Na sequência da fraude eleitoral em 2020, das manifestações de protesto dos bielorrussos e da pressão política da União Europeia, Alexander Lukashenko anunciou, a 7 de julho de 2021, que a Europa seria invadida de “droga e de migrantes”. O governo bielorrusso organizou e patrocinou a vinda de milhares pessoas do Médio Oriente, organizando voos aéreos e prometendo entrada fácil na União Europeia. Conduzidas à fronteira com a Letónia, a Lituânia e a Polónia, foram-lhes entregues machados e alicates para que cortassem as redes, e fisicamente ameaçadas se não avançassem.
As redes sociais foram essenciais na montagem do plano. O KGB bielorrusso criou dezenas de contas falsas de “jornalistas” e “ativistas de direitos humanos” no Instagram e no Facebook. As contas eram utilizadas para disseminar informação falsa e acusar os guardas fronteiriços polacos de violência.
No Instagram, no Telegram e no Facebook, agências turísticas controladas pelos bielorrussos promoviam pacotes de viagens e garantiam a entrada na União Europeia. Publicavam também instruções precisas de como chegar a determinados pontos da fronteira e incentivavam a entradas em grupo para maior sucesso.
O que separa Minsk de Ceuta? A escala. Se em Minsk foram atraídas cerca de quatro mil pessoas, em Ceuta terão atravessado a fronteira mais de 60 mil. E o custo logístico na montagem da operação também foi diferente. Em Ceuta não foi necessário transportar ninguém de avião até à Europa. Toda a operação foi exclusivamente montada usando redes sociais. Rumores – posts – espalharam desinformação sobre uma decisão judicial e prometeram salvos-condutos. Em poucas semanas, houve mais de 11 milhões de visualizações do boato “a fronteira de Ceuta está aberta”. No Facebook foram postadas mais de 1100 publicações em árabe distorcendo o conteúdo da decisão do Supremo Tribunal Espanhol. A Inteligência Artificial foi utilizada para criar imagens falsas, mas realistas, incluindo a de um polícia marroquino a atirar uma pedra a um migrante. Grupos russos espalharam a narrativa de que Espanha estava a ser “invadida” e em poucas horas estes posts tiveram mais de 500 mil visualizações, promovendo a narrativa, dos partidos de extrema-direita, de que a Europa está vulnerável a fluxos migratórios e destabilizando as relações entre governos Europeus.
Quando se justapõem a data em que telemóveis e redes sociais se tornaram omnipresentes (por volta de 2015) e a progressão dos partidos de extrema-direita na Europa, a tendência é inegável. Durante anos, partidos extremistas com uma votação entre os 4% e os 5% aumentaram de forma progressiva o número de simpatizantes, e hoje são uma força política que se aproxima dos 20%, um pouco por toda a Europa. Igualmente, quando o mesmo exercício é feito utilizando o índex de democracia que todos os anos a revista The Economist elabora, verifica-se uma degradação da qualidade das instituições democráticas nos países europeus pós-2015. As redes sociais são o principal instrumento de destruição das instituições democráticas, e os extremistas utilizam-nas com grande sucesso na manipulação dos nossos sentimentos mais básicos: o medo, a fúria, o nojo. O resultado visível da crise de Minsk foi a construção de um muro de cinco metros, em aço, de 186 km, entre a Polónia e a Bielorrússia. Um custo de 350 milhões de euros (mais 72 milhões de euros em vigilância eletrónica utilizando câmaras térmicas e de visão noturna). Não é um sucesso. Para os inimigos de uma Europa democrática, basta selecionar um outro ponto da fronteira e orquestrar, sem grande custo e com meia dúzia de computadores portáteis, uma nova crise humanitária e política. Se não aceitarmos que a legislação em vigor é insuficiente para controlar a utilização terrorista das redes sociais, que sem responsabilização penal dos donos das plataformas novas crises irão suceder-se a uma velocidade estonteante, em breve estaremos condenados a ser liderados não por quem defende a Europa, mas por aqueles que são a antítese dos seus valores.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.