Inventário do eclipse
Inventário do Eclipse: Ring-Wrong, Ring-Wrong, pela escritora Gabriela Relvas
O telefone era o fio condutor para o meu passado, o telefone levava-me ao encontro de quem, por necessidade ou descuido, eclipsara do meu presente. Eclipse, para mim, é verbo
Inventário do Eclipse: O desenho esfumado, pela escritora Lénia Rufino
É como se a sua memória fosse um desenho que foi perdendo os contornos com o passar dos anos e estivesse cada vez mais esbatido, as sombras cada vez menos sombras e mais mescladas com o resto
Inventário do Eclipse: A Festa, pela escritora Filipa Fonseca Silva
Ali, também ninguém olhava para o céu. Quase todos estavam de olhos pregados nos telemóveis, mais preocupados com likes do que com o algo que só se repetiria dali a 114 anos
Inventário do Eclipse: Grande Umbra, pela escritora Cristina Drios
Quando perceberam a irreversibilidade do eclipse, os humanos quiseram fugir. No entanto, não havia para onde escapar da escuridão que se abateu sobre todo o planeta
Inventário do Eclipse: Passos apressados, pela escritora Maria Bravo
As pessoas acham que quem vive na rua passa o dia a pedir. – Fez uma pausa. – Não é verdade. Passamos o dia a olhar. Sabemos quem vai sempre atrasado, quem canta baixinho quando pensa que ninguém o ouve
Inventário do Eclipse: Eunice há-de, pela escritora Rita Cruz
Eunice há-de encher uma página de sois e olhar para o peito com súbito orgulho, antes de tropeçar na responsabilidade
Inventário do Eclipse. Eclipse de consciências, pela escritora Gabriela Ruivo
Aqueles que, de olho sempre atento e dedo em riste, se apressam a gritar, indignados: Mas esta ideia é minha! Olha o que lhe fizeste... Eclipsou-se! Está horrível!
Inventário do Eclipse: Uma breve explicação da tristeza, pela escritora Catarina Rodrigues
Há sempre uma meia-verdade em todas as histórias que se contam. E essas histórias tornaram-se lendas na aldeia. Ali, falava-see sentia-se tudo com muito fatalismo. Coisa bem portuguesa
Inventário do Eclipse: Identidade suspensa, pela escritora Filipa Mota Nesbitt
A vida é um romance com tendência dramática que se escreve diariamente, se revê, se corrige, se reescreve, e não termina até que esteja pronto. E só termina no fim. No fim da nossa vida
Inventário do Eclipse: Pequenos eclipses, pela escritora Rita da Nova
Os pensamentos são assim mesmo, pequenos eclipses. Tapam-se uns aos outros, sobrepõem-se. Atropelam-se, por vezes
Inventário do Eclipse: O perfume, pela escritora Valentina Silva Ferreira
Talvez os casamentos acabassem assim, pensou certa madrugada. Não em discussões violentas nem em traições cinematográficas, mas na lenta substituição da presença pelo hábito
Inventário do eclipse | Grilos, diabos e dois eclipses, pela escritora Mafalda Santos
O Roberto e o Zé, filhos de uma das famílias mais pobres da aldeia e autoproclamados diabretes oficiais do lugarejo, não tinham sido convidados a fazer parte da comitiva. Eram demasiado novos e arruaceiros, sujos, malcriados e imprevisíveis
Inventário do Eclipse: Coisa de artista, pela escritora Ana Portocarrero
Pintar o monstro era a sua maior provocação. Pousou o cavalete em frente à Torre do Relógio, agora estragado, ouvindo o tiquetaque surdo que ainda ecoava na sua memória