A fotografia que aqui publicamos não será das mais nítidas porque foi tirada de um vídeo captado por uma câmara de monitorização, mas é excelente para assinalar o momento em que um jovem orangotango macho atravessou uma ponte suspensa ao nível da copa das árvores numa floresta tropical que ficou partida em duas na ilha de Sumatra, na Indonésia.
No vídeo que pode ser visto no canal de YouTube da organização britânica Sumatran Orangutan Society (SOS), um orangotango-de-sumatra (Pongo abelii) avança com confiança pela ponte de corda, parando uns segundos a olhar em volta e depois para trás, para casa, antes de retomar a travessia entre a Reserva de Vida Selvagem de Siranggas e a Floresta de Proteção de Sikulaping, no distrito de Pakpak Bharat, que faz fronteira com a província de Aceh, no norte da ilha.
Quando a equipa da Fundação Tangguh Hutan Khatulistiwa (TaHuKah), uma ONG especializada na proteção de habitats que é a parceira local da SOS, viu estas imagens, ouviram-se gritos de alegria. Há mais de dois anos que estavam a ser monitorizadas as cinco pontes suspensas de diferentes tipos (para se adequarem a diferentes espécies), construídas ao longo da movimentada estrada Lagan-Pagindar.
“Ver este orangotango utilizar uma ponte suspensa é um marco muito importante para a conservação, provando ser possível reconstruir esta paisagem fragmentada”, disse Helen Buckland, CEO da SOS.
A ponte que vemos na fotografia fica sobre essa estrada que liga comunidades remotas a escolas, hospitais e outros serviços essenciais. Em 2023, a estrada foi alargada e as copas das árvores ficaram demasiado distantes, impossibilitando a travessia natural para a vida selvagem. De um dia para o outro, cerca de 350 orangotangos-de-sumatra, espécie em perigo crítico de extinção, ficaram divididos em duas populações, uma em Siranggas e a outra em Sikulaping.
Estes orangotangos passam mais de 90% do seu tempo nas copas das árvores e são chamados “guardiões da floresta” porque ajudam a manter o ecossistema, dispersando as sementes e “podando” as folhas nas partes mais altas. Mantidos em dois pequenos grupos, podem ser enfraquecidos pela consanguinidade, o que diminui as suas hipóteses de sobrevivência.
Na TaHuKah decidiu-se, então, que eles precisavam de pontes suspensas para conseguirem passar de um lado para o outro em segurança. Mas será que iriam utilizá-las?
De início, as câmaras apanharam esquilos-das-bananeiras (Callosciurus notatus) e esquilos-gigantes-pretos (Ratufa bicolor palliata) a atravessar as pontes. Depois, começaram a ser percorridas por macacos-de-cauda-longa (Macaca fascicularis), langures-pretos-de-sumatra (Presbytis sumatrana) e gibões-ágeis (Hylobates agilis). Até que, finalmente, um orangotango-de-sumatra, de que se estima restarem menos de 14 mil na Natureza, foi filmado na semana passada a utilizá-la.
“Testemunhar um deles a atravessar aquela ponte é a prova viva de que não precisamos de romper o elo vital da floresta para construir o das nossas comunidades”, disse Franc Bernhard Tumanggor, chefe da regência de Pakpak Bharat, para quem a mensagem é óbvia: modernização não tem de significar destruição.