Naquela tarde de Agosto, o ar estava particularmente pesado e o silêncio apenas se rasgava pelo canto das cigarras e o estalido das cascas das árvores. Zé Alfredo, que dormia a sesta no cadeirão da sala, acordou estremunhado com o seu próprio ronco, esforçando-se para focar os ponteiros do velho relógio de pulso. Faltavam duas horas.
Levantou-se sem pressa e soltou a camisa, que se colara às costas. A seus pés, Farrusco ergueu a cabeça e seguiu-o até à casa de banho, voltando a deitar-se no azulejo fresco, à espera do respingar da água do chuveiro. Vestido de lavado, Zé Alfredo procurou os óculos que lhe tinham dado na Junta e preparou uma merenda, pois o espectáculo só acabaria lá para depois das oito e não queria perder pitada.
Qu’engraçado, pensou. Da outra vez, foi de manhã. Sorriu com a lembrança dessa vez, vinte e sete anos antes, a Lurdinhas sentada ao seu lado pelando figos para os dois, sempre a falar, sempre a falar, a magana, e ele a fingir que prestava atenção. Não conseguia seguir nem metade das histórias que ela contava, porém, não se cansava de ouvir a sua voz doce. Hoje, iria àquele mesmo lugar, com o Farrusco nas vezes da Lurdinhas, que, não lhe atenuando a saudade, sempre lhe fazia alguma companhia.
Quando lá chegou, contudo, o cenário era bem diferente daquele com que deparara tantos anos antes. No fim da estrada que precedia a subida íngreme até ao topo da Pedra da Loba, havia carros por todo o lado, incluindo um carro de exteriores, daqueles com parabólicas e antenas no tejadilho. Zé Alfredo saiu da sua caixa-aberta e admirou-se com o mar de gente que já lá estava em cima. Bô, queres ver que vou ter de levar com esta chaldraria?
Obrigou as pernas débeis a subir o trilho de pedras e terra, e percebeu que a coisa era pior do que tinha antecipado. No alto do monte, não estava só um mar de gente. Estava também um vendedor de bolas de Berlim, um carrinho de gelados, uma banca de piña colada, outra de cerveja, um assador de bifanas, uma senhora que vendia pulseiras da lua, (o que quer que isso fosse), e um carrinho de T-shirts que diziam “Eu vi o eclipse 2026”. Também lá estava o pessoal da Junta a distribuir os tais óculos de lentes escuras e quase opacas, zelando pela saúde ocular dos seus fregueses, pois era muito perigoso olhar para o céu a olho nu e já ninguém guardava radiografias.
Zé Alfredo suspirou, desapontado, e ainda ponderou regressar a casa, onde poderia assistir ao fenómeno em solitude. Mas logo viu a rocha onde se sentara com a Lurdinhas espantosamente vazia, e, nesse mesmo instante, no meio da algaraviada, pareceu-lhe ouvi-la dizer: anda lá, hôme, escarrancha-te aqui. Obedeceu.
À medida que a hora se aproximava, algumas pessoas foram-se sentando no chão, em cadeiras dobráveis ou em pufes cheios de esferovite. Outras preferiam estar de pé, a comer e a beber, aumentando o volume da música que saía de colunas portáteis. Muitas fotografavam-se com os telemóveis, contraindo os lábios como se tivessem chupado um limão. Uma jornalista, mais nova do que a neta de Zé Alfredo, ia repetindo de meia em meia hora as perguntas expectáveis, porque escolheu este local para ver o eclipse? Trouxe a família ou veio sozinho? Vejo que já tem uma pulseira da lua. É para dar boa sorte? Também se lembra do eclipse de 99?, esforçando-se para manter o entusiasmo, pois não é todos os dias que se tem a oportunidade de fazer um directo. Uma celebridade era maquilhada enquanto escolhia o figurino com que brindaria os seus milhares de seguidores. As assistentes, como baratas tontas, procuravam o melhor lugar para o tripé com anel de luz, quase tropeçando numa criança que berrava porque deixara cair o gelado e agora queria comer o do irmão, que, por sua vez, queria ir para a piscina.
Irritado, Zé Alfredo fez por ignorar o circo que se montara à sua volta. Pôs os óculos e olhou para o céu, vendo uma fina sombra a despontar, como uma unha negra que crescia lentamente. Ao contrário do que presenciara com a Lurdinhas, aquele seria um eclipse total, a escuridão absoluta, o dia a fazer-se noite por instantes. Sim, ali estava a Lua a intrometer-se entre o Sol e a Terra, oferecendo um breve vislumbre do que seria o planeta sem a sua estrela, sem o seu calor. Segurando uma lágrima com o nó do dedo, ocorreu-lhe que a Lua era como a morte, que se intrometera entre ele e a mulher.
À medida que o auge se aproximava, o céu foi ficando cada vez mais negro e o ar, cada vez mais frio. Farrusco inquietou-se, pois ninguém explica aos animais que os eclipses são fenómenos naturais. Não há nada a temer, nem são horas de dormir, e logo, logo a luz voltará. Tirou da sacola uma caixa com figos, que partilhou com o animal, o anjo-da-guarda que não o deixava cair no abismo. Enquanto os pelava, olhou em volta, para o aparato que persistia.
A música era cada vez mais frenética e a jornalista retocava a maquilhagem, ao mesmo tempo que tentava inventar novas perguntas. Ia entrar em directo precisamente às 19 horas e 30 minutos, de costas para o astro-rei, ou melhor, para a Lua que o tapava, perguntando-se quem estaria a vê-la através de um ecrã em vez de assomar à janela. Zé Alfredo reparou então que, tal como esses potenciais telespectadores, ali, também ninguém olhava para o céu. Quase todos estavam de olhos pregados nos telemóveis, mais preocupados com likes do que com o algo que só se repetiria dali a 114 anos. Ponderou se gostaria de ter tirado uma fotografia à Lurdinhas naquele outro eclipse. Se o tivesse feito, poderia ter a certeza de que vestia uma blusa branca sem mangas e uma saia rodada salpicada de flores. Porém, a fotografia não captaria o cheiro dos figos e dos seus cabelos, nem o silêncio que se ouvia nesse dia na Pedra da Loba.
Voltou a olhar para o céu onde, agora sim, se formava um perfeito anel de luz num infinito muito escuro. Que momento extraordinário! Uns meros vinte e seis segundos até os raios de sol começarem a furar a muralha da Lua. Vinte e seis segundos de autêntica maravilha que poucos testemunharam.
Estás a ver, Lurdinhas? Atão na estou, homê, é tão bonito. Tu é que és bonita. Chiu, não digas nada. E ele não disse, mas sentiu a mão dela sobre a sua, percebendo, então, que, se a morte era como a Lua, o amor era como o Sol: mesmo quando não se vê, continua a brilhar e a dar-nos vida. Regressou a casa com o Farrusco e o coração um pouco menos pesado, enquanto a festa continuou pela noite dentro.
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