Tudo é política
A revolução será analógica
Os 13 códices em papiro enrolados em couro sobreviveram ao apagamento eterno a que o poder os tinha votado, porque alguém, provavelmente uns monges, decidiu preservá-los, escondendo-os na terra
Vamos matar os pobres?
Os mesmos que os mandam para a terra deles ficam depois aflitos porque com o que pagam não encontram quem lhes faça as tarefas que na pandemia se convencionou serem “essenciais” mas que entretanto voltámos todos a tratar como descartáveis
Estamos todos cansados e não é por acaso
O cansaço que nos tolhe não é individual. Quando nos queixamos dele, achamos que sim. Pensamos que talvez tenha que ver com as nossas más escolhas. Até nisso o neoliberalismo é eficaz: responsabiliza-nos, dividindo-nos entre os bem-sucedidos e os falhados
Quem é o outro?
O ódio funciona melhor quando é abstrato. Odiar categorias é fácil. Odiar quem nos olha nos olhos é muito mais difícil
Jovens cheios de mofo
Aqueles dois jovens na casa dos 30, com um ar cosmopolita, a beber chá num café de um bairro de classe média alta de Lisboa, no século XXI, estavam cheios de mofo. Onde estava o arejamento que o passado nos prometeu?
Já não conseguimos ver este filme
Quando as coisas chegam a este ponto, Donald Trump já não tem de disfarçar, já não tem de fingir objetivos nobres, já não tem de construir uma narrativa moral. Ele faz o que lhe apetece
Não há cantiga de intervenção que embale a formiga no carreiro
O desmantelar do Estado social que a Europa construiu no pós-Guerra, que só chegou a Portugal em 1974, e com que parte dos Estados Unidos sonhava, é a melhor forma de garantir que ele continua a ser desmantelado
Ouçam só o que vos digo
O vizinho de turbante que vos parece simpático e pacífico está a enganar-vos. O cigano que trabalha é uma exceção. O imigrante que foi ajudar nos incêndios ou nas cheias é uma criação de Inteligência Artificial. Tudo falso. Falso como todas as mentiras a que chamam notícias e factos e estatísticas
É preciso força e fôlego para evitar este naufrágio
Foi só nesse momento que a reação deles me surpreendeu. A minha frase lançou um burburinho na sala. Um explicou em voz alta porquê: “O Homem não foi à Lua.” Perante o meu ar de espanto, ergueu-se um coro de rapazes (todos rapazes) que garantiam que nunca um ser humano pisou a face lunar
Obrigada pela lição, Jeff Bezos!
A cada nova leva de saídas, invariavelmente, os títulos afundaram-semais um pouco. É como ir tirando as tábuas de um barco para o tornar mais leve. Na verdade, estamos só a apressar o seu naufrágio
O País real, a bolha e o “vem aí o socialismo”
Quando o fogo arrasa as terras, quando a água inunda as casas, quando o vento leva tudo à frente, percebemos que o que nos faz renascer das cinzas, o que nos enxuga as inundações, o que nos prende ao chão e nos dá teto são as soluções coletivas que formos capazes de construir. Não é o cada um por si
Todos os que fingem não ver são culpados
O passo suspende-se, num sobressalto. Olho para aquelas paredes gastas e vêm-me à cabeça as cenas que li sobre o que se passava para lá delas, dentro daquela esquadra de polícia onde até aí teria entrado a correr se achasse precisar de ajuda
Eu não sou vítima, mas já fui vítima
Aprendemos a não andar com determinadas roupas em determinados sítios. Aprendemos a usar as chaves nas mãos entre os dedos, quando andamos sozinhas à noite. Aprendemos a pedir a alguém que nos acompanhe quando o caminho é escuro. Aprendemos a baixar os olhos quando apanhamos um transporte de noite
Abram os olhos. Vamos juntos
O jornalismo resgata-nos o olhar e as perguntas. Leva-nos a ver o outro. E, sobretudo ,a construir um pensamento partilhado. Precisamos desse chão para que o mundo não se parta em grupos irreconciliáveis
Uma ideia subversiva: o ar é de todos
Que desvario isso de pensar que uma coisa tão valiosa podia só existir sem ser comercializada! Se não pagamos algo, como podemos dar-lhe valor?
Conservador trans: o pobre que se identifica como rico
Não sei como qualificar aquilo de que padece o Gonzalo neste seu problema identitário. O melhor será deixar Marx em paz que, por esta altura, o autor de O Capital já deve estar às voltas na campa com a ideia de que o jovem trabalhador de classe baixa acredita piamente que faz parte da aristocracia
"Ainda acreditas no Pai Natal?"
É capaz de ser por tudo isto que embirro tanto com quem atira, com altivez e desdém, um “ainda acreditas no Pai Natal?”, quando a intenção é esmagar a suposta inocência do interlocutor. O cinismo é uma coisa triste
A fuga dos imigrantes e como nos preparamos para empobrecer
Os imigrantes vêm quando há trabalho e boas condições económicas e vão-se embora quando a economia cai. Ou alguém se lembra de a “imigração descontrolada” ser um grande tema nos anos negros
Testosterona, energia feminina e outras tretas
As mulheres gastam em média 262 minutos do seu dia em tarefas não remuneradas (leia-se cuidar da casa e dos filhos), enquanto os homens só dedicam 141 minutos diários a esses trabalhos
Eles têm medo de que não tenhamos medo
Shamim Hussein deve ter sentido medo quando foi recuperar a bicicleta que usava para levar comida, na Costa da Caparica, e foi esfaqueado. E é medo que seguramente sentirá a sua mulher que fica agora sozinha, num país estranho, que lhe matou o marido e a deixa com um bebé de 2 anos
Odair e Bruno: Uma dança antiga que temos de parar
O que aconteceu naquela noite começou há centenas de anos. Naquela noite, os homens chamavam-se Bruno e Odair, mas já tiveram muitos nomes. E o que devia acontecer era percebermos isso, para encontrarmos uma forma de encerrar este capítulo