Há aprendizagens que chegam sem precisarmos de as procurar. Crescemos a observar os nossos pais e, quase sem nos apercebermos, vamos repetindo os seus gestos, as suas expressões e até os seus silêncios. Aprendemos a trabalhar antes de percebermos verdadeiramente o que significa trabalhar. Aprendemos que cumprir a palavra é uma questão de caráter, que a responsabilidade não se discute e que desistir é, quase sempre, a última opção. São lições que não se ensinam em livros nem em salas de aula; passam de uma geração para a outra na naturalidade dos dias, enquanto se muda um pneu, se pinta uma parede ou se conserta uma porta. O meu pai transmitiu-me muitas dessas coisas. Hoje reconheço quanto lhe devo. Mas, olhando para trás, percebo também que houve uma conversa que nunca tivemos. Não porque lhe faltasse vontade ou proximidade, mas porque lhe faltavam as palavras. Nunca me falou sobre o dia em que o meu corpo começaria a mudar.
Não me disse que chegaria uma altura em que a força deixaria de ser um dado adquirido. Que haveria manhãs em que acordaria com a mesma vontade de fazer tudo, mas com um corpo menos disponível para acompanhar esse entusiasmo. Nunca me explicou que o envelhecimento masculino não se resume a cabelos brancos ou a precisar de óculos para ler. Falou-me da importância de poupar dinheiro, de cuidar da família e de honrar os compromissos assumidos. Nunca me falou da necessidade de conhecer o próprio corpo. Hoje não o censuro por isso. Como poderia ensinar aquilo que também ninguém lhe ensinou? Suspeito que o meu avô nunca teve essa conversa com ele e que, antes disso, o mesmo aconteceu em tantas outras famílias. O silêncio, afinal, também se herda.
Durante muitos anos acreditei que envelhecer era um processo simples e previsível. Imaginava-o como uma sucessão tranquila de pequenas mudanças, suficientemente lentas para nos irmos habituando a elas. Primeiro surgiriam os cabelos brancos, depois as rugas, mais tarde alguma perda de agilidade. Nunca me ocorreu que algumas transformações pudessem instalar-se de forma tão discreta que só muito mais tarde percebêssemos que já viviam connosco. Talvez seja precisamente essa discrição que torna o envelhecimento masculino tão difícil de reconhecer. Não há um momento exato em que deixamos de ser o homem que fomos. Há apenas uma sucessão de pequenos sinais que, vistos isoladamente, parecem insignificantes e que, reunidos, contam uma história completamente diferente.
Foi por volta dos 55 anos que comecei a sentir essa estranha sensação de desencontro. Não houve um episódio marcante, nem uma dor súbita que me obrigasse a parar. Continuava a trabalhar, a gerir empresas, a tomar decisões e a cumprir horários exigentes. Aos olhos de quem me rodeava, nada parecia diferente. Mas havia qualquer coisa que deixava de encaixar. As escadas exigiam um esforço ligeiramente maior, a recuperação depois de um dia intenso demorava mais tempo e as pernas já não tinham a mesma consistência de outros tempos. Não era uma questão de peso. Era músculo. A força que sempre considerara silenciosa e fiel começava a retirar-se com a mesma descrição com que, anos antes, tinha chegado. Limitei-me a dizer a mim próprio aquilo que tantos homens dizem todos os dias: “É da idade.”
Hoje percebo como essa frase é, simultaneamente, verdadeira e enganadora. Claro que o tempo deixa marcas. Seria absurdo esperar que um homem de 60 anos tivesse exatamente o mesmo corpo que tinha aos trinta. O problema começa quando usamos a idade como resposta para todas as perguntas, quando deixamos de procurar compreender aquilo que nos acontece porque acreditamos que o calendário explica tudo. Foi isso que fiz durante demasiado tempo. Sempre que surgia um novo sinal, arrumava-o mentalmente na mesma gaveta, cansaço-idade, menos força-idade, recuperação mais lenta-idade. Era uma explicação confortável porque dispensava qualquer reflexão.
A primeira fissura nessa convicção surgiu de forma inesperada, numa consulta de rotina. As análises revelaram uma situação de pré-diabetes. Não era um diagnóstico dramático, mas bastou para interromper a tranquilidade com que vinha interpretando todos aqueles sinais. Pela primeira vez, ocorreu-me que talvez não estivesse perante um conjunto de acontecimentos independentes. E se houvesse uma relação entre a perda de massa muscular, a alteração do metabolismo, o cansaço persistente e aquela análise que agora tinha nas mãos? A pergunta instalou-se antes da resposta. Como era possível chegar aos cinquenta e muitos anos sem nunca ter ouvido uma conversa séria sobre aquilo que estava a acontecer ao meu próprio corpo?
Foi essa pergunta que me levou a procurar respostas. Não por acreditar que estava doente, mas porque comecei a desconfiar de que a explicação simplista com que tinha convivido durante anos já não era suficiente. À medida que lia, conversava com médicos e ouvia outros homens da minha idade, fui descobrindo uma realidade que me surpreendeu menos pelo seu conteúdo do que pela sua invisibilidade. Havia milhares de homens a viver experiências muito semelhantes. Mudavam os detalhes, mas repetia-se a mesma narrativa, menos força, menos energia, alterações metabólicas, mudanças de humor, dificuldade em reconhecer o próprio corpo e, sobretudo, a sensação de que tudo aquilo fazia parte de um território onde quase ninguém entrava. Não porque fosse raro, mas porque continuava envolto num silêncio antigo, herdado de geração em geração.
Foi então que percebi que a questão nunca tinha sido apenas o meu corpo. Durante décadas preparámos os homens para enfrentar praticamente todos os desafios da vida adulta, mas esquecemo-nos de os preparar para um dos poucos que todos, sem exceção, haveriam de encontrar, o próprio envelhecimento.
Há uma diferença subtil, mas profunda, entre envelhecer e compreender o envelhecimento. O primeiro acontece inevitavelmente; o segundo exige informação, contexto e, acima de tudo, uma conversa que raramente temos. Talvez seja essa a maior lacuna da educação masculina. Ensinam-nos a competir, a produzir, a proteger, a resolver problemas e a assumir responsabilidades. Ensinam-nos a ser independentes e a não desistir perante a adversidade. O que nunca aprendemos é que chega um momento em que a maior demonstração de responsabilidade deixa de ser trabalhar mais uma hora ou suportar mais uma dificuldade. Passa a ser prestar atenção aos sinais que o próprio corpo nos envia. E essa aprendizagem, ao contrário das outras, continua praticamente ausente da nossa cultura.
Sempre me intrigou a facilidade com que os homens falam das máquinas que conduzem e a dificuldade que têm em falar do corpo que habitam. Conhecemos os intervalos de manutenção do automóvel, sabemos quando mudar o óleo, reconhecemos um ruído estranho no motor antes que ele se transforme numa avaria séria. Fazemo-lo porque aprendemos que prevenir custa menos do que reparar. No entanto, quando se trata da nossa saúde, aceitamos durante meses, às vezes durante anos, sinais que mereciam ser compreendidos. Um cansaço persistente transforma-se em excesso de trabalho. A perda de força é atribuída à idade. Dormimos pior e culpamos o stress. O humor altera-se e convencemo-nos de que é apenas uma fase. Não se trata de irresponsabilidade. Trata-se de uma forma de olhar para nós próprios que fomos aprendendo sem nos apercebermos.
É curioso observar como a sociedade evoluiu em tantas áreas e, ainda assim, continua a tratar o envelhecimento masculino como um assunto secundário. Felizmente, a menopausa deixou de ser um tema escondido. Hoje fala-se dela com naturalidade crescente, existe investigação, acompanhamento médico especializado e uma consciência social muito maior sobre o impacto que pode ter na vida das mulheres. Esse progresso é justo e necessário. O que me surpreende é que, em relação aos homens, continuemos presos a um silêncio quase absoluto. Não porque a realidade seja igual, não é, mas porque a ausência de conversa produz um efeito semelhante, pois demasiadas pessoas atravessam mudanças importantes sem compreenderem aquilo que lhes está a acontecer.
Foi nesse percurso que encontrei a palavra andropausa. Li-a pela primeira vez com algum ceticismo. O termo parece sugerir uma equivalência direta com a menopausa, quando a realidade clínica é muito mais complexa. Nem todos os homens apresentam uma diminuição significativa da testosterona. Nem todos desenvolvem sintomas relevantes. Nem todos precisam de qualquer tratamento. A medicina, felizmente, é mais rigorosa do que as simplificações que tantas vezes encontramos nas redes sociais ou nas conversas de café. Mas esse rigor não deve servir de pretexto para ignorar aquilo que hoje já sabemos. Existe evidência científica sólida de que, em muitos homens, o envelhecimento pode ser acompanhado por alterações hormonais e metabólicas que influenciam a massa muscular, a gordura visceral, a densidade óssea, a sensibilidade à insulina, a energia, a qualidade do sono e até o estado de espírito. A questão não é transformar cada homem de cinquenta anos num potencial doente. A questão é reconhecer que existem mudanças que merecem ser avaliadas em vez de simplesmente resignadas.
Aquilo que mais me impressionou, contudo, não foi a informação médica. Foi perceber que a ciência parecia saber muito mais sobre este tema do que a sociedade. Enquanto lia estudos e recomendações clínicas, perguntava-me por que razão nunca tinha ouvido uma conversa semelhante entre amigos, familiares ou colegas de trabalho. Quantos homens vivem anos a fio convencidos de que perder músculo, ganhar gordura abdominal ou sentir uma quebra persistente de energia são apenas consequências inevitáveis da idade? Quantos escondem essas alterações por receio de parecerem frágeis ou porque simplesmente não encontram linguagem para falar delas? Talvez a maior consequência deste silêncio não seja médica. Talvez seja cultural.
Durante décadas confundimos resistência com invulnerabilidade. Crescemos a ouvir que um homem “aguenta”, “não se queixa” e “segue em frente”. Essas frases moldaram gerações inteiras e, em muitos momentos, ajudaram-nos a enfrentar dificuldades reais. Mas também tiveram um efeito secundário de que raramente falamos, ensinaram-nos a desconfiar do próprio corpo. Como se reconhecer uma limitação fosse uma forma de desistência. Como se admitir que alguma coisa mudou diminuísse aquilo que somos. Hoje olho para trás e percebo que essa ideia nunca fez sentido. A verdadeira força não está em ignorar os sinais. Está em compreendê-los antes que seja demasiado tarde.
Há alguns anos ocorreu-me, quase como uma provocação íntima, que a palavra andropausa não traduzia aquilo que eu sentia. “Pausa” sugere um intervalo, uma desaceleração, um tempo de espera. A minha experiência foi exatamente a oposta. Tive, muitas vezes, a sensação de que alguém tinha carregado num botão invisível e acelerado o relógio do meu corpo sem me pedir autorização. Continuei a sentir-me o mesmo homem, com os mesmos projetos, a mesma curiosidade e a mesma vontade de trabalhar. No entanto, o corpo parecia viver um calendário diferente. Durante algum tempo, chamei-lhe, em tom de brincadeira, “Andro Fast Forward”. Nunca pensei nessa expressão como um conceito médico. Era apenas uma forma de dar nome à estranha sensação de ver o tempo correr mais depressa do que a consciência consegue acompanhar.
Hoje sorrio quando me lembro dessa expressão. Não porque tenha deixado de fazer sentido para mim, mas porque percebi que o problema nunca foi encontrar um nome mais feliz. O verdadeiro desafio é muito mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais difícil, começar a falar. Falar entre pais e filhos. Entre amigos. Entre médicos e doentes. Entre homens que descobrem, talvez pela primeira vez, que envelhecer não é um sinal de derrota nem uma perda de identidade. É apenas mais uma etapa da vida. E, como todas as etapas importantes, torna-se menos assustadora quando alguém nos explica o caminho antes de lá chegarmos.
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