O Vale Era Verde

A música portuguesa a desconfiar dela própria

O homem que se julga medíocre já nem tem tempo para levar o pensamento até ao fim. É imediatamente conduzido a um psicólogo e devolvido à sociedade com a recomendação de reconhecer o seu valor. Ninguém admite a hipótese, por remota que seja, de esse homem ter razão no julgamento que fez de si mesmo. No instante em que alguém se descreve nestes termos, aparecem logo três especialistas e um podcast para lhe garantir que é magnífico

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

A última das ocupações encantadas

Mais do que meter o nariz na vida alheia, o genealogista mete as mãos no olvido. É disso que se trata. Uma profissão moderna recolhe dados. Contra o esquecimento, o genealogista recolhe vestígios: um nome num assento, uma data numa lápide, a memória trémula de uma prima de noventa anos

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Confissões de um ensimesmado

Este não é um texto sobre duas pessoas que não gostam de mim. E, apesar de não parecer, nem é sobre mim em sentido estrito. É sobre a hipótese de um homem, não sei quantos anos depois, ainda fazer contas a duas pessoas que julga não gostarem dele, quando, entretanto, milhares de outras tiveram coisas mais importantes em que pensar

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

A sabedoria das coisas habituais

O veraneante não precisa de conquistar a paisagem. Deixa-se tomar por ela. Habita-a durante o tempo suficiente para não a esgotar. Ao fim de alguns dias, já anda mais devagar, já não olha tanto. Saber onde fica o pão é menos heróico do que a peregrinação. Mas está muito mais perto da peregrinação do que do turismo

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

O cisma e a vontade de cismar

Uma excomunhão dói a todos os católicos; ou pelo menos devia doer, impor reserva. Ou, não sendo possível reserva, ao menos parcimónia. Ou, não sendo possível parcimónia, ao menos justeza. Mas isto seria pedir demais a quem já decidiu previamente a função narrativa dos personagens

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Fumo e civilização

Ao banir o fumo, a nossa civilização eliminou uma imagem inteira do mundo: tudo o que fazia da vida uma coisa menos eficaz e, por isso mesmo, mais habitável. Os escritores, por exemplo. Não é que se escreva melhor com um cigarro, mas é prudente desconfiar de tudo quanto se possa dizer sem vício e sem cinza

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

A Bola e o Monstro

Os Angine de Poitrine e o Mundial interessam porque, escondida por baixo do grotesco e do ruído visual, há uma promessa de forma. Quando ela finalmente surge, redime-nos, pobres criaturas caídas: cabeças de pasta de papel ou estádios inteiros a berrar pela sua pequena eternidade. Tanto faz

Manuel Fúria
Jovens cada vez mais longe de atingir a classe média
O Vale Era Verde

Anticorpos contra a carne

Há algum problema em ouvir miúdos num podcast? Se o assunto for cromos, recreios, professores ou a misteriosa incompetência dos adultos, talvez até se aprenda alguma coisa. Se o assunto for sexo, talvez o mínimo fosse aparecer um travão, um embaraço, um resto de pudor. Mas não. Ali era tudo simples

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Cromos e carne

A Topps, que já anda há muitos anos nisto, promete inovar. Uma das novidades será a inclusão de retalhos das camisolas dos jogadores incorporados nos próprios cromos. Leram bem. Tecido usado nos cromos. Não é maravilhoso? Não é pavoroso? Não é, enfim, humano? A criança abre a carteirinha e sai-lhe uma relíquia

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

O 28 de Maio, Miles Davis, e o esgotamento da forma

Há valores anteriores aos regimes, como a paz pública, a possibilidade de rezar, trabalhar, dormir, existir sem medo. Se um determinado entendimento político não é capaz de garantir estas coisas é preciso partir para outra

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

As moscas de Tribeca

Lisboa quer mundo? Venha o mundo a Lisboa. Mas confrange vê-la assim, a comportar-se como se só existisse quando alguém a fotografa. Do mal o menos. O que vale é que quase ninguém sabe que aquilo existe

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Monstros de palco

O que é o excesso carnal de Jagger, aquela boca que parece ter engolido todos os estádios do mundo, senão a deformação de um homem visto vezes de mais? O que é a voz demasiado arrastada de Dylan senão a marca deixada por uma profecia dita a partir do lugar reservado ao que se anuncia? O que são as máscaras de Bowie, senão mortes sucessivas? Mais do que marcas de estilo, isto são cicatrizes metafísicas

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

O tempo e a maçã

Pôr o relógio assim, atravessado diante dos olhos, não significa que este Ando seja uma espécie de paliativo para um olhar condoído, mas também pode ser que não signifique o contrário

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Perceber Morès

O problema é o nacional-porreirismo: aquela pulsão de estar bem com tudo e com todos, em toda a parte e ao mesmo tempo. Ora, não há coisa mais perigosa do que a necessidade de ser aceite. Nações inteiras ergueram-se e caíram pelo desejo de um só homem ser amado

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

A poltrona invisível da Escola do Largo

Num tempo de exposição total, de panfletos, pedagogias e denúncias, um teatro que ainda acredita na palavra, na contenção, no tempo interior torna-se necessariamente clandestino

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Matar Chicão

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Sr. Gouveia

O Sr. Gouveia não era apenas um revisor mais severo. Não era só um funcionário mais exacto, mais fiel ao regulamento. Chamá-lo zelota seria, no fundo, absolver-lhe a mesquinhez. No zelota há uma fé absoluta. E a fé, quanto mais desvairada, mais magnífica

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

In Coena Domini

Há, na quietude mediática da Páscoa, qualquer coisa que a torna mais verdadeira. Mais reservada. Mais incorrupta. Os ovos de chocolate que sabem a sabão, os coelhos vagamente sinistros em papel de prata, as amêndoas disto e daquilo, tudo isso não atrapalha grande coisa. É folclore de supermercado. Um programa lateral condenado à tristeza própria das coisas sem centro

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Verde Veneno ou o mal-entendido do mundo

Verde Veneno não é tanto um disco que fiz quanto uma coisa que se impôs. Não começou quando comecei a escrevê-lo, mas quando percebi o que já lá estava

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Uma casa verdadeira

São essas casas que custam vender. Porque, quando isso acontece, é um centro de gravidade que está prestes a dissolver-se. Um elo de uma cadeia que se rompe. Sobretudo quando a casa não era apenas onde vivíamos, mas de onde vínhamos. É como se se derrubasse um carvalho

Manuel Fúria
O Vale Era Verde

Reza II ou a saudade como forma de disciplina

Não se trata de saber se Reza Pahlavi conhece o Irão como um topógrafo conhece o relevo urbano. Trata-se de saber se há homens para quem viver longe da pátria é apenas uma maneira mais dura de a servir

Manuel Fúria