1. No seu discurso do 25 de Abril, José Pedro Aguiar Branco, presidente da Assembleia da República e segunda figura do Estado, “disse tudo, como os malucos”. E esta frase, na boca do povo, costuma ser mais um elogio do que uma crítica. Normalmente, define um discurso inconveniente, que corresponde ao que muitos pensam e poucos têm coragem de dizer. Mas também tem um lado problemático: é um discurso que não pondera, que não contextualiza e que não relativiza. Um discurso sem arestas limadas, que leva tudo à frente e mistura verdades inconvenientes com (neste caso concreto…) lavagens convenientes. Numa surpreendente intervenção, muito pouco adequada ao que costumam ser os padrões para este tipo de datas, o presidente da Assembleia da República aponta, e bem, a principal ameaça à democracia: a falta de identificação entre eleitos e eleitores, a falta de credibilidade da classe política – que funciona como casta, ou bolha – e o divórcio discursivo entre a realidade e a construção mediática da política. De caminho, enquanto critica o populismo que cavalga estas perceções, Aguiar Branco comete a ingenuidade de certificar, ou validar, essa mesma “cavalgada”, reconhecendo, ou dando a sensação (talvez errada) de que reconhece, a pertinência do discurso político que pretende denunciar. Aguiar Branco disse, embora de forma sofisticada, o que o “Zé das Iscas” costuma dizer, na sua roda de amigos, quando comenta os chavões de qualquer dirigente populista: “O homem diz muitas verdades!”
Aguiar Branco está certo, portanto, no diagnóstico, mas errado na receita. É verdade que há uma preocupação excessiva com o escrutínio e que a transparência, nos nossos dias, em vez de ser um meio para credibilizar a atividade política, se transformou num fim em si mesmo. Comentando o problema das “portas giratórias” − isto é, a obrigação do político que, tendo exercido a tutela de uma determinada área, está impedido de trabalhar para privados nesse setor, ou aquele que, tendo trabalhado nesse setor, estará impedido de tutelar a mesma área −, põe um dedo na ferida: afastados os melhores, barrando a política aos que exercem certas atividades privadas profissionais, definindo um conjunto de incompatibilidades. Mas, depois, queixamo-nos de que só estão na política “os que não sabem fazer mais nada”. Não sabem ou não podem? Em que ficamos? Por um lado, queremos políticos com experiência profissional na vida “lá fora”. Por outro, estamos a criar políticos bacteriologicamente puros. Aguiar Branco tem razão.
Mas, então, o que fazer? Não há uma bala de prata que nos garanta o melhor de dois mundos: experiência de vida e imunidade a interesses. As pessoas não são duas: cada pessoa é apenas uma, e mesmo que tente vestir dois fatos, ou duas peles diferentes, quando entrar na política será sempre culpada, até prova em contrário. Ora, na dúvida, mesmo correndo o risco de ter políticos sem experiência de vida, é preferível garantir transparência, definir incompatibilidades, sim, e bloquear as portas giratórias. Tudo isto é melhor do que permitir que se alimentem suspeitas em torno das Spinunvivas desta vida.
A propósito, Aguiar Branco borrou a pintura, neste parágrafo: “Não bastava declarar rendimentos. Era preciso declarar se a mulher ou o marido é rico, se o primo é pobre, se o enteado é empresário. Se a casa tem elevador [sublinhado nosso], quantas casa de banho (…)”, etc. O presidente da AR não resistiu à tentação de ser explícito. Quantas pessoas conhecemos com elevador em casa (que, portanto, terá de ter vários pisos)? Os portugueses, assim de repente, lembram-se de uma: Luís Montenegro, em Espinho. E é tentador pensar, como terá pensado o deputado do PS, Pedro Delgado Alves (já lá vamos), que Aguiar Branco imaginou todo este intrincado elucubrado com um fim menos inocente do que parecia.
2. O discurso de António José Seguro, vago, redondo e em grande parte a la Miss Universo (como é seu hábito…), foi, na maioria dos seus 17 minutos e 37 segundos, bastante enfadonho. Numa amálgama onde pretendeu incluir tudo, da crise da habitação à Inteligência Artificial, passando por várias citações eruditas metidas a martelo, contrastou com o estilo elaborado do seu antecessor, Marcelo Rebelo de Sousa, que se focava num tema, sem nunca entrar em áreas executivas ou legislativas. Mas António José Seguro, lá pelo meio, conseguiu ser invulgarmente assertivo, no ponto da transparência na política, e foi mesmo brilhante, na forma como se dirigiu aos jovens. No primeiro caso, levando um discurso escrito e desconhecendo o que haveria de dizer Aguiar Branco, Seguro como que lhe respondeu à letra. Uma coincidência política daquelas que raramente acontecem, no pas de deux não ensaiado que resultou – em termos de análise mediática e comentariado político… − muito bem. Mas Seguro, o mais interventivo Presidente dos últimos 20 anos (ver matéria nesta edição), foi ao concreto, ao insurgir-se contra o fim do acesso público aos nomes dos que fazem donativos a partidos. Essa discussão faz o seu caminho na Assembleia da República, mas o PR não se inibe de a condicionar, declarando a sua discordância de que esses nomes deixem de ser conhecidos do público. O ponto mais brilhante do discurso surge, porém, numa fase que não passa nas televisões nem atravessa o comentário político: trata-se da maneira inspirada, quer na forma, quer no conteúdo, como se dirigiu aos jovens. Num tom intimista, com tratamento “por tu”, como se estivesse a falar com cada um deles, elenca uma série de situações do quotidiano, que fazem parte da ordem natural das coisas e que são dados adquiridos nas expectativas dos mais novos, mas que nunca existiriam sem o 25 de Abril. Eis o parágrafo para gravar em pedra e para figurar em todos os currículos escolares: “Quando deixaste de ser obrigado a combater, ir para a guerra – foi Abril. Quando conduzes um carro e não precisaste de autorização do teu marido ou da família – foi Abril. Quando és mulher e viajas sem ter de pedir autorização ao teu companheiro – foi Abril. Quando optas por uma carreira de magistrada ou diplomata e és mulher – foi Abril. Quando a tua mãe e o teu pai foram à urgência e não lhes pediram que pagassem antes de serem tratados – foi Abril. Quando a tua liberdade apela a propor, participar ou assinar uma petição – foi Abril. Quando leste ou partilhaste uma notícia crítica do poder e ninguém bateu à tua porta – foi Abril. Quando votaste, ou decidiste não votar, sem medo de represálias – foi Abril. Abril está nos gestos. Faz parte da tua vida, porque tens liberdade.”
3. Uma nota final para o comportamento de Pedro Delgado Alves – que, logo a abrir, exagerou nas “condecorações” com vários cravos ao peito… Virar ostensivamente as costas, durante 20 segundos, de pé, em protesto contra o discurso de Aguiar Branco, é uma atitude indigna de um partido que fez a diferença, na nossa democracia, pela tolerância – como ensinou Mário Soares – e pelo respeito mostrado face à diferença de opinião. Por aqui se vê como a postura-padrão do grupo parlamentar do Chega está a tornar-se contagiosa e a fazer escola. Esperava-se aquilo de qualquer dos 60 deputados da direita radical e populista – mas não se esperava de um dirigente socialista com especiais responsabilidades no Parlamento. De uma certa forma, a atitude de Pedro Delgado Alves avaliza a tese de Aguiar Branco, quando fala do desfasamento entre políticos e povo.