Manuel Fúria

Músico

Manuel Barbosa de Matos nasceu em Lisboa, mas foi em Santo Tirso, entre o Ave e o Vizela, que cresceu. Fundou a editora Amor Fúria e foi figura central de uma geração da música portuguesa, dos Golpes a Manuel Fúria & os Náufragos. Em 2022, reinventou-se com Os Perdedores. Publicou textos na Rádio Renascença e no Público, mantém um Substack (O Vale Era Verde) e assina a crónica Odeio Futebol Moderno na Tribuna Expresso. Agora, escreve também para a Visão.

O Vale Era Verde

Confissões de um ensimesmado

Este não é um texto sobre duas pessoas que não gostam de mim. E, apesar de não parecer, nem é sobre mim em sentido estrito. É sobre a hipótese de um homem, não sei quantos anos depois, ainda fazer contas a duas pessoas que julga não gostarem dele, quando, entretanto, milhares de outras tiveram coisas mais importantes em que pensar

O Vale Era Verde

A sabedoria das coisas habituais

O veraneante não precisa de conquistar a paisagem. Deixa-se tomar por ela. Habita-a durante o tempo suficiente para não a esgotar. Ao fim de alguns dias, já anda mais devagar, já não olha tanto. Saber onde fica o pão é menos heróico do que a peregrinação. Mas está muito mais perto da peregrinação do que do turismo

O Vale Era Verde

O cisma e a vontade de cismar

Uma excomunhão dói a todos os católicos; ou pelo menos devia doer, impor reserva. Ou, não sendo possível reserva, ao menos parcimónia. Ou, não sendo possível parcimónia, ao menos justeza. Mas isto seria pedir demais a quem já decidiu previamente a função narrativa dos personagens

O Vale Era Verde

Fumo e civilização

Ao banir o fumo, a nossa civilização eliminou uma imagem inteira do mundo: tudo o que fazia da vida uma coisa menos eficaz e, por isso mesmo, mais habitável. Os escritores, por exemplo. Não é que se escreva melhor com um cigarro, mas é prudente desconfiar de tudo quanto se possa dizer sem vício e sem cinza

O Vale Era Verde

A Bola e o Monstro

Os Angine de Poitrine e o Mundial interessam porque, escondida por baixo do grotesco e do ruído visual, há uma promessa de forma. Quando ela finalmente surge, redime-nos, pobres criaturas caídas: cabeças de pasta de papel ou estádios inteiros a berrar pela sua pequena eternidade. Tanto faz

Jovens cada vez mais longe de atingir a classe média
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Anticorpos contra a carne

Há algum problema em ouvir miúdos num podcast? Se o assunto for cromos, recreios, professores ou a misteriosa incompetência dos adultos, talvez até se aprenda alguma coisa. Se o assunto for sexo, talvez o mínimo fosse aparecer um travão, um embaraço, um resto de pudor. Mas não. Ali era tudo simples

O Vale Era Verde

Cromos e carne

A Topps, que já anda há muitos anos nisto, promete inovar. Uma das novidades será a inclusão de retalhos das camisolas dos jogadores incorporados nos próprios cromos. Leram bem. Tecido usado nos cromos. Não é maravilhoso? Não é pavoroso? Não é, enfim, humano? A criança abre a carteirinha e sai-lhe uma relíquia

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O 28 de Maio, Miles Davis, e o esgotamento da forma

Há valores anteriores aos regimes, como a paz pública, a possibilidade de rezar, trabalhar, dormir, existir sem medo. Se um determinado entendimento político não é capaz de garantir estas coisas é preciso partir para outra

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As moscas de Tribeca

Lisboa quer mundo? Venha o mundo a Lisboa. Mas confrange vê-la assim, a comportar-se como se só existisse quando alguém a fotografa. Do mal o menos. O que vale é que quase ninguém sabe que aquilo existe

O Vale Era Verde

Monstros de palco

O que é o excesso carnal de Jagger, aquela boca que parece ter engolido todos os estádios do mundo, senão a deformação de um homem visto vezes de mais? O que é a voz demasiado arrastada de Dylan senão a marca deixada por uma profecia dita a partir do lugar reservado ao que se anuncia? O que são as máscaras de Bowie, senão mortes sucessivas? Mais do que marcas de estilo, isto são cicatrizes metafísicas

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O tempo e a maçã

Pôr o relógio assim, atravessado diante dos olhos, não significa que este Ando seja uma espécie de paliativo para um olhar condoído, mas também pode ser que não signifique o contrário

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Perceber Morès

O problema é o nacional-porreirismo: aquela pulsão de estar bem com tudo e com todos, em toda a parte e ao mesmo tempo. Ora, não há coisa mais perigosa do que a necessidade de ser aceite. Nações inteiras ergueram-se e caíram pelo desejo de um só homem ser amado

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A poltrona invisível da Escola do Largo

Num tempo de exposição total, de panfletos, pedagogias e denúncias, um teatro que ainda acredita na palavra, na contenção, no tempo interior torna-se necessariamente clandestino

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Matar Chicão

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Sr. Gouveia

O Sr. Gouveia não era apenas um revisor mais severo. Não era só um funcionário mais exacto, mais fiel ao regulamento. Chamá-lo zelota seria, no fundo, absolver-lhe a mesquinhez. No zelota há uma fé absoluta. E a fé, quanto mais desvairada, mais magnífica

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In Coena Domini

Há, na quietude mediática da Páscoa, qualquer coisa que a torna mais verdadeira. Mais reservada. Mais incorrupta. Os ovos de chocolate que sabem a sabão, os coelhos vagamente sinistros em papel de prata, as amêndoas disto e daquilo, tudo isso não atrapalha grande coisa. É folclore de supermercado. Um programa lateral condenado à tristeza própria das coisas sem centro

O Vale Era Verde

Verde Veneno ou o mal-entendido do mundo

Verde Veneno não é tanto um disco que fiz quanto uma coisa que se impôs. Não começou quando comecei a escrevê-lo, mas quando percebi o que já lá estava

O Vale Era Verde

Uma casa verdadeira

São essas casas que custam vender. Porque, quando isso acontece, é um centro de gravidade que está prestes a dissolver-se. Um elo de uma cadeia que se rompe. Sobretudo quando a casa não era apenas onde vivíamos, mas de onde vínhamos. É como se se derrubasse um carvalho

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Reza II ou a saudade como forma de disciplina

Não se trata de saber se Reza Pahlavi conhece o Irão como um topógrafo conhece o relevo urbano. Trata-se de saber se há homens para quem viver longe da pátria é apenas uma maneira mais dura de a servir

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O apetite dos impacientes

António-Pedro Vasconcelos foi um socialista da pesada. Daqueles que, de dois em dois anos, se insurgiam contra a privatização da RTP. Foi um dos artífices da campanha presidencial de Mário Soares em 1986. Em termos de “neutralidade simbólica”, não estamos, propriamente, diante de uma figura exemplar. Só não vê quem não quer. E quando a facção dá nomes a salas, a sala passa a ser, simbolicamente, uma filial

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Epstein, o Sujeito A, e Ned Flanders entram num bar

O mundo moderno concede quase tudo, menos a dúvida. Há brutalidades e brutalidades. Umas entretêm, as outras condenam. Numa inversão que já não distingue grosseria, gravidade, estupidez humana e perversão estrutural