Na área da psiquiatria, como se traduz uma maior compreensão da doença mental?
A psiquiatria tem como objeto o tratamento de doenças mentais. Contudo, também se alicerça muito na antropologia porque, se não se conhecer o Homem, não se consegue entender a doença. O pensamento complexo, juntamente com a consciência de si e a consciência da finitude, é o embrião de todos os fenómenos humanos. Se, por um lado, existe a angústia da insignificância, por outro, quando olhamos para o Universo, percebemos que provavelmente fazemos parte dessa grandeza, de uma certa consciência global. Os fenómenos muito próprios da psiquiatria são sempre os que nos limitam a comunicação com o outro. A doença mental é aquela situação que carece de uma intencionalidade do ponto de vista existencial, isola a pessoa ou, de alguma forma, a impede de uma articulação satisfatória com as suas realidades próprias ou com o outro e com o contexto sociocultural. A doença mental é uma situação de isolamento do indivíduo.
Há aqui então uma sensação de inadequação em relação ao meio.
Exatamente. Há muitas vezes a sensação de que não encaixamos ou que estamos desadequados em relação ao mundo no tempo e no espaço que nos foi dado para viver. As pessoas têm a sensação de que poderiam ter pertencido a outro tempo. Isto é importante porque nós só conseguimos desenvolver os nossos potenciais se chegarmos ao outro. A saúde depende da capacidade de eu usar o meu potencial. Nós estamos cá para nos aproveitarmos e devolvermos ao outro o que a Natureza nos deu. Sempre que o meu potencial não é usado – porque tenho uma neurose obsessiva ou compulsiva, porque tenho de limpar o piano todo antes de o usar, tenho de lavar as mãos dez vezes –, sempre que o potencial é impedido, deve ser considerada doença.
