Escrevo este artigo de férias, junto ao mar. E talvez seja precisamente por isso que esta reflexão me surgiu.
Há qualquer coisa que muda em nós quando estamos verdadeiramente de férias. Não apenas quando deixamos de trabalhar, mas quando passam dias suficientes para começarmos a perder a noção do dia da semana, deixarmos de consultar o relógio constantemente e percebermos que já não estamos mentalmente a responder à vida que ficou para trás.
O corpo abranda. A cabeça também.
E, algures nesse processo, parece surgir uma versão diferente de nós próprios.
Dormimos mais. Caminhamos sem ser para chegar a algum lugar. Comemos com tempo. Conversamos durante mais tempo. Estamos mais disponíveis para quem está connosco. Reparamos no pôr do sol, lemos algumas páginas de um livro, mergulhamos no mar ou simplesmente ficamos sem fazer nada — essa atividade quase revolucionária numa sociedade que transformou a produtividade numa medida de valor pessoal.
Foi precisamente aqui, nestes dias, que me ocorreu uma pergunta: quanto tempo precisamos realmente para desligar?
Em Portugal, o Código do Trabalho determina que, quando as férias são repartidas por acordo, deve existir pelo menos um período de dez dias úteis consecutivos. Na prática, para a maioria dos trabalhadores, falamos de duas semanas.
Talvez valha a pena refletir sobre a sabedoria que existe por detrás desta continuidade.
Há cada vez mais pessoas que preferem repartir as férias ao longo do ano. Uma semana aqui, alguns dias ali, fins de semana prolongados. E há vantagens evidentes nisso. Criamos vários momentos de pausa e distribuímos oportunidades de descanso ao longo dos meses.
Mas uma pausa não é necessariamente sinónimo de recuperação profunda.
Quem já iniciou férias depois de um período particularmente exigente provavelmente reconhecerá esta sensação: nos primeiros dias, o corpo está de férias, mas a cabeça ainda não chegou.
Continuamos a acordar à hora habitual. Pensamos no trabalho. Verificamos o telemóvel. Lembramo-nos de alguma coisa que ficou por resolver. Sentimos quase uma necessidade de aproveitar cada minuto das férias, como se até o descanso precisasse de ser produtivo.
A transição não acontece quando fechamos o computador. Precisa de tempo.
A investigação sobre férias e recuperação psicológica mostra que o afastamento das exigências profissionais pode melhorar o bem-estar, reduzir a perceção de stress e diminuir a exaustão. Sabemos também que a capacidade de nos desligarmos psicologicamente do trabalho é uma dimensão importante da recuperação.
Não existe, contudo, um número mágico de dias a partir do qual todos desligamos. Somos diferentes, temos profissões diferentes, níveis de stress diferentes e circunstâncias familiares diferentes. Dizer que o organismo necessita exatamente de duas semanas seria simplificar demasiado aquilo que a ciência nos mostra.
Mas existe uma ideia que merece atenção: recuperar exige tempo suficiente para deixarmos de responder aos estímulos habituais e entrarmos verdadeiramente noutro ritmo.
E talvez seja essa a diferença entre parar e desligar.
Uma semana pode proporcionar descanso, prazer e mudança de cenário. Mas, para muitas pessoas, quando finalmente começam a sentir que abrandaram verdadeiramente, já estão a pensar no regresso.
Com períodos mais prolongados, acontece algo diferente. Depois dos primeiros dias de transição, começam a surgir outras coisas. Dormimos até acordar sem despertador. O sistema nervoso deixa de receber constantemente os mesmos sinais de urgência. A agenda perde protagonismo. As conversas tornam-se mais longas. A relação com o tempo muda. E é precisamente essa mudança que me interessa quando penso em longevidade.
Porque não somos apenas aquilo que fazemos. Somos também aquilo que conseguimos ser quando deixamos, durante algum tempo, de responder permanentemente às exigências externas.
Talvez por isso gostemos tanto da pessoa que somos de férias. Estamos mais leves. Mais pacientes. Mais disponíveis. Rimos com maior facilidade. Temos mais tempo para os nossos filhos, companheiros, amigos — e para nós próprios.
E então surge uma questão que considero ainda mais importante do que a duração das férias: porque é que algumas destas características parecem precisar de férias para aparecer?
Talvez as férias não criem uma versão diferente de nós. Talvez apenas devolvam espaço a uma versão que a rotina foi progressivamente silenciando. É aqui que as férias deixam de ser apenas descanso e passam a ser também uma oportunidade de autoconhecimento. Podemos observar-nos. Como dormimos quando não temos despertador? Como nos sentimos quando não estamos permanentemente disponíveis? De que pessoas procuramos a companhia? Quanto caminhamos quando temos tempo? Do que sentimos falta? E, talvez ainda mais revelador: do que não sentimos falta nenhuma?
Estas respostas dizem muito sobre a vida que estamos a construir.
A longevidade não se faz apenas de alimentação, exercício físico, sono ou prevenção da doença. Faz-se também da capacidade de alternar exigência com recuperação. Um organismo permanentemente ativado, sem períodos adequados de descanso, paga inevitavelmente um preço físico e emocional.
Por isso, as férias não deveriam ser encaradas como um luxo ou uma recompensa por termos trabalhado demasiado. São uma necessidade de recuperação.
Mas também não deveriam servir apenas para reparar os danos provocados pelo resto do ano.
Talvez o verdadeiro desafio comece precisamente quando regressamos. Não podemos levar a praia connosco. Nem viver permanentemente sem horários ou responsabilidades. Mas podemos levar algumas coisas. Podemos proteger melhor o sono. Podemos caminhar sem que seja necessário chamar-lhe treino. Podemos criar refeições onde existe tempo para conversar. Podemos deixar alguns espaços vazios na agenda. Podemos passar mais tempo ao ar livre. Podemos estar com quem gostamos sem olhar constantemente para o telemóvel. Podemos aprender que descansar não é perder tempo.
E talvez possamos deixar de esperar onze meses para voltar a encontrar aquela versão de nós próprios.
Se a longevidade se constrói todos os dias, talvez estas férias deixem duas perguntas: quem se torna quando tem finalmente tempo para viver com menos pressa? E, quando regressar, quanto dessa pessoa está disposto a levar consigo?
Porque talvez umas boas férias não sejam apenas aquelas das quais regressamos descansados.
Talvez sejam aquelas das quais regressamos diferentes — não porque encontrámos uma nova vida, mas porque nos lembrámos de como queremos viver a que já temos.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.