Manuel Barbosa de Matos nasceu em Lisboa, mas foi em Santo Tirso, entre o Ave e o Vizela, que cresceu. Fundou a editora Amor Fúria e foi figura central de uma geração da música portuguesa, dos Golpes a Manuel Fúria & os Náufragos. Em 2022, reinventou-se com Os Perdedores. Publicou textos na Rádio Renascença e no Público, mantém um Substack (O Vale Era Verde) e assina a crónica Odeio Futebol Moderno na Tribuna Expresso. Agora, escreve também para a Visão.
Lulas à Tia Estela
É uma questão de respeito: numa família decente, certos pratos são cargos vitalícios. Determinados lugares não se ocupam enquanto os respectivos titulares estiverem vivos. Ninguém no seu perfeito juízo se senta em cima de outra pessoa
Ronaldisseia
Se parece haver qualquer coisa de heróico nisto tudo, é porque há. E é possível dizê-lo sem distância irónica: a história de Cristiano Ronaldo é uma epopeia. Até o nome é nome de herói. Até o mau cabelo é o mau cabelo de um herói da Antiguidade. Até as irmãs! Até elas são gregas na função dramática de informar o povo de que os deuses voltaram a conspirar contra o herói
Crónicas elegíacas
Antigamente havia ritos. Entre outros benefícios, esses ritos tinham a utilidade de dizer aos vivos o que fazer quando os vivos não sabiam o que fazer. Hoje improvisa-se. E improvisa-se mal. Mas o cronista tem regalias que quem vai ao enterro não tem. Está sentado à secretária. Poupa-se à escolha entre o aperto de mão e o abraço. Tem tempo. Pode apagar uma frase. Pode escrever outra — e, mesmo assim, hesita
Quem são Os Velhos? (Ou a breve história de uma banda)
Vocês não sabem, mas eu vou-vos contar. Antes de haver Capitão Fausto, já os Velhos esgotavam Musicboxes e Maximes em Lisboa. As filas davam voltas ao quarteirão
O Apocalipse segundo J. D. Vance, ou então não
Fui, portanto, ouvir o tal podcast e aconteceu uma das coisas mais aborrecidas que podem acontecer a um cronista: a realidade estragar-lhe a crónica. Não há nada pior do que os factos quando um tipo já tem as teses alinhadas
A música portuguesa a desconfiar dela própria
O homem que se julga medíocre já nem tem tempo para levar o pensamento até ao fim. É imediatamente conduzido a um psicólogo e devolvido à sociedade com a recomendação de reconhecer o seu valor. Ninguém admite a hipótese, por remota que seja, de esse homem ter razão no julgamento que fez de si mesmo. No instante em que alguém se descreve nestes termos, aparecem logo três especialistas e um podcast para lhe garantir que é magnífico
A última das ocupações encantadas
Mais do que meter o nariz na vida alheia, o genealogista mete as mãos no olvido. É disso que se trata. Uma profissão moderna recolhe dados. Contra o esquecimento, o genealogista recolhe vestígios: um nome num assento, uma data numa lápide, a memória trémula de uma prima de noventa anos
Confissões de um ensimesmado
Este não é um texto sobre duas pessoas que não gostam de mim. E, apesar de não parecer, nem é sobre mim em sentido estrito. É sobre a hipótese de um homem, não sei quantos anos depois, ainda fazer contas a duas pessoas que julga não gostarem dele, quando, entretanto, milhares de outras tiveram coisas mais importantes em que pensar
A sabedoria das coisas habituais
O veraneante não precisa de conquistar a paisagem. Deixa-se tomar por ela. Habita-a durante o tempo suficiente para não a esgotar. Ao fim de alguns dias, já anda mais devagar, já não olha tanto. Saber onde fica o pão é menos heróico do que a peregrinação. Mas está muito mais perto da peregrinação do que do turismo
O cisma e a vontade de cismar
Uma excomunhão dói a todos os católicos; ou pelo menos devia doer, impor reserva. Ou, não sendo possível reserva, ao menos parcimónia. Ou, não sendo possível parcimónia, ao menos justeza. Mas isto seria pedir demais a quem já decidiu previamente a função narrativa dos personagens
Fumo e civilização
Ao banir o fumo, a nossa civilização eliminou uma imagem inteira do mundo: tudo o que fazia da vida uma coisa menos eficaz e, por isso mesmo, mais habitável. Os escritores, por exemplo. Não é que se escreva melhor com um cigarro, mas é prudente desconfiar de tudo quanto se possa dizer sem vício e sem cinza
A Bola e o Monstro
Os Angine de Poitrine e o Mundial interessam porque, escondida por baixo do grotesco e do ruído visual, há uma promessa de forma. Quando ela finalmente surge, redime-nos, pobres criaturas caídas: cabeças de pasta de papel ou estádios inteiros a berrar pela sua pequena eternidade. Tanto faz
Anticorpos contra a carne
Há algum problema em ouvir miúdos num podcast? Se o assunto for cromos, recreios, professores ou a misteriosa incompetência dos adultos, talvez até se aprenda alguma coisa. Se o assunto for sexo, talvez o mínimo fosse aparecer um travão, um embaraço, um resto de pudor. Mas não. Ali era tudo simples
Cromos e carne
A Topps, que já anda há muitos anos nisto, promete inovar. Uma das novidades será a inclusão de retalhos das camisolas dos jogadores incorporados nos próprios cromos. Leram bem. Tecido usado nos cromos. Não é maravilhoso? Não é pavoroso? Não é, enfim, humano? A criança abre a carteirinha e sai-lhe uma relíquia
O 28 de Maio, Miles Davis, e o esgotamento da forma
Há valores anteriores aos regimes, como a paz pública, a possibilidade de rezar, trabalhar, dormir, existir sem medo. Se um determinado entendimento político não é capaz de garantir estas coisas é preciso partir para outra
As moscas de Tribeca
Lisboa quer mundo? Venha o mundo a Lisboa. Mas confrange vê-la assim, a comportar-se como se só existisse quando alguém a fotografa. Do mal o menos. O que vale é que quase ninguém sabe que aquilo existe
Monstros de palco
O que é o excesso carnal de Jagger, aquela boca que parece ter engolido todos os estádios do mundo, senão a deformação de um homem visto vezes de mais? O que é a voz demasiado arrastada de Dylan senão a marca deixada por uma profecia dita a partir do lugar reservado ao que se anuncia? O que são as máscaras de Bowie, senão mortes sucessivas? Mais do que marcas de estilo, isto são cicatrizes metafísicas
O tempo e a maçã
Pôr o relógio assim, atravessado diante dos olhos, não significa que este Ando seja uma espécie de paliativo para um olhar condoído, mas também pode ser que não signifique o contrário
Perceber Morès
O problema é o nacional-porreirismo: aquela pulsão de estar bem com tudo e com todos, em toda a parte e ao mesmo tempo. Ora, não há coisa mais perigosa do que a necessidade de ser aceite. Nações inteiras ergueram-se e caíram pelo desejo de um só homem ser amado
A poltrona invisível da Escola do Largo
Num tempo de exposição total, de panfletos, pedagogias e denúncias, um teatro que ainda acredita na palavra, na contenção, no tempo interior torna-se necessariamente clandestino