Cidadãos, cidadãs, dirijo-me hoje a vós com uma palavra que, estou certo, apaziguará os espíritos mais sobressaltados.
Sente-se no fim da linha? Dá por si de vez em quando a respirar fundo como se quisesse libertar o peito de um peso que o parece comprimir? Repara com espanto que, volta e meia, está no duche e é atacado/a por uma súbita vontade de chorar? Está de férias e frusta-o sentir que não está verdadeiramente a descansar? Pior, está de férias e, desde o primeiro dia, antecipa com terror o regresso ao trabalho? Sente que a sua vida é uma sucessão de coisas que precisam de ser tratadas que não deixam espaço para planos de futuro? Sente que de cada vez que tenta imaginar o futuro é inundado de uma sensação de terror? Está há semanas sem abrir a caixa do correio com medo de que estejam lá dentro cartas com contas ou notificações das Finanças?
Paremos. Respire fundo. Imagine um sítio onde se sinta em segurança. Uma praia, por exemplo. Deserta, silenciosa, ondas a bater num ritmo aconchegante. O calor protege e faz desaparecer todos os problemas. Todos excepto aquele dente que anda a chatear mas que provavelmente será uma fortuna mandar arranjar. E o contrato da casa que está para acabar e só Deus sabe se vai dar para pagar a nova renda. E os miúdos que, coitados, estão mesmo na altura de pedir coisas e lá vai ter de se ter a conversa de que não nos definimos pelas coisas que temos. E se calhar as aulas de inglês também não são importantes. A lista de material que a professora deu não vai ser fácil de pagar… Talvez dê para comprar só algumas coisas agora…
Sente que a vida correu até aqui? Que ao mesmo tempo que parece que falta muito pouco tempo para que ela termine, falta uma eternidade de tratar de assuntos, preencher declarações de IRS, pagar contas e pensar, todas as manhãs como é que raio é que se vai esticar o ordenado?
Nada tema. Estou aqui para trazer tranquilidade a mentes atormentadas. O que você sente não é ansiedade. Fui ver e a Ordem dos Psicólogos explica que ansiedade é sentir o coração a bater muito rápido, falta de ar, tonturas, dor de barriga, tensão muscular, dor de cabeça, preocupação constante com o futuro, com a possibilidade de falhar ou desiludir os outros; pensar sempre o pior; estar sempre a pensar na mesma coisa e não ser capaz de parar, ter dificuldades em dormir, em relaxar, em concentrar-se, evitar pessoas, locais ou situações que são difíceis, ficar irritável, afastar-se dos outros. Enfim, sentir que o mundo vai colapsar em cima dos seus ombros e não há nada que possa fazer para o evitar. Mas não, embora possa parecer, você não tem ansiedade, é só stress.
Pronto, sente-se melhor? A ansiedade é uma coisa chata, por vezes terrível até. O stress é uma sensação que sentimos porque estamos vivos! Estamos vivos, caramba!
Eu sei, quem é este tipo para me estar a dizer que isto é normal? Repare, não sou quem o diz. Uma pesquisa rápida de empregos e começo a encontrar expressões que me garantem que estou certo: capacidade para trabalho sob pressão”, “disponibilidade total e imediata”, “gerir tarefas em ambiente dinâmico e por vezes sob pressão”, “capacidade de trabalhar em ambientes acelerados e sob pressão”, “perfil proativo, enérgico e resolutivo”, “disponibilidade total”, “espírito de sacrifício”, “prosperar num ambiente de alta pressão”, “ter capacidade de resiliência”. Malta, relaxem. Isto é tudo. normal!
Ninguém mudou o mundo a trabalhar 40 horas por semana. É o Elon Musk que o diz. Para tirar as teimas, fui à página do Instituto +Liberdade para tentar perceber melhor se isto tudo eram sintomas de uma vida desgraçada ou sinais de vitalidade triunfante: “Cada qual é o arquiteto do seu próprio destino. Um rapaz cheio de vontade de melhorar a sua situação terá de confiar na sua própria força e no seu próprio esforço.”
Mas como é que um rapaz (imagino que o texto não ceda a essas manias woke de achar que as raparigas também têm vontades) consegue fazer isto? A resposta é simples: “Um trabalho bem feito e um serviço bem prestado são os únicos caminhos para o sucesso.”
Está bom de ver, portanto. O sucesso, aquele que importa, o que se mede da única forma que deveria ser permitida, pela conta bancária, está ao alcance de “um trabalho bem feito”.
Resultam daqui duas coisas. A primeira é que se não tem o sucesso que queria, a culpa é sua. Lamento, mas se tem de pensar como é que aquela carne que está a descongelar pode dar para mais uma refeição, então só tem a sua própria preguiça para culpar. A segunda é que nada se deve meter entre uma pessoa (ou um rapaz) e o seu sucesso. O sentimento de terror constante que sente não é motivo de queixume, é motivo de celebração.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.