Decidida a descobrir o valor monetário da existência, a jornalista britânica Jenny Kleeman mergulhou no mundo dos assassinos a soldo, da indústria de armamento, das seguradoras, do futuro da gestação artificial e do altruísmo eficaz. O livro O Preço da Vida acaba de ser publicado em Portugal, pela Livros Zigurate. Num mundo em que as relações amorosas com parceiros criados por Inteligência Artificial são cada vez mais comuns, a autora defende que a evolução tecnológica está a fazer com que cada vez seja mais difícil sermos humanos. E há quem defenda que no meio de um incêndio, por imperativos morais, devemos salvar um quadro do Picasso em vez de uma criança.
É errado dizer que uma vida não tem preço?
Se dissermos que estamos dispostos a gastar qualquer quantia para salvar uma única vida, muitas outras pessoas vão sofrer as consequências. Levando esse raciocínio ao limite, poderíamos gastar todos os recursos do mundo para salvar uma pessoa, deixando outras a morrer à fome ou sem acesso a medicamentos. Por isso, temos sempre de estabelecer um limite. A questão determinante é onde traçamos a linha, porque é isso que determina quanto estamos dispostos a gastar para salvar uma vida.

Uma investigação apurada de Jenny Kleeman, autora de Robôs Sexuais e Carne Vegana, sobre o quanto a sociedade valoriza ou não a vida humana. Tudo tem um preço?
Edição Livros Zigurate
Isso leva-nos à Covid-19. Foi esse o ponto de partida do livro?
Na verdade, o livro começou antes, quando estava a investigar o movimento do altruísmo eficaz e entrevistei pessoas de fundações responsáveis por gerir e distribuir parte das maiores fortunas do mundo. Na altura, achei-as, de certa forma, hilariantes, e encarei-as com o meu cinismo de jornalista. Aparentavam ter tempo e dinheiro em excesso e faziam contas que me pareciam frias e até chocantes. Visitei uma dessas fundações em novembro de 2019. Havia duas áreas que absorviam grandes quantidades de financiamento: os riscos de uma Inteligência Artificial maliciosa e as pandemias geradas em laboratório. Achei tudo aquilo um pouco ridículo, quase saído de um filme distópico de ficção científica. Comecei a escrever sobre o tema e, de repente, surgiu a Covid-19.
E isso mudou a sua perspetiva?
Completamente. Pensei que talvez aquelas pessoas tivessem razão e que devêssemos levar aquelas preocupações mais a sério. De repente, toda a gente discutia análises de custo-benefício: é legítimo que as crianças percam anos de escola para proteger os mais velhos? Até que ponto a economia deve sofrer para salvar vidas? Esses cálculos morais, que antes estavam confinados a círculos especializados, tornaram-se públicos. Ao mesmo tempo, muitos políticos repetiam que a vida não tem preço. Isso levou-me a perguntar: será mesmo assim? O que estamos efetivamente a dizer quando afirmamos que a vida não tem preço? Será que essa ideia pode, por vezes, fazer mais mal do que bem? Comecei a escrever o livro convencida de que atribuir preços à vida humana era algo perverso, típico de quem quer transformar a experiência humana num jogo de números. Acabei por concluir que, apesar de todos os perigos, essa pode ser uma ferramenta útil.
No livro escreve: “Até que ponto deve a economia sofrer para salvar vidas? É legítimo exigir enormes sacrifícios a algumas pessoas para proteger outras? Há vidas mais valiosas do que outras?” Encontrou respostas para estas perguntas?
O que descobri foi que o preço da vida pode ser um instrumento extremamente útil. Serve para revelar injustiças e mostrar quando as políticas públicas não funcionam como gostaríamos. Mas não devemos apaixonar-nos pelos números. Os números não são a realidade. São apenas uma experiência mental, uma ferramenta de análise. O problema surge quando começamos a acreditar que representam valores humanos reais. Parte da motivação para escrever este livro veio da minha frustração como jornalista de imprensa. Via tudo ser reduzido a cliques, gostos e visualizações, como se o valor de alguma coisa pudesse ser condensado num único número. Hoje continuo a acreditar que a empatia e outras capacidades humanas são essenciais. Os números são úteis, mas são apenas uma ferramenta entre muitas.
No final do livro, escreve que a procura do preço da vida a mudou e que talvez isso represente um progresso moral. Em que sentido?
Hoje estou mais disposta a fazer perguntas que antes me pareciam repugnantes. Lembro-me de ouvir um debate, ligado ao altruísmo eficaz, sobre qual seria a pior altura para uma pessoa morrer. Seria pior morrer um recém-nascido? Ou uma mãe com cinco filhos? Onde deveríamos concentrar os recursos disponíveis? A conclusão era de que a morte de uma criança de 8 anos seria, em certos cálculos, mais grave, porque essa criança tem muitos anos produtivos pela frente. Na altura, achei aquela conversa profundamente perturbadora. Pensei que não queria sequer conhecer pessoas que raciocinavam daquela forma. Mas, mais tarde, quando entrevistei Peter Singer [filósofo utilitarista, considerado o avô da abordagem do altruísmo eficaz e autor do livro Libertação Animal] e outras figuras ligadas a estas correntes de pensamento, dei por mim a utilizar parte dessa linguagem analítica. Acabei por absorver esse enquadramento intelectual e passei a sentir-me mais confortável a discutir questões que inicialmente me chocavam.
Acabou de mencionar Peter Singer, que defende que ignorar um folheto de uma organização de caridade eficaz é o mesmo que ignorar uma criança que está a afogar-se, porque apoiar essas organizações significa salvar vidas. Como olha hoje para esta lógica de pensamento?
Trata-se de uma visão utilitarista segundo a qual todas as vidas têm o mesmo valor, independentemente do lugar ou do momento. A lógica é que devemos tirar a empatia da equação, porque as emoções são primitivas e irracionais. Se ignorarmos e não apoiarmos uma organização que produz o maior impacto possível com o nosso dinheiro, significa que estamos a agir de forma tão errada como alguém que passa ao lado de uma criança que está a afogar-se e não a ajuda. A ideia é de que existe algo de moralmente problemático em sermos mais tocados pela vítima que temos diante dos olhos do que por alguém distante que poderia beneficiar mais da nossa ajuda. O problema é que isso simplifica demasiado a realidade. Ajudar um toxicodependente que vive na rua é complexo. Financiar mosquiteiros para crianças em África é mais fácil de transformar num número.
E também é mais barato.
Sim. E produz uma métrica confortável: investi X e salvei Y vidas. Para determinadas mentalidades, isso é extremamente sedutor.
Salvaria o Picasso [no meio de um incêndio, entre salvar uma obra de Picasso ou uma criança, o filósofo Will MacAskill – um dos criadores do movimento altruísmo eficaz – salvaria o Picasso porque com o dinheiro da sua venda poderia salvar milhares de crianças]?
Não. A minha ideia de um bom ser humano é diferente. Sei que Will MacAskill consideraria a minha posição demasiado emocional e primitiva. Mas, para mim, fazer o bem não consiste apenas em maximizar o número de vidas salvas. Trata-se de construir um mundo onde valha a pena viver. Num mundo dominado pelo altruísmo eficaz, como justificaríamos o financiamento das artes, dos festivais literários, da música, ou de tudo aquilo que acrescenta beleza e significado à vida? Sermos humanos é também maravilharmo-nos com o facto de estarmos vivos. Provavelmente dir-me-iam que para mim é fácil dizer isto porque sou uma mulher britânica, branca e com uma vida confortável. Percebo a perspetiva, mas, ainda assim, continua a ser aquilo em que acredito.
Há seis anos, a ideia de alguém preferir uma relação virtual a uma relação física parecia-me estranha. Imaginava que os robots sexuais teriam necessariamente de ter um corpo e uma presença material. Hoje percebemos que nem sequer é preciso o robot
A procura do preço da vida levou-a também ao mundo dos seguros. Um estudo da seguradora Royal London, publicado em 2021, mostrou que, na Irlanda, o valor médio do seguro de vida era de 177 mil euros para as mulheres e de 291 mil euros para os homens. Reflexos de um mundo masculino?
Quando fazemos um seguro de vida, estamos a atribuir um valor económico à nossa própria existência. E as mulheres tendem a atribuir a si próprias um valor inferior. Em grande medida, isso acontece porque interrompem as carreiras para ter filhos e, por isso, auferem rendimentos mais baixos. A ironia é que muitas vezes são precisamente elas que desempenham um papel mais indispensável na vida familiar. No fundo, estes números mostram como interiorizamos determinadas mensagens sociais: a ideia de que valemos menos quando não estamos a produzir rendimento.
Um dos exemplos mais impactantes do livro é o das indemnizações pagas às famílias das vítimas do atentado da London Bridge em 2017.
Descobri essa história quase por acaso. Inicialmente queria escrever sobre duas irmãs que ficaram órfãs após o atentado no concerto de Ariana Grande, em Manchester, também em 2017. Os pais tinham ido buscá-las ao espetáculo e morreram no ataque. Descobri que a indemnização legal era de apenas 11 mil libras por cada progenitor. Parece-me um valor ridículo: por um lado, não é suficientemente baixo para se dizer que não houve compensação, mas, por outro, também não é suficientemente elevado para alterar a vida de alguém de forma significativa. Como não consegui entrevistar as duas irmãs, procurei outro caso. Acabei por analisar o atentado da London Bridge, que fez vítimas de várias nacionalidades. Foi então que encontrei uma discrepância extraordinária. Duas das vítimas morreram atropeladas pela carrinha utilizada pelos terroristas. Essas famílias puderam processar a seguradora da empresa que alugou o veículo, a Hertz, e receberam cerca de 1,5 milhões de libras cada. As restantes famílias [mortas à facada depois de os terroristas abandonarem a carrinha], receberam apenas as indemnizações previstas pelos respetivos Estados. A família da vítima britânica recebeu cerca de 11 mil libras. A da vítima espanhola recebeu aproximadamente 250 mil euros. O sistema francês pareceu-me o mais interessante porque a compensação é calculada em função da relação da pessoa com a vítima. Nesse caso, não se atribui um preço à vida; atribui-se um valor ao luto. Estas discrepâncias são brutalmente injustas, mas subsistem porque raramente debatemos estes assuntos. Não fiz as contas exatas, mas é evidente que morrer atropelado pela carrinha de um terrorista não pode valer 150 vezes mais do que morrer esfaqueado pelo mesmo terrorista, no mesmo ataque.
Também entrevistou assassinos profissionais, como, por exemplo, John Alite, um ex-membro da máfia de origem albanesa. Que tipo de homem encontrou?
Foi muito charmoso e simpático. Fiquei admirada com o quanto gostei dele. Levou-me a um restaurante de luxo em Nova Iorque, onde era tratado como uma celebridade. No final, insistiu para que eu não regressasse sozinha de metro e até deu instruções ao motorista do Uber para tomar conta de mim. Tive de me lembrar constantemente de que estava perante alguém responsável por vários homicídios brutais. Creio que sente remorsos genuínos. É alguém que cumpriu uma pena de prisão e que se sente traído pela máfia. Sente que foi leal a uma organização que não lhe retribuiu essa lealdade. Hoje dedica parte do seu tempo a falar com jovens e parece encontrar algum sentido nessa atividade.
Na contratação de um assassino profissional, o preço da vida também depende da oferta e da procura.
Depende da procura, da oferta e do grau de desespero de quem pretende contratar o crime. É tudo bastante arbitrário. O mais perturbador é perceber que pode ser relativamente barato contratar um assassino profissional e constatar que há muita gente que procura esse tipo de serviço.
O valor da vida aumentou ao longo da História?
Diminuiu. O mais simples é olhar para o preço de um escravo. Hoje ainda existe escravatura moderna associada ao tráfico humano. Há relatos documentados de leilões de escravos na Líbia, onde uma pessoa pode ser vendida por cerca de 400 dólares. No Egito ou na Roma Antiga esse valor era muito mais alto. Nesse sentido, estritamente económico, as vidas são hoje mais baratas do que alguma vez foram.
Por outro lado – pelo menos, culturalmente e no Ocidente –, há a sensação de que hoje uma vida é mais importante do que era, por exemplo, na Idade Média?
Sim. Não encaramos a morte com a mesma resignação. Estamos menos dispostos a aceitá-la como uma inevitabilidade e, por isso, investimos muito mais recursos em salvar vidas. Contudo, quando observamos os casos mais extremos de exploração humana, percebemos que atualmente as vidas são mais baratas do que alguma vez foram.

No seu livro anterior, Robôs Sexuais e Carne Vegana, olha para a forma como, num futuro próximo, a evolução tecnológica poderá interferir nas relações sexuais, na geração de vida, na morte e na alimentação. Comecemos por uma questão mais ampla: a tecnologia está a desumanizar-nos?
A tecnologia promete melhorar a condição humana, mas muitas vezes retira-nos oportunidades de crescimento. Talvez o resultado seja semelhante… Por vezes, a tecnologia faz com que seja mais difícil sermos humanos.
A nossa geração olha para as décadas de 1980 e 1990 com uma profunda nostalgia. Desde então, as relações mudaram profundamente.
Sem dúvida. As pessoas encontram-se cada vez menos no mundo real, fazem menos sexo, têm menos contacto humano direto. Quando escrevi o livro, há seis anos, a ideia de alguém preferir uma relação virtual a uma relação física parecia-me estranha. Imaginava que os robots sexuais teriam necessariamente de ter um corpo e uma presença material. Hoje percebemos que nem sequer é preciso o robot.
Basta a Inteligência Artificial (IA).
Exatamente. E penso que a pandemia também contribuiu para isso. Habituámo-nos a relações mediadas por ecrãs. As taxas de natalidade estão a cair drasticamente e sinto que estamos a perder competências sociais de convivência uns com os outros. Nós, jornalistas, por causa do nosso trabalho, continuamos a falar com desconhecidos, a entrevistar gente, a participar em conversas presenciais. Há uma riqueza enorme nesse contacto direto, mas muitas pessoas já não o procuram.
Os jovens de hoje, que já estão a crescer neste mundo novo, no futuro também irão olhar para trás com nostalgia?
Todas as gerações são nostálgicas, mas talvez 2024 seja um ano-charneira. Haverá saudades de uma época em que ainda confiávamos numa fotografia como prova de alguma coisa. De um tempo em que existia vergonha em mentir na política. Estamos a assistir a mudanças profundas, a placas tectónicas que estão a mover-se. A verdade está a tornar-se apenas mais uma interpretação possível da realidade, e isso altera completamente o terreno em que vivemos.
A IA altera o jogo por completo.
Sem dúvida. E acredito que, no futuro, haverá uma enorme nostalgia por uma época anterior a tudo isto.
Pode a IA criar arte?
Pode criar má arte. A arte é algo que mexe com a condição humana e a IA não é humana. Pode simular emoções e criar a ilusão de profundidade, mas não acredito que produza arte no verdadeiro sentido da palavra. Isso não significa que não possa ser usada por artistas. Pode ser extremamente útil no processo criativo, mas não considero que seja capaz de fazer arte.
Talvez na literatura ainda não se sinta tanto, mas nas plataformas de distribuição musical já há muitas bandas e canções com milhões de ouvintes que são criadas por IA. Se não soubermos que se trata de IA e se essa música nos emocionar, será que não podemos estar a falar de arte?
A música atua sobre nós de uma forma que nem sempre compreendemos. É imediata, intuitiva, anterior à reflexão intelectual. Uma IA pode aprender a acionar determinados mecanismos psicológicos e emocionais. Pode descobrir quais os padrões que nos emocionam, tal como os algoritmos das redes sociais aprendem a captar a nossa atenção. Mas isso não é a mesma coisa que a expressão artística de um ser humano. Uma canção criada por uma pessoa estabelece uma ligação humana. Uma canção produzida por uma máquina está apenas a pressionar os botões certos.
Há cada vez mais pessoas que têm parceiros virtuais. A IA ou os robots sexuais – cada vez mais realistas e animados por Inteligência Artificial – podem servir para aliviar a solidão?
Pelo contrário. Creio que a agrava. Todos estes sistemas são concebidos para nos manter ligados à plataforma e afastados do mundo real. As relações humanas são difíceis. As pessoas podem estar maldispostas, discordar de nós ou não achar graça às nossas piadas. Mas é precisamente nesse atrito que crescemos. Evoluímos quando as coisas não acontecem exatamente como queremos. Os companheiros artificiais tornam tudo demasiado fácil e previsível. Para pessoas solitárias, isso pode ser particularmente prejudicial.
O mais perturbador é perceber que pode ser relativamente barato contratar um assassino profissionale constatar que há muita gente que procura esse tipo de serviço
Acresce ainda que muitos de nós retiramos prazer do facto de o nosso parceiro também sentir prazer.
Exatamente. Quando deixamos de pensar nas necessidades do outro e passamos a concentrar-nos apenas em nós próprios, entramos num território preocupante. Compreendo a solidão das pessoas. Mas a resposta para a solidão são relações humanas. Além disso, estes sistemas são profundamente bajuladores. Estão constantemente a dizer-nos como somos inteligentes, especiais e extraordinários.
Há quem defenda que os robots sexuais poderiam ajudar a reduzir fenómenos como os incels [celibatários involuntários].
A questão central é perceber se estas tecnologias satisfazem um desejo ou se o reforçam. Muitas sociedades proíbem bonecas infantis destinadas a pedófilos porque existe o receio de que alimentem o impulso em vez de o reduzir. Com os incels acontece algo semelhante. O problema não se resolve oferecendo substitutos artificiais. O problema resolve-se reintegrando essas pessoas na sociedade. Ao investigar este tema, encontrei comunidades online profundamente misóginas, compostas por homens que pareciam entusiasmados com a ideia de um mundo onde as mulheres deixassem de ser necessárias. Isso é possível imaginar através de companheiros artificiais e robots sexuais. Essa visão é profundamente deprimente.
Se no futuro tivermos robots capazes de fazer todas as tarefas domésticas e de satisfazer as nossas necessidades sexuais, estaremos a fabricar escravos?
Creio que algumas pessoas estão, de facto, a tentar fazê-lo. No fundo, trata-se de uma questão de poder. De que forma podemos exercer controlo absoluto sobre um ser não autónomo sem sentir culpa? Existe uma atração muito antiga por essa ideia. E compreendo porque é que a ideia seduz tanta gente: permite usufruir de controlo total sobre outro ser sem enfrentar os dilemas morais que normalmente associamos ao domínio sobre outras pessoas.
Nós já temos controlo absoluto sobre objetos, como um aspirador. Não será a mesma coisa?
Não exatamente. A diferença surge quando começamos a atribuir personalidade e características humanas a uma máquina. O perigo aparece quando nos habituamos a interagir com algo que fala connosco como uma pessoa, mas cuja única função é obedecer aos nossos desejos. Nesse contexto, a máquina torna-se uma espécie de servo perfeito.
E isso pode alterar a forma como tratamos os outros?
Sim. Se nos habituarmos a uma entidade que satisfaz todas as nossas exigências sem resistência nem necessidades próprias, podemos acabar por transferir essas expectativas para as relações humanas. É fácil imaginar alguém a pensar: “Porque é que o meu parceiro não faz aquilo que lhe pedi? O robot faria.” Esse tipo de comparação pode tornar-se bastante problemático.
A ectogénese – a gestação em úteros artificiais – será possível no futuro?
Ainda temos um grande desconhecimento sobre o desenvolvimento fetal. Sabemos bastante sobre o primeiro e o último trimestre, mas sabemos relativamente pouco sobre parte do segundo trimestre, em grande medida devido às limitações éticas e legais impostas à investigação com embriões. Recentemente entrevistei Cathy Tai, antiga mulher do cientista chinês He Jiankui, conhecido por ter criado os primeiros bebés geneticamente modificados. Ela defende a possibilidade de editar genes embrionários para prevenir doenças. O argumento é simples e poderoso: se podemos evitar sofrimento, porque não fazê-lo? Acredito que veremos uma liberalização progressiva destas tecnologias.
No futuro, pelo menos em teoria, os homens poderão produzir óvulos e as mulheres espermatozoides?
Em teoria, sim. E isso elimina a necessidade de doação de gâmetas. Mais do que isso: permitiria criar um número praticamente ilimitado de embriões e selecionar aqueles considerados geneticamente mais favoráveis. O resultado é uma separação progressiva entre reprodução, sexo e corpo humano. E acredito que essa transformação acabará por acontecer. Ter filhos é uma das experiências mais íntimas e fundamentais da vida humana. Quando estão em causa desejos tão profundos – constituir família, transmitir vida, evitar doenças –, as pessoas estão dispostas a investir quantias enormes. A pressão económica e social para o desenvolvimento destas tecnologias continuará a aumentar. À medida que o casamento entre pessoas do mesmo sexo se torna uma realidade comum, a procura de soluções alternativas à gestação tradicional tenderá a crescer. A barriga de substituição continua a ser um processo complexo e controverso. Por isso, a questão não é apenas saber se estas tecnologias serão possíveis. É perceber quando estarão disponíveis. Creio que acabarão por chegar.
Antes disso e num futuro muito mais próximo, existe o chamado biossaco, uma espécie de saco artificial para a gestação, que pode tornar viáveis fetos retirados do útero materno com poucas semanas. Isso levanta, por exemplo, questões sobre o aborto.
Sem dúvida. Atualmente, muitas legislações assentam no conceito de viabilidade fetal. A partir de determinado momento, considera-se que o feto poderia sobreviver fora do útero e isso influencia o enquadramento legal do aborto. Mas se um feto puder sobreviver muito mais cedo graças a tecnologias artificiais, teremos de repensar toda a base jurídica sobre a qual o direito ao aborto foi construído. No livro argumento que, atualmente, as mulheres possuem um direito que os homens não têm: a possibilidade de decidir não se tornarem mães. Um homem pode tornar-se pai contra a sua vontade. Uma mulher, em determinadas circunstâncias, pode evitar a maternidade. Estas tecnologias poderão alterar profundamente esse equilíbrio e abrir debates políticos e éticos extremamente difíceis.
Também transformam completamente o próprio conceito de nascimento.
Sim. Num cenário de ectogénese, talvez possamos falar em dois nascimentos. Se o desenvolvimento começar num laboratório, poderíamos dizer que existe um primeiro nascimento, quando o feto deixa o corpo materno, e um segundo, quando sai do ambiente artificial onde continuou a desenvolver-se.
A ectogénese também poderá passar a ser uma reivindicação feminista?
Muitas pessoas defendem precisamente isso. Existe a ideia de que a gravidez é, de certa forma, uma experiência biologicamente injusta. Eu própria tive gravidezes difíceis e compreendo esse argumento. Há quem sustente que os úteros artificiais criariam uma igualdade absoluta entre homens e mulheres no que toca à parentalidade. Se as sociedades fossem mais favoráveis à maternidade e ao apoio às mulheres que têm filhos, talvez este argumento perdesse força.
A tecnologia evolui muito mais depressa do que a nossa capacidade de discutir as suas consequências.
Sem dúvida. E isso é particularmente evidente quando falamos de legislação. As leis evoluem lentamente, enquanto a inovação tecnológica avança a uma velocidade enorme. Existe um desfasamento profundo entre aquilo que é tecnicamente possível e aquilo que está regulado. Isso expõe fragilidades nas nossas instituições e na forma como organizamos a sociedade.
Que idade têm os seus filhos?
O meu filho tem 12 anos e a minha filha tem 8.
Preocupa-a o mundo em que vão viver?
É impossível saber como será esse mundo. Mudou tanto nos últimos cinco anos que qualquer previsão é arriscada. Costumo dizer-lhes que devem ler livros. Acredito genuinamente que, na geração deles, conseguir ler um livro inteiro com atenção e concentração será uma espécie de superpoder. A tendência parece apontar para uma crescente dependência de sistemas de IA para resumir documentos, interpretar relatórios ou explicar textos complexos. E isso pode fazer-nos perder capacidades importantes. A capacidade de concentração, o pensamento crítico e a aptidão para conversar com outras pessoas continuarão a ser competências fundamentais. A resposta é sim, claro que me preocupo. Mas também sei que não vale a pena viver dominado pela ansiedade em relação ao futuro. Tudo o que podemos fazer é tentar educar os nossos filhos para serem boas pessoas e prepará-los da melhor forma possível para um mundo que ainda não conseguimos imaginar.