Tem sido frequente ler-se que, na era da IA, o mercado de trabalho valoriza sobretudo três competências: comunicação, adaptabilidade e storytelling. Diz-se, deste modo, que a IA veio torná-las mais importantes. À primeira vista, nada de novo.
No entanto, a IA não criou a importância da comunicação, da adaptabilidade ou do discernimento. Tornou impossível continuar a ignorá-las, realçando a importância que sempre tiveram. Dizer que a IA “veio valorizar” estas competências sugere que elas ganharam algo que antes não tinham. A verdade é outra: expôs uma hierarquia que já era falsa. A questão não está nas competências. Esteve em nós, e em décadas de educação e de formação, que trataram como periférico aquilo que se revela ainda mais decisivo. As soft skills não estavam ausentes do discurso educativo ou empresarial, permaneceram, porém, demasiadas vezes, num plano secundário relativamente ao que era mais fácil ensinar e avaliar.
A expressão soft skills, por oposição a hard skills, ajudou a instalar essa hierarquia. De um lado, os conhecimentos técnicos, mensuráveis e certificáveis. Do outro, as competências relacionais, remetidas para a categoria do “desejável” e, até, “subjetivo”. Com o tempo, esta distinção foi ampliando o seu campo semântico, deixando de ser neutra.
A IA já simula empatia de forma convincente, gera histórias eficazes, conduz uma conversa com aparência de sensatez, e fá-lo cada vez melhor. Isso, contudo, diz respeito ao efeito e não necessariamente à competência. Um sistema pode produzir uma frase empática, porque foi treinado em milhões de frases empáticas, sem que exista, do outro lado, alguém que decidiu dizê-la, que assuma a responsabilidade por a ter dito, ou que a ajuste em tempo real ao que a outra pessoa não disse, mas deixou perceber. Quanto mais a IA se aproxima do resultado de uma competência, mais distante fica da experiência humana que a torna possível. Assim, o que falta simular não é o produto, mas o julgamento que o precede. É aí que a palavra soft falha em nomear o que está em causa.
Pense-se numa reunião difícil, em que é preciso comunicar a um cliente que um prazo não será cumprido. Um sistema de IA consegue gerar, em segundos, um e-mail tecnicamente e linguisticamente (quase) irrepreensível. No entanto, não consegue decidir se aquele é o momento certo para o enviar, se a chamada telefónica seria mais adequada do que o e-mail, ou se a franqueza deve prevalecer sobre a relação já construída com aquele cliente. Essa decisão sobre o quê, quando e como é uma escolha da pessoa, mesmo que se aconselhe com alguém ou recorra a uma IA que proponha uma decisão plausível.
Adjetivamos soft a estas competências como se fossem leves, acessórias, quase dispensáveis de tão óbvias. É provavelmente o maior mal-entendido do termo. Uma linguagem de programação aprende-se num manual e um software pode dominar-se em poucas semanas. Já comunicar não se aprende por manual, o bom senso não se adquire por memorizar princípios, e a adaptabilidade não se desenvolve sem enfrentar, na pele, a experiência da mudança.
Há conhecimentos que se transmitem e há competências que se constroem lentamente, através da experiência, do erro, da escuta, do contacto com os outros e do tempo. Não são inatas, dependem de um processo sem atalhos, daí que resistam à automatização. O empréstimo soft poderá ser, afinal, a pior palavra possível para descrever competências tão complexas e tão profundamente humanas.
Comunicar é fazer com que aquilo que somos dê sentido ao que dizemos. As técnicas podem aperfeiçoar um discurso, todavia, não fabricam a coerência entre o pensamento, a emoção, a palavra e a ação. Essa coerência gera confiança, e reconhecemo-la muitas vezes antes de a sabermos explicar, quando as palavras coincidem com a pessoa que as pronuncia. Essa confiança nasce, sabemo-lo bem, da responsabilidade de quem fala. Nenhum sistema pode decidir o que deve ser dito, quando, porquê, ou o que deve permanecer em silêncio. Essa decisão deve depender de nós, ainda que apoiada nele.
A literatura sabe disto há mais tempo do que qualquer discurso sobre soft skills. Muito antes de se falar nelas, as narrativas – inclusivamente as orais – já ensinavam a interpretar intenções, a lidar com a ambiguidade, a entrar na perspetiva do outro. Ouvir e ler não permitem apenas adquirir informação, são, para além disso, um veículo de interpretação e de conhecimento da complexidade humana no mundo.
O maior equívoco das soft skills esteve, e continua a estar, na forma como as olhámos. Ora, são as competências mais difíceis de adquirir, sem vias rápidas, incompatíveis com a lógica de instantaneidade associada à IA. Esta não veio mudar aquilo que realmente importa aprender. O verdadeiro desafio da educação continua a ser formar pessoas que consigam transformar o que sabem em critério, o que dominam em responsabilidade pelas suas escolhas, e o que recebem como informação em algo que faça sentido para si e para os outros. Aquilo que nenhuma máquina assume por nós é a responsabilidade de decidir perante o imprevisível. É nele que nos transformamos.
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