemporâneo, refletindo uma conceção de educação integral que promove o desenvolvimento equilibrado das dimensões académica, pessoal, social e emocional de cada aluno.