Em cada vila e pequena cidade existem pessoas que deixam marcas profundas, mesmo longe dos grandes holofotes. São histórias de coragem, dedicação, talento e identidade que ajudam a construir a alma da terra onde nasceram ou escolheram viver. “Gente da Nossa Terra” dá voz a essas figuras especiais — homens e mulheres que, com o seu percurso, trabalho e humanidade, fazem parte da memória e do orgulho das suas comunidades. Porque as grandes histórias também vivem nas ruas pequenas, nas praças familiares e no coração de cada lugar.
António José Salvador Coutinho, nasceu à beira-mar, em Espinho, a 25 de setembro de 1935, como quem recebe do Atlântico uma primeira lição de vastidão. Primogénito de sete irmãos, trazia no sangue a herança de famílias republicanas, de homens que ajudaram a erguer uma terra e lhe deram identidade. Mas a sua verdadeira geografia interior haveria de desenhar-se mais a norte, quando, aos nove anos, a vida o levou para Vila Nova de Famalicão, para a freguesia de Calendário, onde a Rua da Liberdade se tornaria não apenas morada, mas destino.

Foi nessa rua, de nome quase profético, que cresceu. Entre o aroma farmacêutico do balcão paterno, na Farmácia do Calendário, e o pulsar comunitário de uma vila em transformação, Salvador aprendeu cedo que a vida se faz de observação, memória e palavra. A infância foi-lhe feliz, luminosa, povoada de figuras populares, vizinhos, gestos simples e afetos duradouros. Décadas mais tarde, haveria de regressar a esse território não com os pés, mas com a poesia, transformando lembranças em versos e a “Bila” em eternidade literária.
Mas este menino de rua provinciana sonhava alto: queria ser advogado. E foi. Não por facilidade, mas por obstinação. Trabalhou desde jovem na Fábrica de Pneus Mabor, em Lousado, enquanto estudava Direito na Universidade de Coimbra como aluno voluntário. De dia, o labor industrial; à noite, a disciplina dos códigos e das ideias. Fez da dureza um método. Em 1970 abriu escritório em Famalicão e tornou-se homem da lei não apenas da profissão, mas da convicção.
Advogar, para Salvador Coutinho, nunca foi apenas aplicar normas: foi defender pessoas. Antes e depois do 25 de Abril, colocou-se ao lado de trabalhadores, sindicatos e causas democráticas. Enfrentou a vigilância da PIDE, foi interrogado, resistiu ao medo. Contestou o Estado Novo, militou na oposição, participou civicamente num país ainda por libertar. O preço foi alto: o assalto e destruição do seu escritório, em 1975, foi mais do que vandalismo político, foi uma tentativa de silenciar uma voz. Não conseguiram. Recomeçou quase do zero, como tantas vezes fazem os homens de fibra rara.
Pelo caminho, houve ainda o desporto – futebol, hóquei em patins, columbofilia como expressão de disciplina e comunidade. No rinque e nos campos, como na vida pública, Salvador foi sempre um homem de entrega.

Mas havia outra vocação, talvez a mais funda: a escrita.
Estreou-se literariamente aos 22 anos com “Eu”, título revelador de quem começava uma longa escavação interior. Vieram depois contos, crónicas, romances, poesia. Escreveu contra a ditadura, escreveu sobre o amor, sobre o mar, sobre a memória. E escreveu, sobretudo, para não deixar morrer aquilo que o tempo tenta apagar.
Aos 90 anos, quando muitos já repousam no silêncio, Salvador Coutinho continua a escrever. Como se cada livro fosse ainda uma conversa inacabada com a infância, com a liberdade, com a justiça, com Famalicão. “Era uma vez uma história que não sabia contar-se” não é apenas o título de uma obra, é a síntese de uma vida inteira: a história de um homem que levou décadas a transformar experiência em linguagem, e memória em património coletivo.
Salvador é, assim, mais do que advogado, político, desportista ou poeta. É um guardião da memória. Um homem que fez da palavra casa, da resistência caráter, e da sua vida um testemunho de que envelhecer pode ser continuar a criar.
Na Rua da Liberdade começou um menino. Dela saiu um homem inteiro. E esse homem, aos 90 anos, continua com alma a contar-se.
Era uma vez uma história que não sabia contar-se
Primeiro era uma padaria de broa de milho
e o calor do forno o cheiro disfarçado de poalha cinza
aparecia lá dos fundos atrás do balcão de atendimento
no móvel tipo balcão alto encostado à parede
como rodas de carrinho de mão (mas gordas)
as broas ao alto encostadas amortalhadas em farinha
eram alvos preferidos da clientela
às vezes no tempo da boa sardinha ( grande viva mar da Póvoa)
em meia dúzia metia dez sardinhas
e começou a ver que era um vê se te avias (um êxito)
então lembrou-se de matar um porco
retalhou-o ainda hoje não sabe bem como e apareceu a bola de carne (outo êxito)
comprou um grupo de suportes de aço polido
meia dúzia de facas e facões uma machadinha
e disse que o seu estabelecimento também era talho de porco
(e era-o)
e assim instalou a semente dum centro comercial (padaria talho de porco).
António José Salvador Coutinho