Durante os 19 anos que vivi em Pequim, nunca encontrei nenhum chinês que soubesse de cor o nome de todas as etnias do seu país. É natural: ao todo, são 56! Há uma largamente maioritária, os Han, que constituem 91,1% da população (cerca de 1286 milhões), e 55 minorias, que no conjunto somam 125,5 milhões. Mesmo em três das cinco Regiões Autónomas (divisões administrativas onde os grupos étnicos minoritários têm mais peso), os Han já são a maioria. As únicas exceções são o Tibete, predominantemente budista, cujo líder espiritual, o Dalai Lama, vive no exílio desde 1959, e o Xinjiang, de cultura turcófona e religião muçulmana, que confina com o Afeganistão, o Paquistão, e várias ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central. São também as mais vulneráveis ao separatismo, ambas com línguas próprias e vincadas tradições culturais.
Sete minorias – os zhuang, hui, manchus, uigures, miao, yi e tujia – ultrapassam os dez milhões. Os primeiros são mesmo cerca de 20 milhões – mais do que a população da maioria dos países da União Europeia. Possuem uma escrita baseada no alfabeto latino. Os mongóis e os tibetanos também não são poucos: sete e 6,3 milhões, respetivamente.
Desde a unificação do país, há quase 2300 anos, a China já foi governada por duas das atuais minorias: primeiro os mongóis, nos séculos XIII e XIV – na época de Marco Polo –, e depois os manchus, do século XVII até 1912, quando o último imperador abdicou. A primeira organização política criada por Sun Yat-sen – “o pai da República”, venerado dos dois lados do estreito de Taiwan – chamava-se Sociedade para a Regeneração da China. As palavras de ordem dos seus conspiradores eram “expulsar os manchus” e “instaurar a República”. Aquela etnia alargou as fronteiras do país, mas a sua dinastia está associada ao “século de humilhação nacional”, iniciado com a Guerra do Ópio (1839-1842). Na sequência desse conflito, que permitiu aos ingleses continuar a vender ópio à China, a Grã-Bretanha anexou Hong Kong, Portugal obteve “governo e ocupação perpétua” de Macau, o Japão conquistou Taiwan e a Rússia czarista ocupou a chamada Manchúria Exterior, onde se encontra hoje Vladivostok e a sede da esquadra russa do Pacífico.
Nas regiões fronteiriças, milhares de famílias cazaques, uzbeques, tajiques, russas, coreanas e quirguizes vivem há várias gerações na China, e têm nacionalidade chinesa. Cui Jian, o pai do rock chinês, batizado pela imprensa ocidental de “Bob Dylan da China”, é de etnia coreana. Uma das suas canções mais conhecidas, que seria adotada nos anos 1980 pela juventude urbana como uma espécie de hino, chama-se Não Tenho Nada em Meu Nome.
A China aprovou este ano uma lei para “promover a unidade étnica”, que implica a aprendizagem da “língua comum” (o mandarim) desde o pré-escolar. “Nos casos em que seja necessário utilizar línguas e escritas minoritárias, deve ser fornecida, em simultâneo, uma versão na língua e na escrita comuns do Estado”, precisa a nova legislação. Para “forjar um forte sentimento de comunidade do povo chinês”, a lei exorta os diferentes grupos religiosos a “persistir na sinicização” dos respetivos cultos e a “adaptar-se à sociedade socialista”.
Em julho de 2009, confrontos entre han e uigures na capital do Xinjiang, Urumqi, causaram cerca de 200 mortos e mais de 1700 feridos. As relações com os vizinhos, nomeadamente com a Índia, com a qual Pequim mantém um contencioso acerca do traçado da fronteira comum, também nem sempre foram pacíficas. A geografia, neste aspeto, é igualmente singular.
A China faz fronteira com 14 países, quatro dos quais (Coreia do Norte, Índia, Paquistão e Rússia) possuem armas nucleares. Na frente marítima, onde os EUA têm dezenas de bases militares, as suas águas confinam com as de mais seis nações: Brunei, Coreia do Sul, Filipinas, Indonésia, Japão e Malásia. Alguns comentadores políticos europeus e americanos afirmam que “o Partido Comunista Chinês quer destruir o Ocidente”. No ano passado, quando se encontrou em Busan com Donald Trump, o Presidente chinês, Xi Jinping, disse que o PCC “não tem intenção de desafiar nem de suplantar ninguém”. “O nosso foco”, acrescentou, “tem sido sempre governar bem a China”. Propaganda à parte, tendo em conta as dimensões físicas e humanas do país, aquela frase pode traduzir também uma preocupação sincera.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.