Não sou de andar de livro na mão exibindo hábitos livrescos, mas leio nos transportes. Para o ter à mão, entalo-o entre o topo interior da sacola e a cobertura. O problema deste método é que o livro fica à mostra. Descobri-o, aqui há atrasado, quando a menina de um Bazar no Chiado, certamente instruída para meter conversa com os clientes, me perguntou o que estava a ler.
— “Uma biografia… um ensaio sobre um francês do século XIX. Um tal de Marquês de Morès.”
Pausa. Voltei à faca de queijo.
— “E quem era esse senhor?”
Esperei um segundo.
— “Um feroz anti-semita. Um infame proto-fascista.”
— “Nossa! Terrível! O que leva uma pessoa a ser assim? Deve ser fascinante perceber como essas pessoas pensam.”
Foi então que proclamei:
— “Pensam como nós.”
O silêncio incómodo que se seguiu parecia tirado de uma cena do Curb Your Enthusiasm. A lojista esperava uma resposta literária, talvez curiosa, e eu atirei-lhe com Hobbes e Santo Agostinho.
Tentei então tranquilizar a pequena samaritana. Disse-lhe, mais coisa menos coisa, que Morès é uma possibilidade humana. O anti-semitismo, como outras formas de desumanização, nasce quando a parte pior de nós encontra uma linguagem que a justifica. A rapariga, quem sabe para me perdoar, quem sabe para se salvar da conversa, ainda mencionou Hannah Arendt. O que me pareceu justo.
E foi então que alguém me enviou o excerto do Toy, na gala dos Prémios Play.
Entre vernáculo e condescendência pelo grupo que ganhou o Festival da Canção, resolveu dizer que o primeiro-ministro israelita é um assassino de crianças. Aguentem os cavalos. Não vou dizer que o Toy é anti-semita. O Toy parece pertencer àquele tipo de homens que dizem sempre sim antes ainda de saberem qual é a pergunta. O problema não é ser cantor popular — tomara eu. O problema é o nacional-porreirismo: aquela pulsão de estar bem com tudo e com todos, em toda a parte e ao mesmo tempo. Ora, não há coisa mais perigosa do que a necessidade de ser aceite. Nações inteiras ergueram-se e caíram pelo desejo de um só homem ser amado. Toda aIlíada é atravessada por gente que não aceita não ser devidamente reconhecida.
Vai daí, Toy disse o que lhe pareceu que aquela audiência queria ouvir. Sabia, ou pressentiu, o efeito que causaria dizendo-o daquela maneira. Há um vocabulário pronto a usar, há uma recompensa social por usá-lo; e a frase já vinha validade antes sequer de ser pensada.
Imaginamos que não lhe tenha ocorrido que a figura do judeu como predador de crianças, como força oculta e sanguinária por detrás da desgraça dos inocentes, pertence ao imaginário mais velho e mais pútrido do anti-semitismo europeu. O leitor pode achar que estou a tomar liberalidades, a esticar o argumento ou a tentar forçar uma equivalência. Netanyahu é Netanyahu e judeus há muitos; cada um é como é, etc. É justo.
Só que, na Quarta-feira, dois judeus foram esfaqueados em Golders Green, Londres, num ataque tratado pela polícia como terrorismo anti-semita. No dia seguinte, o Reino Unido elevou o nível de ameaça terrorista para “severe” e o Governo declarou o anti-semitismo uma emergência nacional. Digamos que, no actual estado de coisas, uns dislates daquele calibre talvez possam soar um tanto quanto levianos.
Lembram-se do cocktail molotov na Marcha pela Vida? Há anos que, nos jornais, nas televisões, no comentariato, aquela gente é ridicularizada, tratada como retrógrada, uma vergonha ambulante. Um dia aparece alguém que acredita na caricatura até ao fim e lá vai fogo.
Uma garrafa não nasce sozinha. Antes dela há uma atmosfera que, quando se torna suficientemente densa, cumpre o seu trabalho de sapa. Não é preciso ter uma cópia dos Protocolos dos Sábios de Sião na mesinha-de-cabeceira para repetir uma imagem que o anti-semitismo reconhece como sua. Basta repeti-la. Morès, ao menos, obriga-nos a olhar para o abismo. Toy não.
Devia voltar ao Chiado para tentar dizer isto à rapariga. O que é realmente fascinante não é perceber como pessoas como Morès pensam; é perceber como Morès continua, sem grande esforço, a encontrar todo o tipo de vozes disponíveis.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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