Durante a maior parte das nossas vidas, pelo menos desde 1984, habituámo-nos a dizer que somos um país de dez milhões de habitantes. Sempre que a pergunta aparecia, a resposta surgia de imediato, na ponta da língua, rápida, certeira e sem qualquer hesitação, ainda para mais sendo um número tão redondo. E a verdade é que durante cerca de quatro décadas a nossa população foi mais ou menos estável, com ligeiríssimas variações, e com o aumento da esperança de vida quase sempre a conseguir compensar a redução da natalidade.
O diagnóstico parecia feito e imutável: desde 2010, quando atingimos um pico de 10,5 milhões de residentes e a crise económica abalava o mundo, começámos sempre a perder população. E, inevitavelmente, a ficar mais velhos. Parecia uma fatalidade. De tal modo, que nos anos da Troika e subsequentes, o discurso oficial foi o de procurar adequar o País à fatalidade de a sua população ir sendo cada vez mais escassa. Foi o tempo em que se “decretou”, por exemplo, que havia professores e enfermeiros a mais, e o melhor que esses profissionais tinham a fazer era ir procurar emprego noutros países. Foi também o tempo em que, de modo acelerado, se fecharam escolas, repartições de finanças, postos de correio, delegações bancárias, e tantos serviços de saúde por esse país fora. Foi o tempo em que se despovoou ainda mais o interior, mas em que ainda não existia uma grande pressão habitacional no litoral.
Afinal, como já se desconfiava, temos de começar a fazer outras contas. Passámos a ser um país de 11 milhões de habitantes – mais concretamente 11,4 milhões, segundo a atualização feita pelo Instituto Nacional de Estatística.
Este aumento da população residente deve-se, como sabemos, não a um súbito crescimento da taxa de natalidade, mas unicamente à capacidade de atração de estrangeiros para o País. E é prova de que não estamos condenados ao declínio populacional, com todas as implicações que isso tem para a economia e, no fundo, para a vida de todos nós.
Embora se assista atualmente na Europa e no mundo ao reacendimento de discursos nacionalistas e xenófobos que tentam diabolizar a imigração, pintando-a como uma ameaça à identidade e à paz social, é preciso perceber que a demografia e a economia real operam sob leis muito mais pragmáticas e inflexíveis do que as narrativas de exclusão. As pessoas deslocam-se para onde há trabalho, para onde podem melhorar a sua situação, para onde podem proporcionar um melhor futuro às suas famílias.
Num planeta onde o envelhecimento populacional atinge níveis históricos no Ocidente e em partes do Oriente, as regras da atração de capital humano vão definir cada vez mais os países que podem prosperar e os que vão ficar estagnados.
As projeções demográficas são claras em relação à queda da natalidade, mal um país ultrapassa um determinado patamar de desenvolvimento. E com o aumento da esperança de vida, vão começar a faltar mais pessoas em idade laboral. Só a imigração pode resolver esse défice, que preocupa, sejamos sérios, os líderes das maiores economias mundiais. Não é por acaso que o Japão, um dos países mais fechados culturalmente ao exterior e que durante anos dificultou ao máximo a entrada de estrangeiros, está agora a começar ativamente a procurar imigrantes. Através de reformas legislativas graduais mas contínuas, Tóquio começou a flexibilizar os vistos de trabalho, a criar canais para a fixação de trabalhadores estrangeiros e a reconhecer que a sobrevivência da sua economia depende da capacidade de integrar cidadãos vindos de fora. O pragmatismo demográfico acabou por derrotar o dogma ideológico.
No extremo oposto do histórico de isolamento encontra-se o Canadá, país que transformou a imigração numa política de Estado central e num pilar do seu modelo de crescimento económico.
Em Portugal, no entanto, continuamos sem estratégia de imigração, apenas a saltitar entre o improviso para resolver problemas imediatos e o abanar de fantasmas para espalhar o medo. Mais do que procurar fechar fronteiras, é preciso saber como as abrir. Em vez de expulsar pessoas, precisamos de saber como as atrair. E só há uma forma de o fazer: ter o País preparado para as acolher, com serviços de saúde e educação que não estejam a rebentar pelas costuras, com dinamismo empresarial, com respeito pelos direitos dos trabalhadores. Os imigrantes vêm para Portugal não pelo sol e pelas praias, mas para trabalhar.
As regras da atração global estão em marcha: os países que insistirem em fechar-se sobre si mesmos enfrentarão o declínio; aqueles que investirem nos serviços públicos e na integração harmoniosa construirão sociedades preparadas para o futuro. É só escolher.