É consensual que a prática de exercício físico induz uma sobreativação dos diversos sistemas corporais que, quando realizada em contextos controlados, se traduz em benefícios evidentes para o organismo. Todavia, o sistema músculo‑esquelético, principal responsável pela edificação corporal e pela conversão de energia química em energia mecânica (movimento), está sujeito a um risco acrescido de lesões articulares sempre que qualquer forma de exercício físico é executada de modo inseguro ou ineficiente.
A inatividade física acarreta inúmeros riscos para a saúde, e a prática de corrida continua a ser uma das formas de exercício mais populares no combate ao sedentarismo. Estima‑se que cerca de 621 milhões de pessoas integrem a corrida nas suas rotinas semanais de treino (Rizzo, 2021). Só a aplicação Strava registou, em 2022, cerca de um milhão de novos utilizadores por mês.
Entre correr ou permanecer inativo, qual destas opções será realmente mais prejudicial para as articulações? Apesar da sua popularidade, a corrida é frequentemente alvo de críticas. Uma das objeções mais comuns, geralmente apresentada por quem não aprecia esta prática, é a ideia de que provoca desgaste articular. Mas será mesmo assim?
Quando se fala em desgaste articular, geralmente associado ao início da osteoartrite, refere‑se a um conjunto de alterações degenerativas que se tornam mais comuns com o envelhecimento. Estas alterações incluem perda de cartilagem e inflamação articular, podendo provocar dor durante a atividade física. À primeira vista, parece lógico assumir que repetir movimentos de impacto, como correr, agravaria esses processos. No entanto, a evidência científica parece apontar noutra direção.
Curiosamente, estudos comparativos entre esqueletos de indivíduos da era pré‑industrial e pós‑industrial revelaram uma maior prevalência de osteoartrite nos sujeitos mais sedentários, ou seja, aqueles que viveram na era pós‑industrial (Wallace et al., 2017). Embora se pudesse esperar que o uso excessivo das articulações acelerasse a sua degeneração, os dados sugerem que a inatividade física pode ser mais prejudicial.
Um estudo acompanhou, durante duas décadas, corredores de longa distância e não‑corredores com mais de 50 anos (Chakravarty, 2008). Os resultados não evidenciaram diferenças significativas na prevalência de osteoartrite observada em radiografias. Importa salientar que lesões traumáticas, como as que envolvem ligamentos ou o menisco, podem aumentar o risco de osteoartrite. Porém, estas são distintas dos impactos típicos da corrida recreativa.
A evidência científica tende a indicar que correr não desgasta as articulações. Pelo contrário, pode contribuir para prevenir o aparecimento da osteoartrite. O aumento da sua prevalência parece estar mais associado a um desajuste evolutivo, decorrente do facto de utilizarmos as articulações de forma distinta daquela para que foram originalmente concebidas. Estilos de vida sedentários, obesidade e inflamação crónica constituem os principais fatores responsáveis por este fenómeno (Berenbaum et al., 2018).
Para beneficiar da corrida e reduzir o risco de lesões, recomenda‑se a realização de treino específico do core, que melhora a técnica e a simetria do movimento. Muitas lesões estão associadas a desequilíbrios musculares não corrigidos, os quais comprometem a biomecânica da corrida (Ferreira, 2026).
A ideia de que correr desgasta as articulações parece não encontrar suporte na evidência científica atual. Pelo contrário, a prática de corrida pode ser uma poderosa aliada na prevenção da osteoartrite, desde que realizada de forma consciente e acompanhada de treino complementar adequado.
Bibliografia
Berenbaum F., Wallace I., Lieberman D., Felson D. (2018). Modern-day environmental factors in the pathogenesis of osteoarthritis. Nat Rev Rheumatol 14, 674–681 (2018). https://doi.org/10.1038/s41584-018-0073-x
Chakravarty E., Hubert H., Lingala V., Zatarain E., Fries J. (2008). Long Distance Running and Knee Osteoarthritis: A Prospective Study, American Journal of Preventive Medicine, Volume 35, Issue 2, Pages 133-138, ISSN 0749-3797, https://doi.org/10.1016/j.amepre.2008.03.032.
Ferreira, F. S. (2026, julho 31). Corrida mais eficiente e com menos lesões: opinião de um professor de Educação Física.
Rizzo, N. (2021). Fitness Trends 2021: New Trends in Fitness [Global Report]. RunRepeat. https://runrepeat.com/fitness-trends
Strava (2022). Year in Sport 2022. https://www.strava.com/yis-community-2022
Wallace I., Worthington S., Felson D., Jurmain R., Wren K., Maijanen H., Woods R., Lieberman D. (2017). Knee osteoarthritis has doubled in prevalence since the mid-20th century, Proc. Natl. Acad. Sci. U.S.A. 114 (35) 9332-9336, https://doi.org/10.1073/pnas.1703856114
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