Ontem Portugal ficou sem óculos para ver a Lua tapar o Sol durante uns segundos, mas esta manhã acordámos exactamente com as mesmas prestações, os mesmos impostos, os mesmos problemas e, principalmente, com a possibilidade de continuar a desfrutar de alguns pequenos prazeres da vida. Talvez o verdadeiro milagre seja mesmo esse: estarmos vivos, termos amigos ou a família à mesa e o Sol nascer todos os dias sem termos de pagar, baixar uma aplicação no telemóvel ou entrar numa fila para comprar uns óculos especiais.
Estava ontem em Lagos, não em Bragança, a festejar o aniversário de uma amiga com outros amigos — uns que já conhecia, outros que conheci agora —, um pouco afastado do mar e das praias, numa casa linda no meio do campo, em cima de um monte, com uma mini, um copo de bom vinho ou uma sangria na mão — mas nada de beber demais —, a celebrar a vida, a ver estrelas cadentes e a observar esse outro fenómeno extraordinário que acontece todos os dias sem tanta euforia: um belo pôr-do-sol no fim de um belo dia de Verão. Foi aí, aliás, que comecei a pensar nesta crónica.
Claro que antes vi o eclipse e vi o monte a escurecer. Ou melhor: vi o suficiente para não poder dizer que não vi. Espreitei durante uns segundos por uns óculos emprestados, disse cá para mim qualquer coisa parecida com “ah, sim, realmente”, partilhei-os com outra pessoa, com a minha companheira, e continuei a minha vida de copo na mão, no meio da conversa e de muitas piadas.
Não comprei óculos, não procurei óculos e, pelo que percebi, mesmo que tivesse querido comprá-los estavam completamente esgotados. Passei à porta de um oculista na cidade e a montra estava cheia de avisos: “Óculos para ver o eclipse esgotados”. Os óculos eclipsaram-se antes do eclipse, o que me parece, aliás, a primeira grande vitória comercial da Lua sobre o Sol.
Enquanto meio mundo e metade do país pareciam preparar-se para a chegada de uma nave extraterrestre, eu já estava no Algarve desde a noite anterior, com um céu nocturno tão limpo que se viam estrelas às centenas e, de vez em quando, uma cadente. E confesso que me emociona mais uma estrela cadente, talvez porque dura tão pouco — como nós, humanos, à dimensão do universo —, não vem com manual de instruções e ainda me permite a infantilidade de pedir um desejo.
Aos anos que tenho, continuar a pedir desejos às estrelas parece-me bastante mais saudável do que correr para os centros comerciais e lojas à procura de uns óculos de cartão.
O País dos óculos esgotados
Compreendo perfeitamente a importância científica de um eclipse. Ainda bem que há gente capaz de explicar o que acontece quando a Lua se atravessa entre nós e o Sol sem transformar imediatamente a coisa numa teoria da conspiração.
Ontem, 12 de Agosto, em Portugal só houve uma pequeníssima zona do Parque Natural de Montesinho onde a ocultação foi total durante cerca de 26 segundos; no Aeródromo de Bragança chegou aos 99,8%. No resto do país, o eclipse foi parcial, embora muito expressivo, diziam. A própria NASA confirmou que apenas um pequeno canto de Portugal entrava na faixa da totalidade. E foi.
Raro? Sem dúvida. Cientificamente fascinante? Evidentemente. Razão suficiente para Portugal inteiro entrar em estado de emergência ocular? Aqui comecei logo a perder o entusiasmo.
Porque foi praticamente isso que aconteceu. Durante dias, os óculos próprios para observar o eclipse adquiriram o estatuto económico de um apartamento no centro de Lisboa: toda a gente queria um, quase ninguém os encontrava e quem os tinha começou provavelmente a desconfiar de que podia fazer fortuna.
Lojas com avisos à porta — “NÃO TEMOS ÓCULOS” —, pessoas a telefonar a amigos, amigos a telefonar a primos, primos a descobrir que um cunhado talvez tivesse dois pares. Houve quem os encomendasse online para os receber depois do eclipse, o que constitui um magnífico exemplo português de planeamento estratégico. E houve até quem recorresse a máscaras de soldador. Faltou apenas aparecer alguém no OLX a trocar uns óculos ISO por um T2 em Alvalade.
A nossa espécie humana — e a portuguesa em particular, com a preciosa ajuda dos media e dos comentadores de ocasião, como vi, por exemplo, também ontem na Sky News, que fui acompanhando de vez em quando — tem esta extraordinária capacidade de transformar qualquer acontecimento raro numa obrigação colectiva.
Não basta haver um eclipse: é preciso vê-lo. Não basta vê-lo: é preciso fotografá-lo. Não basta fotografá-lo: é preciso publicar a fotografia no Instagram para provar aos outros que estivemos presentes quando a Lua fez aquilo que faz há milhões de anos sem precisar de influencers, patrocinadores ou um save the date. Se não pusermos o eclipse no Instagram, terá o eclipse realmente acontecido? Contra mim falo: acabei também por partilhar uma story de uma amiga que estava na festa.
Vinte e seis segundos e a vida continua
O mais divertido foi a solenidade disto tudo e, sobretudo, a forma como nos foi noticiado.
“É uma oportunidade única.” “Não pode perder.” “Só volta em 2144.” E é verdade: a Ciência Viva assinalava 1912 como a última vez em que um eclipse total foi visível em Portugal e 2144 como a próxima. Como se em 2144 eu pudesse estar furioso comigo próprio por ter desperdiçado a tarde de 12 de Agosto de 2026. Imagino-me, com 184 anos — sim, porque a ciência já quase admite isso —, instalado num lar orbital, a dizer aos meus bisnetos: “Se eu soubesse, tinha comprado os óculos quando ainda os havia.”
Entretanto, o eclipse passou, a Lua seguiu a sua vida, o Sol reapareceu e nós continuámos exactamente com os mesmos problemas e as mesmas alegrias. A prestação da casa não baixou. O IRS não se comoveu. O carro continua a precisar da revisão. Finalmente, as pautas com as notas dos putos já saíram, depois do pedido de revisão. O vizinho continuará certamente a pegar no berbequim às oito da manhã para pregar um quadro na parede. O WhatsApp continua cheio de grupos de que ninguém teve ainda coragem de sair. Não houve, afinal, uma epifania internacional e nacional às 19h31. Ninguém se tornou melhor pessoa porque viu a coroa solar durante 26 segundos. No máximo, tornou-se uma pessoa que viu a coroa solar durante 26 segundos e passou o resto da noite a falar disso ao jantar. Não foi o nosso caso. Vimos. E depois continuou a festa.
Talvez seja precisamente por isso que quase sempre me separo destas euforias colectivas. Desconfio um bocadinho quando toda a gente começa a correr na mesma direcção, sobretudo se essa direcção envolve filas, estacionamento e acessórios homologados. Não me chamem insensível; chamem-me terrestre. A obrigação de deslumbramento deixa-me frio. Há dias em que parece que já não basta viver: é preciso viver o acontecimento certo, à hora certa, com os óculos certos, no miradouro certo e, sobretudo, com a legenda certa. E, no entanto, o céu dá espectáculos todos os dias e quase ninguém faz fila.
O Sol nasce todas as manhãs sem termos de comprar bilhete. Basta lavar a cara, tirar as remelas dos olhos e pôr uns óculos escuros para disfarçar as olheiras de termos ficado acordados até às tantas a ver todos os episódios da nova série de uma das plataformas.
Depois, o Sol põe-se todas as tardes sem pré-inscrição. Há noites de Agosto em que as estrelas aparecem por cima do campo como se alguém tivesse furado o tecto do mundo com uma agulha, como aconteceu ontem. Há luas enormes sobre o mar, pores-do-sol magníficos, madrugadas silenciosas e aquela luz de fim de tarde que transforma durante cinco minutos uma parede branca numa coisa mais bela do que muitas obras de arte penduradas num museu de arte contemporânea. E ninguém põe um cartaz à porta a dizer: “ESGOTADO”.
Prefiro o pôr-do-Sol com uma cervejinha gelada
Talvez eu seja pouco cósmico. É verdade. Aceito a acusação. Dêem-me um pôr-do-sol à beira-mar, uma cervejinha bem gelada, um copo de vinho rosé ou branco, uma sangria com amigos ou um bom café bebido de manhã, quando ainda ninguém decidiu estragar-nos o dia, e fico perfeitamente reconciliado com o universo. Não preciso que a Lua tape o Sol. Às vezes basta-me que uma nuvem tape o calor durante três minutos.
Ontem à noite houve, aliás, outro espectáculo no céu que se calhar passou despercebido à maioria das pessoas, demasiado focadas no eclipse: as Perseidas, ou chuva de estrelas, que por esta altura de Agosto atingem o seu momento mais favorável. E talvez, se o sono depois de um dia bem passado não tivesse falado mais alto, ainda tivesse ficado a vê-las a noite inteira até ao nascer do Sol. Já as vi uma vez, não há muito tempo, nas ruínas romanas de Tróia — a nossa, não a de A Odisseia — e foi um espectáculo incrível, num local incrível que recomendo. Até vimos Júpiter através de um telescópio e o Starlink a passar. Fartei-me de pedir desejos. Mas agora não vou contar meteoros por hora, instalar uma aplicação nem consultar um gráfico. Olho para cima quando me apetece. Se passar uma estrela cadente, peço mais um desejo, sobretudo uma longa vida e saúde para mim e para os meus, paz no mundo e aquelas coisas que se pedem sempre. Se não passar uma estrela cadente, bebo mais um copo e converso com quem está ao meu lado. É uma metodologia científica discutível, reconheço, mas até agora tem produzido bons resultados. O eclipse foi extraordinário. Foi sim senhor. Mas a corrida ao eclipse é que me divertiu e me deixou ainda mais a pensar. Porque revela esta nossa necessidade contemporânea de transformar tudo em “evento”, de criar urgência até para o movimento dos astros, de viver debaixo da tirania permanente do “não podes perder”.
Posso, sim. Posso perder um eclipse, uma série, o restaurante da moda, uma tendência do TikTok e até aquela promoção extraordinária válida apenas até à meia-noite. A vida, felizmente, não é uma lista de experiências obrigatórias que temos de ir riscando antes de morrer. E há qualquer coisa quase cómica em haver gente que atravessou meio país e foi até Montesinho, discutiu meteorologia e astronomia como cientista de última hora, comprou óculos especiais, descarregou aplicações e organizou uma tarde inteira à volta de um acontecimento cuja grande intervenção prática nas nossas vidas consistiu em ficar um bocadinho mais escuro durante uns minutos. O universo trabalhou milhões de anos para isto e a malta respondeu com uma fila numa caixa de uma grande superfície comercial para comprar uns óculos.
Por isso, ontem à tarde, enquanto meio mundo e Portugal inteiro levantavam os olhos para o céu com os seus preciosos óculos de cartão, pedi uns emprestados duas ou três vezes durante dez segundos. Olhei. Confirmei que a Lua continuava a saber passar à frente do Sol. Disse “muito bonito”. E passei-os imediatamente a outra pessoa. Depois voltei à conversa com os meus amigos, aqueles que, como eu, também não ligaram assim tanto ao eclipse. Voltei ao campo, ao vinho, às piadas e, mais tarde, às estrelas.
Porque talvez seja essa a minha pequena heresia astronómica: entre um fenómeno que só acontece uma vez em mais de cem anos e as pessoas de quem gosto, continuo a achar muito mais raro conseguir juntar um grupo de amigos à mesma mesa para celebrar um aniversário — no fundo, para celebrar a vida. O eclipse acabou. A vida continuou. E hoje, enquanto escrevo esta crónica, porque gosto de me levantar cedo, o Sol nasceu outra vez.
Sem óculos. Sem aplicações. Sem filas. Sem comentadores em directo. E completamente grátis.
PS – Dedico esta crónica à Diana, a aniversariante; ao Miguel, que fez o maravilhoso jantar; à Rita, que preparou a maravilhosa sangria de kombucha sem álcool; à minha companheira; e a todos os outros que, apesar de tudo, ainda sabem olhar para as estrelas.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.