1. Os factos são o que são e, na verdade, já não deveriam surpreender-nos. E o factual é que, mais uma vez, após longos anos de condenação na praça pública, com as frequentes e sempre habituais fugas de informação, mais um conjunto de figuras públicas constituídas arguidas foram absolvidas em tribunal por falta de provas. Aconteceu agora com o ex-presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira (e outros dirigentes do clube), na operação Saco Azul, referente a acontecimentos que terão ocorrido há uma década. Mas já vimos este filme passar inúmeras vezes à frente dos nossos olhos.
E vimo-lo sempre com um argumento-padrão, muitas vezes com os mesmos atores e sempre com a mesma linha de tensão, para criar dramatismo e prender a atenção do espectador nos primeiros momentos: uma sucessão torrencial de revelações que ajuda a criar a ideia de uma acusação perfeita, sem falhas e absolutamente blindada. Mas, depois, o filme de ação transforma-se numa telenovela repetitiva e monótona, que se arrasta durante anos. Tantos que, quando chega o desfecho, já ninguém lhe presta atenção. Até porque é um anticlímax: a absolvição. Foi agora com Luís Filipe Vieira como já aconteceu com os ministros Miguel Macedo (vistos Gold) e Azeredo Lopes (Tancos), bem como com diversos autarcas, quase todos após processos que se arrastaram durante anos e anos.
Pode-se sempre argumentar que é a Justiça a funcionar. Mas é impossível não relacionar isto tudo com as conclusões de uma inspeção agora conhecida ao funcionamento do Departamento Central de Investigação e Ação Penal, responsável por investigar os crimes mais graves, e que são absolutamente arrasadoras: processos que se prolongam por períodos tão longos que escapam à “compreensão”, emails que demoram 100 dias a ser abertos, sistemas informáticos considerados obsoletos e uma gestão de meios que não é objetiva nem eficaz.
A primeira perplexidade, perdoem o pleonasmo, é como alguém ainda fica perplexo com isto. A segunda perplexidade, perdoem agora a irritação, é ainda mais grave: como é que o mau funcionamento da Justiça, em especial nos processos mais emblemáticos, continua a ser recebido com um encolher de ombros pelos decisores políticos? A separação de poderes é essencial, mas o desleixo, assim, passa a ser responsabilidade de todos – sem exceção.
2. Foi há mais de 30 anos, mas há filmes que nunca envelhecem, mesmo estando longe de serem obras-primas. É o caso de Na Linha de Fogo, realizado por Wolfgang Petersen, em 1993, em que Clint Eastwood desempenha o papel do guarda-costas que “deixou” morrer John F. Kennedy, no atentado em Dallas. E que, passadas algumas décadas, volta a ocupar uma posição semelhante, no corpo de proteção ao Presidente. Quem viu o filme lembra-se das conversas telefónicas entre o guarda-costas veterano e o jovem assassino, interpretado por John Malkovich, em que este questiona o primeiro sobre as razões morais que podem levar alguém a arriscar a vida para “salvar um homem como aquele”.
O assassino assumido diz então ao guarda-costas: “Você tem um trabalho tão estranho… Nem consigo perceber se é heroico ou absurdo.”
“Mas porque quer matar o Presidente?”, riposta Clint Eastwood, com a sua voz grave. A resposta, em tom suave, de John Malkovich foi, na época, desconcertante: “Para quebrar a monotonia.”
Com Donald Trump na Casa Branca, o quebrar a monotonia seria quase deixar de haver atentados. E não me refiro apenas ao terceiro de que terá sido alvo, em menos de dois anos. Este novo atentado é mais um passo para a normalização da violência política nos EUA, que se encontra numa espiral de radicalismo e de polarização. Além dos assassínios do ativista ultraconservador Charlie Kirk e de uma congressista democrata, com o seu marido, no Minnesota, há já estudos de opinião que medem bem o escalar desta era de “populismo violento”: 39% dos democratas preconizam o uso da força para remover Trump, enquanto 24% dos republicanos aceitam que o Presidente use as Forças Armadas para reprimir os protestos populares contra ele.
Quando isto ocorre num país em que proliferam as armas e as redes sociais disseminam e amplificam o ódio – como em todos os outros, na verdade… −, é difícil não temer o pior. Nem os efeitos secundários desta violência: Trump beneficia sempre que sobrevive a um atentado. E, em todos os momentos, culpa os seus adversários políticos de instigarem à violência.
Nos próximos meses, até às eleições de novembro, é bem provável que este clima se agudize. Com consequências trágicas para a democracia americana – à qual já muitos estão a marcar o respetivo funeral.