O Vale Era Verde

Cromos e carne

A Topps, que já anda há muitos anos nisto, promete inovar. Uma das novidades será a inclusão de retalhos das camisolas dos jogadores incorporados nos próprios cromos. Leram bem. Tecido usado nos cromos. Não é maravilhoso? Não é pavoroso? Não é, enfim, humano? A criança abre a carteirinha e sai-lhe uma relíquia

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

O 28 de Maio, Miles Davis, e o esgotamento da forma

Há valores anteriores aos regimes, como a paz pública, a possibilidade de rezar, trabalhar, dormir, existir sem medo. Se um determinado entendimento político não é capaz de garantir estas coisas é preciso partir para outra

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

As moscas de Tribeca

Lisboa quer mundo? Venha o mundo a Lisboa. Mas confrange vê-la assim, a comportar-se como se só existisse quando alguém a fotografa. Do mal o menos. O que vale é que quase ninguém sabe que aquilo existe

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Monstros de palco

O que é o excesso carnal de Jagger, aquela boca que parece ter engolido todos os estádios do mundo, senão a deformação de um homem visto vezes de mais? O que é a voz demasiado arrastada de Dylan senão a marca deixada por uma profecia dita a partir do lugar reservado ao que se anuncia? O que são as máscaras de Bowie, senão mortes sucessivas? Mais do que marcas de estilo, isto são cicatrizes metafísicas

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

O tempo e a maçã

Pôr o relógio assim, atravessado diante dos olhos, não significa que este Ando seja uma espécie de paliativo para um olhar condoído, mas também pode ser que não signifique o contrário

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Perceber Morès

O problema é o nacional-porreirismo: aquela pulsão de estar bem com tudo e com todos, em toda a parte e ao mesmo tempo. Ora, não há coisa mais perigosa do que a necessidade de ser aceite. Nações inteiras ergueram-se e caíram pelo desejo de um só homem ser amado

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

A poltrona invisível da Escola do Largo

Num tempo de exposição total, de panfletos, pedagogias e denúncias, um teatro que ainda acredita na palavra, na contenção, no tempo interior torna-se necessariamente clandestino

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Matar Chicão

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Sr. Gouveia

O Sr. Gouveia não era apenas um revisor mais severo. Não era só um funcionário mais exacto, mais fiel ao regulamento. Chamá-lo zelota seria, no fundo, absolver-lhe a mesquinhez. No zelota há uma fé absoluta. E a fé, quanto mais desvairada, mais magnífica

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

In Coena Domini

Há, na quietude mediática da Páscoa, qualquer coisa que a torna mais verdadeira. Mais reservada. Mais incorrupta. Os ovos de chocolate que sabem a sabão, os coelhos vagamente sinistros em papel de prata, as amêndoas disto e daquilo, tudo isso não atrapalha grande coisa. É folclore de supermercado. Um programa lateral condenado à tristeza própria das coisas sem centro

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Verde Veneno ou o mal-entendido do mundo

Verde Veneno não é tanto um disco que fiz quanto uma coisa que se impôs. Não começou quando comecei a escrevê-lo, mas quando percebi o que já lá estava

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Uma casa verdadeira

São essas casas que custam vender. Porque, quando isso acontece, é um centro de gravidade que está prestes a dissolver-se. Um elo de uma cadeia que se rompe. Sobretudo quando a casa não era apenas onde vivíamos, mas de onde vínhamos. É como se se derrubasse um carvalho

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Reza II ou a saudade como forma de disciplina

Não se trata de saber se Reza Pahlavi conhece o Irão como um topógrafo conhece o relevo urbano. Trata-se de saber se há homens para quem viver longe da pátria é apenas uma maneira mais dura de a servir

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

O apetite dos impacientes

António-Pedro Vasconcelos foi um socialista da pesada. Daqueles que, de dois em dois anos, se insurgiam contra a privatização da RTP. Foi um dos artífices da campanha presidencial de Mário Soares em 1986. Em termos de “neutralidade simbólica”, não estamos, propriamente, diante de uma figura exemplar. Só não vê quem não quer. E quando a facção dá nomes a salas, a sala passa a ser, simbolicamente, uma filial

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Epstein, o Sujeito A, e Ned Flanders entram num bar

O mundo moderno concede quase tudo, menos a dúvida. Há brutalidades e brutalidades. Umas entretêm, as outras condenam. Numa inversão que já não distingue grosseria, gravidade, estupidez humana e perversão estrutural

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Os nossos heróis (ii)

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Os nossos heróis (i)

A questão dos Heróis do Mar nunca foi ideológica, foi íntima. Foi esse o seu desplante. Um desaforo da mesma estirpe de Camilo Castelo Branco. O que os Heróis traziam exigia entrega. Era romance. E o romance assusta porque é intenso, exigente e, como toda a gente sabe, acaba quase sempre mal

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

O Anti-Ventura

Votar-se-á em Seguro não por força própria, nem por liderar um projecto mobilizador, mas por cumprir com exactidão a função específica de ser um André Ventura ao contrário

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Capitão Fausto - faça o bando o que fizer

Apesar deste caminho de consagração, o sistema não os consegue contaminar. As famílias (e os bandos) formam carapaças difíceis de penetrar

Manuel Fúria
Inteligência Artificial Generativa | ChatGPT
O Vale Era Verde

O elefante no texto

Há quem lhe chame “inteligência artificial”. É como chamar “meu amor” a um contrato de telecomunicações. Uma inteligência exige um alguém, lembrava o John Maus. E alguém, lembro eu, tem mau hálito de manhã e um dia morre. Coisa que não se dá em modelos estatísticos

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

O Outside In

Faz parte de ser crescido desaprender a ser criança. O adulto sabe que foi pequeno, mas não sabe ser pequeno, por isso não consegue compreender a infância no outro. Não totalmente. Dá-se então aquele caso bicudo de, ao tentar revivê-la na perversidade da nostalgia, confundir tudo. E, Peter Pan de cerveja na mão e Brufen no bolso, seguir voando com os seus filhos para uma versão sombria da Terra do Nunca

Manuel Fúria