A inauguração do Muzeu — Pensamento e Arte Contemporânea dst, em Braga, marca um momento singular na vida cultural portuguesa. Mais do que a abertura de um novo espaço expositivo, trata-se da afirmação de um projeto que cruza arte, pensamento e cidadania, convocando o passado e o presente para refletir sobre o futuro. A cerimónia, que contou com a presença do Presidente da República e a bênção do cardeal e poeta Tolentino Mendonça, sublinhou a dimensão simbólica e espiritual deste novo museu.
Neste contexto, a poesia de Filipa Leal ecoa como um retrato sensível do espírito do seu fundador, o engenheiro José Teixeira, cuja visão está profundamente enraizada na ideia de Abril enquanto horizonte aberto e permanente construção coletiva: “Quando nós pensámos em abril, nós pensámos na hipótese de suscitar a discussão de abrir abril (…) para abril ser o dia-a-dia de todos os portugueses.” A arte surge, assim, como ferramenta essencial desse caminho um percurso sem fim, onde a criação e o pensamento mantêm viva a liberdade conquistada.
Erguer um museu de arte contemporânea em Braga não foi um gesto impossível, mas antes necessário. Numa das cidades culturalmente mais dinâmicas do País, ainda pouco servida por museus do Estado central, nasce agora um espaço que vem colmatar essa lacuna e afirmar um novo centro de reflexão artística. Com um investimento de 40 milhões de euros, José Teixeira assume-se como um mecenas contemporâneo, dando corpo a um projeto que é simultaneamente cultural e político. O nome escolhido – Muzeu – não deixa margem para dúvidas: este é um lugar de pensamento ativo, de questionamento e de intervenção, onde a arte se torna instrumento para continuar a “abrir abril” todos os dias.
Há uma escada dentro da escada.
Infinita como a biblioteca de Borges.
Infinita como a obra de Kiefer.
Para subir a escada de dentro,
é preciso sair da escada de fora.
Como na arte, como no amor.
Para subir a escada de fora,
às vezes também é preciso sair
da escada de dentro.
Como nos dias em que andamos à chuva.
Há quem prefira a escada de fora.
Há quem evite a escada de dentro.
Depende da dança, depende do vento.
Dançar por dentro da escada
deveria provocar menos
vertigens
do que dançar por fora da escada.
(Mas a escada, qualquer escada, é
sempre uma hipótese vertiginosa.)
Dança-se mais por dentro na escada de dentro.
Vive-se mais por fora na escada de fora.
Dizem as más-línguas que a escada de dentro
dá directamente
para o pensamento. ( Filipa Leal Poeta, Inédito, Abril 2026)