Escolhas de Bernardo Conde

Foto: Bernardoconde.com

Escolhas de Bernardo Conde

Quando viajo, gosto de ir em busca de povos e locais que me impactem. Tenho fascínio por paisagens que me reduzam ao ponto de me sentir um grão de areia na imensidão, e busco povos resilientes que contribuam no meu propósito de aprender e me inspirar com eles. Com isto em mente, sugiro quatro destinos: Madagáscar, Paquistão, Mongólia e Albânia.

Paquistão

A Região Norte do Paquistão foi uma escolha sobretudo para buscar a parte do país mais desgarrada daquilo que podia ser uma imagem de uma segunda Índia, porque é muito mais do que isso. Aqui aparecem das três cordilheiras mais altas do mundo, mas qualquer elevação nos faz sentir minúsculo. Incidi especialmente nas regiões de Hunza e Gilgit-Baltistan. Foi uma experiência que desafia preconceitos. Envolvidas pelas majestosas montanhas do Karakoram, estas áreas não só impressionam pela beleza natural, mas também pela profundidade humana que oferecem. Quantas vezes, ao sermos acolhidos afavelmente pelos locais ou pela própria polícia, escutava dizerem: “We are not terrorists!”

Ao chegar, somos recebidos com uma hospitalidade única. Os habitantes locais, de sorriso sincero e gestos acolhedores, fazem-nos sentir parte de algo maior. Recordo–me de partilhar chai, um símbolo de calor humano, enquanto ouvia histórias sobre os antigos reinos que ali floresceram.

A História está viva em cada canto, desde o Forte Baltit, com séculos de memórias, até à antiga Rota da Seda, ao frenesim de Peshawar, que liga o presente ao passado. E a gastronomia é uma revelação: pratos como o chapshuro e os frutos secos locais refletem a ligação intensa entre o povo e a terra.

Ir a esta zona permite-nos ainda ir fundo num pequeno grupo de uma comunidade de etnia Kalash, onde tudo é diferente, a fisionomia, as vestes, a língua, a espiritualidade.

Albânia

Visitar este território é descobrir um país marcado por cicatrizes, mas vibrante em resiliência e hospitalidade. Atravessando as montanhas dramáticas e a costa azul do Adriático, somos confrontados com as histórias de um passado ditatorial que, embora sombrio, moldou a força e a identidade do povo albanês. Os bunkers espalhados pelo país são lembranças de tempos de isolamento, mas que hoje servem como símbolos de superação.

Lembro-me de ser recebido com um sorriso caloroso numa aldeia remota. Apesar das dificuldades históricas, os albaneses mostram uma simpatia genuína, como se quisessem partilhar o melhor do seu país com o mundo. A generosidade, mesmo com tão pouco, é tocante. A melhor experiência que tive foi no restaurante da linda cidade de Berat, onde conheci o Lili, dono e empregado de mesa cujos atendimento e comida deixam qualquer um ébrio de tanta simpatia e delicadeza.

Por outro lado, a ancestralidade do país é igualmente impressionante. Locais como Butrint, uma antiga cidade romana, revelam camadas de História que nos transportam no tempo. Na Albânia, aprendi que a adversidade fortalece e que a autenticidade está nos pequenos gestos.

Madagáscar

Ir a Madagáscar é embarcar numa jornada de descoberta que vai muito além de simples paisagens exóticas. Lembro-me do momento em que pisei pela primeira vez aquela terra avermelhada, rodeada de embondeiros imponentes e sorrisos calorosos. Madagáscar não é apenas um destino; é um convite a redescobrir a humanidade em todas as suas facetas.

A riqueza natural da ilha impressiona. Da zona de savana à desértica, das florestas tropicais às praias paradisíacas, cada cenário mostra uma diversidade impressionante. Mas foi o contacto com as pessoas que realmente me marcou. As comunidades locais das diversas etnias, com a sua simplicidade e a sua alegria de viver, ensinaram-me a valorizar o que temos de forma diferente. Conversar com um pescador ao pôr do sol ou brincar com as curiosas crianças revelou-se tão valioso quanto visitar os famosos Tsingy, a Avenida dos Embondeiros ou observar os lémures.

A ilha da terra vermelha é uma lição viva de resiliência e diversidade. A sua cultura, um mosaico de influências africanas, asiáticas e europeias, reflete a capacidade humana de adaptação e integração. Viajar para lá não é apenas explorar um território, é uma experiência transformadora. Ao regressar, trago sempre mais do que memórias – trago vivências que me ajudam a pôr os pés no chão e a compreender melhor o meu papel.

Mongólia

A Mongólia é uma imersão num mundo onde o essencial ganha novo significado. Ao atravessarmos os vastos desertos e estepes, somos sempre convidados a desacelerar, a observar e a viver com menos. O estilo de vida nómada, tão característico do país, é uma lição prática de minimalismo, onde cada objeto tem uma função e cada momento, um propósito.

Lembro-me de chegar a um ger, as tradicionais tendas mongóis, e ser recebido com uma taça de chá de leite salgado. A hospitalidade dos nómadas é verdadeiramente genuína, profundamente enraizada numa cultura que valoriza o acolhimento de estranhos como parte da sobrevivência nas duras paisagens. Apesar da simplicidade, há riqueza nos gestos, como partilhar um prato de khorkhog (prato tradicional de carne grelhada num wok gigante com pedras incandescentes), ouvindo histórias sobre cavalos e rebanhos ao calor de uma salamandra que aquece a tenda.

Se a Mongólia tiver de ensinar alguma coisa, é que menos é mais. Num mundo cada vez mais acelerado, esta viagem é um convite a refletir sobre o que realmente importa, conectando-nos com a Natureza e com a essência humana.

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