Sempre que chegam relatos de atrocidades cometidas em zonas de guerra, interrogo-me se, enquanto seres humanos, somos compelidos a atos de horror e a crueldade, e se aquilo que nos torna seres conscientes é a nossa capacidade de não ceder a essa compulsão. Seja qual for a opção, vivemos numa época em que ainda testemunhamos atos e decisões que já não deveriam ter lugar em qualquer sociedade do séc. XXI.
São reflexões minhas que surgem após ler a notícia no The Guardian que detalha como o regime militar em Myanmar proibiu a distribuição de pensos higiénicos, com o argumento de que os produtos menstruais estão a ser usados para cuidar de combatentes do lado da resistência. Organizações humanitárias no terreno já denunciaram as afirmações falsas do regime e especialistas em medicina de combate explicaram que um penso higiénico não serviria sequer para estancar uma hemorragia. O fardo dessa proibição recai inevitavelmente nas mulheres, forçadas a recorrer a alternativas, como papel de jornais ou folhas de árvores, que põem em perigo a sua saúde.
Em grande parte das guerras, a tática é universal: instrumentalizar o corpo feminino, humilhar as mulheres, rebaixá-las, fragilizá-las, escondê-las, se for preciso, como fazem os talibãs no Afeganistão. A crueldade parece não ter fim, e nem a Carta das Nações Unidas salva as mulheres, quando os indivíduos que comandam guerras decidem fazer delas prisioneiras e vítimas.
Se passarmos para o “hemisfério rico”, o contraste não poderia ser maior e, na aparência, a mulher é livre e os seus direitos estão aparentemente garantidos na legislação. Todavia, por mais privilegiado que seja o corpo feminino em sociedades ocidentais, é hoje, mais do que nunca, um campo de batalha político e ideológico. Alguns direitos como o direito ao aborto e ao contracetivo, ou o direito a denunciar o assédio e a violência sexual, são alvos a abater. Estas não são meras guerras culturais lançadas por uma minoria ruidosa, mas passos deliberados para obter poder e controlo sobre o corpo da mulher.
E como temos vindo a testemunhar, nem sequer precisamos de viver em ditadura para sentir esse cerco a apertar em torno dos direitos das mulheres. Em 2022, o Tribunal Supremo dos EUA reverteu a decisão do caso Roe vs. Wade, que protegia o direito ao aborto no país, algo que se julgava impensável. A distopia da América atual já está cada vez mais próxima da distopia ficcional de The Handmaid’s Tale (História de uma Serva), o clássico literário da escritora canadiana Margaret Atwood, que descreve Gilead, uma sociedade que instrumentaliza a religião para justificar a opressão total das mulheres, reduzidas de forma extrema ao seu papel reprodutivo. São roubadas dos seus nomes, da sua identidade, da sua liberdade de escolha, e existem apenas para servir a autoridade patriarcal.
O livro foi alvo de uma adaptação televisiva de grande sucesso que permitiu que esta história, escrita na década de 80, chegasse a muito mais pessoas que viram, através dessa obra, como é tão fácil perder os direitos que julgamos garantidos.
Este mês estreou a adaptação televisiva de Os Testamentos, a sequela escrita por Margaret Atwood, e que dá lugar a uma nova geração de jovens mulheres sob a autoridade do regime patriarcal de Gilead. Jovens que já são consideradas mulheres após a primeira menstruação e destinadas a casar com homens do regime, gerir as suas casas e parir os seus filhos. A nova série é notável ao expor a perversão masculina (e ideológica) em torno de jovens menores de idade, sob a fachada do fundamentalismo religioso. Não é assim tão diferente do mundo em que vivemos, em que o abuso sexual de menores está a crescer em números. De acordo com dados divulgados pelo Conselho da Europa, uma em cada cinco crianças é alvo de abuso sexual na Europa, e a maioria dos abusos é cometida por pessoas do seu círculo de confiança.
Os Testamentos é, infelizmente, uma distopia cada vez menos longe dos reinos da ficção. Se a consciência humana é aquilo que nos impede de ceder ao pior de nós próprios, a verdade é que continuamos a assistir, geração após geração, ao mesmo padrão de controlo, abuso e humilhação. A ficção de Atwood não nos assusta porque é imaginária. Assusta-nos porque já a reconhecemos.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.