Determinadas revelações são capazes de abalar famílias, a geopolítica, a fé, mas também a mobília emocional de uma pessoa. É o caso, certamente, de muitos espectadores, ao saberem que a canção “My Way”, esse hino planetário à vaidade, à nostalgia, ao ego em smoking e à ilusão masculina de que se pode fazer um balanço da vida, afinal nasceu em França. Sim, em França. Não em Las Vegas no meio dos The Rat Pack, não num bar cheio de fumo em Nova Iorque, não num camarim ou num estúdio a solo do Frank Sinatra entre um copo e uma crise de autoridade. Nasceu cá deste lado do Atlântico, em 1967, perto da piscina da mansão de Moulin de Dannemois — um belo lugar a cerca de 60 quilómetros de Paris — do malogrado cantor, compositor e intérprete pop francês Claude François (1939-1978), que morreu com apenas 39 anos, escreveu-a com a melodia do compositor Jacques Revaux e cantava-a com o título de “Comme d’habitude”.
É apenas um detalhe maravilhoso, mas que a maioria das pessoas desconhece, que só por si já parece inventado por um argumentista com demasiado tempo livre e um fraco por ironias civilizacionais. My Way — A História de uma Canção, documentário de Thierry Teston e Lisa Azuelos, que chega agora aos cinemas portugueses parte precisamente dessa bomba cultural: a canção mais associada ao temperamento imperial americano começou por ser uma melodia francesa chamada “Comme d’Habitude”. Ou seja, antes de ser o testamento vocal de Frank Sinatra, já era uma elegia continental ao tédio sentimental, à rotina amorosa e ao desencanto apaixonado. Nada mais francês, portanto. O mais divertido é perceber como o filme trabalha esta metamorfose quase como se estivesse a contar a biografia de um ser vivo, — com a voz de Jane Fonda — uma criatura musical com várias encarnações, várias máscaras e várias vidas públicas, algumas gloriosas, outras caricatas, outras simplesmente sinistras.

O realizador francês Thierry Teston confessou que, quando Lisa Azuelos — também realizadora e curiosamente filha da icónica cantora Marie Laforêt — lhe propôs um documentário sobre uma única canção, não ficou propriamente seduzido. Achava que conhecia a história, como quase toda a gente acha. E é precisamente aí que o filme acerta em cheio: parte da arrogância do espectador médio — “sim, sim, Frank Sinatra, Paul Anka, clássico, já sabemos” — para demonstrar que não sabíamos assim tanto. Afinal, a história de “My Way” é “uma história dentro da História”, cheia de reviravoltas, encontros improváveis e ecos políticos e sociológicos que transformam três minutos de música num pequeno resumo da modernidade. E, de facto, é isso que o documentário prova com uma malícia muito fina: que uma canção pode começar como lamento sentimental, tornar-se monumento viril, passar a manifesto de emancipação, derivar para o punk, reaparecer em momentos históricos e acabar sequestrada pelo kitsch, pelo karaoke, pelos casamentos, funerais e, claro, pelos delírios narcísicos do poder. O percurso é tão absurdo que só podia ser verdadeiro. Paul Anka rescreveu-a e Sinatra pegou nela e fez dela um tuxedo sonoro, uma espécie de autobiografia em pose, onde o homem olha para trás, enumera danos e conclui que fez “tudo à sua maneira”, o que é uma frase muito bonita até pensarmos em quantos desastres da História foram justificados exatamente com essa lógica.
Depois entra Nina Simone e muda tudo: o que era balanço de macho orgulhoso torna-se grito de uma mulher negra na América dos anos 70. Os Sex Pistols chegam e transformam a coisa numa chapada punk ao bom gosto e à solenidade. A alemã Nina Hagen reaparece com ela no contexto da queda do Muro de Berlim. E, como sublinha Teston, a mesma canção com a mesma letra foi sendo ocupada por sensibilidades, ideologias e épocas radicalmente diferentes. Isto é talvez o mais fascinante em My Way — A História de uma Canção: perceber que não estamos apenas perante um documentário musical, mas perante uma pequena aula de história do século XX, da pop sobre apropriação cultural, circulação simbólica e oportunismo sentimental em escala global.
A escolha de Jane Fonda para a narração não podia ser mais inteligente, elegante e ligeiramente marota, porque dá à canção uma espécie de consciência, como se “My Way” se tornasse personagem, estrela, sobrevivente e testemunha do seu próprio mito. E há qualquer coisa de deliciosamente cinematográfico nesta ideia de filmar uma música como se fosse uma diva com passado complicado, amantes tóxicos e uma agenda internacional demasiado preenchida e até com réplicas e acordes semelhantes como é o caso de “Life on Mars”, de David Bowie. Ele aparece no documentário para o explicar. O filme conta ainda com Paul Anka, Jacques Revaux, Ben Harper, Janelle Monáe, Gabriel Yared, os Sparks e até Sydney Sweeney, o que à partida parece uma mistura improvável, mas ajuda a mostrar até que ponto “My Way” deixou de pertencer à música para passar a pertencer ao imaginário global. Já não é apenas uma canção: é uma marca, um reflexo, um espelho, uma caricatura do século. E talvez por isso o documentário também tenha graça quando mergulha no lado mais grotesco da lenda, incluindo o fascínio que a música exerceu sobre figuras autoritárias e pequenos Napoleões contemporâneos. Porque “My Way”, no fundo, é também isso: o hino perfeito para egos sem travão, para homens convencidos de que o estilo absolve a brutalidade, para almas inflamadas pela convicção de que a pose basta como legado.
O génio da canção, e do filme, está em mostrar que ela resiste a tudo isso e continua viva, disponível, regravável, mutante. Sobrevive ao ridículo, à pompa, ao excesso e à banalização porque carrega qualquer coisa de simples e quase infantil: a necessidade humana de contar a própria vida como se tivesse tido forma, grandeza e sentido. O resto é arranjo, mito e mercado. My Way — A História de uma Canção percebe isto muito bem e diverte-se com isso sem cair nem na veneração bacoca nem na desmontagem cínica. É um documentário esperto, ágil e sedutor sobre uma música que julgávamos conhecer e afinal só tínhamos ouvido. Depois deste filme, torna-se mais difícil escutar “My Way” da mesma maneira. Há canções que merecem ser desmitificadas para continuarem míticas. Esta, pelos vistos, fez esse caminho à francesa, à americana e, no fim, à maneira de toda a gente.
My Way — A História de uma Canção, documentário de Thierry Teston e Lisa Azuelos, chega aos cinemas portugueses a 23 de abril, numa distribuição da Zero em Comportamento/Projetos Paralelos.My Way é muito mais do que uma canção. Esta partitura maior atravessou épocas, fronteiras e gerações, tornando-se um hino inscrito para sempre na história da música e uma das canções mais interpretadas do mundo — de Sid Vicious a Tom Jones, de Nina Simone a Pavarotti.No entanto, poucos sabem que nasceu em França, à beira da piscina da mansão de Claude François numa tarde de verão de 1967, e que uma sucessão de encontros fortuitos e noites em branco a conduziu através do Atlântico até àquele que a tornaria numa lenda. À semelhança de um biopic — e com narração de Jane Fonda —, o documentário conta a história do nascimento de uma canção mítica e a forma como ascendeu ao panteão da cultura popular. Para a imprensa internacional, trata-se de “um mergulho na história da música pop que se vê com enorme prazer” (The Film Verdict).Com a participação de Paul Anka, Jacques Revaux, Ben Harper, Janelle Monáe, Sydney Sweeney, Gabriel Yared e os Sparks, o filme percorre mais de cinquenta anos de história musical, política e cultural — da América de Sinatra ao punk dos Sex Pistols, da queda do Muro de Berlim aos palcos dos ditadores do século XXI. Os realizadores, “reconstituem, com rigor e malícia, a vida desta canção imortal tornada intemporal”.
“My Way” é muito mais do que uma canção; essa obra-prima atravessou eras, fronteiras e gerações. É um hino que se tornou parte de nós e um marco permanente na história da música. “My Way” também é uma das canções mais regravadas de todos os tempos, de Sid Vicious a Tom Jones, sem mencionar Nina Simone e Pavarotti.
No entanto, muitos desconhecem que ela foi concebida inicialmente na França, à beira da piscina da mansão de Claude François, em uma tarde de verão de 1967, e que uma sucessão de encontros fortuitos e noites em claro a guiaram através do Atlântico até o homem que a transformaria em uma lenda.

Em formato de cinebiografia, o documentário “My Way” conta a história da gênese de uma canção mítica e como ela se tornou parte do panteão da música. A narração do filme, que ganha vida com Béatrice Dalle personificando a música — uma das mais regravadas do mundo —, confere a “My Way” uma dimensão única. O documentário traça a história dessa canção lendária e explora seu impacto cultural através das gerações. Por meio de arquivos e anedotas inéditas, revela o legado de uma obra que transcendeu fronteiras linguísticas e temporais. “My Way” permanece um hino gravado na história da música. My Way é muito mais do que uma canção. Esta obra-prima atravessou eras, fronteiras e gerações. É um hino que se tornou parte de nós e um marco permanente na história da música. My Way também é uma das canções mais regravadas de todos os tempos, de Sid Vicious a Tom Jones, sem mencionar Nina Simone e Pavarotti.
No entanto, muitas pessoas desconhecem que ela foi concebida inicialmente na França, em Megève, por J. Revaux em março de 1967, e finalizada em agosto por Jacques Revaux e Claude François à beira da piscina do Moulin de Dannemois, em uma tarde de verão de 1967. Uma série de encontros fortuitos e noites em claro a levaram através do Atlântico até o homem que a tornaria lendária com letra de Paul Anka: Frank Sinatra. Narrado por Jane Fonda, o documentário My Way mergulha na fascinante história por trás desta canção lendária e sua jornada até o Hall da Fama.
Seleção Oficial do Festival de Cannes de 2024.
My Way é muito mais do que uma canção. Esta partitura maior atravessou épocas, fronteiras e gerações. É um hino que se impôs como parte de nós próprios e se inscreveu duradouramente na história da música.
My Way é também uma das canções mais interpretadas do mundo, de Sid Vicious a Tom Jones, de Nina Simone a Pavarotti.
No entanto, muitos desconhecem que nasceu em França, à beira da piscina da mansão de Claude François numa tarde de verão de 1967, e que uma sucessão de encontros fortuitos e noites em branco a conduziram através do Atlântico até àquele que a tornaria numa Lenda.
À semelhança de um biopic, o documentário MY WAY conta a história do nascimento de uma canção mítica e a forma como ela ascendeu ao panteão da cultura popular.
Quando Lisa me falou pela primeira vez na ideia de fazer um documentário sobre MY WAY, não fiquei imediatamente convencido de que uma única canção pudesse ser o tema de um filme. Ela conhecia a minha experiência com documentários e música e queria persuadir-me a embarcar no projecto com ela.
Gostava da canção, mas tinha a imagem de um enorme êxito de Sinatra, regravado centenas de vezes com letras um tanto pomposas, um título reconhecido em todo o mundo cuja história todos conhecíamos. Uma canção de Claude François, adaptada por Paul Anka para Sinatra, que a transformou num dos maiores sucessos de todos os tempos.
Mas à medida que fui aprofundando a investigação e os diálogos, descobri verdadeiramente a história desta canção, desde a sua escrita em 1968 até aos dias de hoje, e compreendi a sua profundidade e natureza extraordinária. É uma história dentro da História, repleta de reviravoltas, com protagonistas tão incríveis quanto inesperados. É certamente uma história musical, mas com repercussões sociológicas e políticas em todo o globo.
“My Way” foi inicialmente o testamento de homens viris que olhavam para a sua vida sem arrependimentos: Sinatra, Anka, Tom Jones, Elvis, entre outros. Com Nina Simone, tornou-se o manifesto de uma mulher negra na América dos anos 70. Tornou-se um hino punk com os Sex Pistols na Inglaterra de Margaret Thatcher e, pouco depois, um hino da queda do Muro de Berlim quando Nina Hagen a cantou no concerto pela reunificação das duas Alemanhas. Mais recentemente, foi a canção favorita de autarcas como Trump, Putin ou Kim Jong Un. E, no entanto, é a mesma canção com a mesma letra.
Para prolongar esta história de “My Way” e ilustrar como ela não tem fim, quis convidar artistas a oferecer-nos a sua versão de “My Way”. Uma artista francesa e uma americana, Clara Luciani e Ben Harper. Ambos têm uma ligação muito forte com a canção. Sem se consultarem, apresentaram versões muito despojadas, com grande humildade. É com estas interpretações que o filme termina e a história de “My Way” continua.
Thierry Teston, realizador.
Jacques Revaux — Um dos “pais” da canção fala sobre My Way numa entrevista.
Paul Anka — O outro “pai” de My Way partilha as suas reflexões sobre a canção e sobre como tudo aconteceu.
Sparks — Intérpretes de “When Do I Get to Sing My Way”, uma canção que se tornou um título emblemático na sua discografia.
Riopy — Pianista e compositor autodidacta, compôs variações para piano baseadas em “My Way”.
Sydney Sweeney — Actriz, conhecida pelos seus papéis em The White Lotus e Euphoria. É o rosto do perfume “My Way” da Armani.
Gabriel Yared — Compositor e arranjador, reconhecido por inúmeras bandas sonoras cinematográficas.
Janelle Monáe — Artista musical, actriz e modelo norte-americana multi-premiada, a música de Monáe valeu-lhe seis nomeações para os Grammy Awards. Participou nos filmes Moonlight, Hidden Figures (228 M$ de bilheteira) e The Glass Onion da Netflix. Janelle Monáe interpreta uma versão exclusiva de “My Way” gravada para o filme.
Ben Harper — Intérprete de “My Way”, vencedor de múltiplos Grammy Awards.
Jane Fonda — Narração
O filme integrou a Seleção Oficial do Festival de Cannes 2024 e foi o vencedor do Prémio Sacem do Melhor Documentário Musical 2024.
“My Way — A História de uma Canção narra os ricos bastidores transatlânticos de 55 anos de uma das canções mais adoradas e mais vendidas de sempre — um mergulho na história da música pop que se vê com enorme prazer. Teston e Azuelos apresentam este projeto como um verdadeiro biopic da canção, com Jane Fonda a assegurar a narração como se fosse a própria consciência da música. Há tantas reviravoltas dramáticas e tantas figuras conhecidas que os realizadores conseguem, na maior parte do tempo, fazer funcionar este conceito fantasioso. Um testemunho do poder transgeracional de uma única canção — de balada francesa amarga a hino triunfalista americano, de clássico de karaoke a escolha obrigatória em casamentos e funerais.”“Narrada como um biopic pela voz de Jane Fonda, que a personifica, a canção vai atravessar modas, o tempo e os continentes simbolizando as influências mais diversas, para não dizer opostas. Escrita originalmente em 1967 para Claude François por Jacques Revaux, nascerá com o título de Comme d’Habitude. Notada por Paul Anka, que lhe escreverá a letra inglesa, atravessará o Atlântico para se tornar My Way. Tornar-se-á um êxito planetário quando for interpretada em 1968 por “The Voice”, o próprio Frank Sinatra.
Conhecerá depois vidas muito diferentes consoante os intérpretes que a escolhem: Nina Simone, que a transforma num hino; Sid Vicious (do grupo punk Sex Pistols), que a converte numa paródia provocatória; ou ainda Nina Hagen, por ocasião da queda do Muro de Berlim. Quanto a Paul Anka, continua incansavelmente a fazê-la viajar, especialmente perante ditadores, adaptando a letra à sua grandeza (!).
Hoje, sempre de vocação internacional, são o americano Ben Harper e a francesa Clara Luciani quem lhe dá um novo fôlego.
Os realizadores Thierry Teston e Lisa Azuelos (por sua vez autora do biopic Dalida) reconstituem, com rigor e malícia, a vida desta canção imortal tornada intemporal. A escolha de Jane Fonda para a voz off é também uma excelente ideia.”