Passado o 25 de Abril deste ano, é inegável que a adesão e a relevância da data crescem um pouco por todo o País. Das quatro gerações que hoje a comemoram nas ruas, duas delas não viveram a revolução de 1974, mas encontram agora razões políticas e de chão comum para o fazerem. Foi isso que o Presidente da República, melhor do que ninguém, percebeu, e manifestou-o através de um grande discurso.
Muitas, demasiadas vezes, invoca-se os jovens para ficar bem na “fotografia”, mas António José Seguro fê-lo com propriedade e onde mais interessava. Não foi de somenos “o desaparecer da liberdade aos poucos”, depois do apontar das muitas dificuldades com que uma maioria vive hoje em Portugal. E prosseguiu: “Primeiro é uma lei que parece razoável. Depois uma instituição que se esvazia por dentro. Depois uma voz que se deixa de ouvir. Depois outra. O perigo para a democracia raramente chega como nos filmes. É mais frequente afirmar-se com argumentos que parecem inofensivos e, nos dias de hoje, também com algoritmos.”
Se isto não começa também a entranhar-se de certa forma no País?
A verdade é que o restaurar da relevância maior da data da liberdade e do início do processo democrático esteve longe de ser pouco previsível nos últimos anos. Desde 2020, com os ventos que sopravam já na altura por essa Europa e pelos EUA fora, que uma parte política do País encontrou os pretextos mais descabelados para não só não entender isso, como ignorar o movimento global e local que pretendia e pretende desmantelar os valores fundacionais que se materializaram em Portugal a partir de Abril. Entenda-se, a liberdade, tudo o que ela representa, e a democracia mais tarde. Também é verdade que existem setores da esquerda pouco inocentes neste aspeto que sempre se julgaram “donos” do 25 de Abril; mas, caramba, sempre coube à direita democrática sobrepor ou impor-se a isso e perceber que foi, juntamente com a esquerda democrática, a grande vencedora do que ali se iniciou.
Ver hoje todo um mar de gente que atravessa várias gerações, da esquerda à direita, a compreender o chamamento da memória, mas sobretudo da reação necessária a um certo “ar do tempo” que vem ganhando força, enquanto este Governo vem assinalando a data de forma desconexa e tímida é lamentável. Como foi e é aquela “frente” da separação entre o 25 de Novembro de 75, que nunca foi uma data menor, e o 25 de Abril de 74.
No entanto, já sabemos que falar hoje do 25 de Abril com, por exemplo, qualquer dirigente do descaracterizado e “contaminado” CDS é ouvir isso mesmo e o apontar ao PREC que não orgulha o País, mas que não perdurou. Em vez disso, qualquer “olhar”, com perspetiva de dentro ou de fora, constata uma revolução distinta, que permitiu de forma ímpar uma transição menos sangrenta e mais transversal.
Todavia, as coisas são o que são e a realidade diz-nos que encontrar hoje o equilíbrio, o essencial da visão humanista e o bom-senso quando tantos o proclamam, encontrando-se tão longe disso, é crucial e obriga a alguma coragem intelectual.
Mais do que uma comemoração, o 25 de Abril deste ano também foi, para muitos, uma reação às liberdades que deixámos de ter como adquiridas, num País profundamente desigual e difícil, mas que não pode perder a bússola do essencial das melhores décadas e de maior avanço da sua História.
Uma reação ao flagelo das fake news, da contaminação das narrativas baseadas em falsidades das redes sociais, dos da cassete do jornalixo, da nova exponenciação do racismo contra imigrantes e do discurso de ódio nos jovens em crescendo nas escolas. Uma reação contra a tentativa da menorização do papel da mulher e o retrocesso civilizacional dos direitos, liberdades e garantias das minorias na sociedade. Retrocessos que há pouco mais de sete anos julgávamos inimagináveis, mas que estão aí e não são um exclusivo português. Quase tudo é importado de um flagelo global, diga-se, e que encontra no Chega o seu expoente máximo no País.
Nosso, nosso, só mesmo o 25 de Abril.
Seria bom que este Governo quisesse e fizesse por o perceber. Por isso, termino este artigo da mesma forma que acabei outro há seis anos, também sobre a revolução de 74. Sempre na esperança (ingénua?) de que, passado este tempo, toda a direita democrática política comece a querer estar onde interessa.
“Até nisso o 25 de Abril é clarificador. De ora em diante, não se pode dizer que não se sabe com o que se conta. Chegou a hora de o assumirem e não ficarem pela meia-verdade, como nos diz Sophia.”
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.