“O que está em jogo é a nossa coesão nacional, os valores da República aos quais todos estamos profundamente ligados. O que está em jogo é a própria ideia que temos da Humanidade, dos seus direitos, da sua dignidade.” Na noite de 21 de abril de 2002, com a maioria dos franceses em choque com o “terramoto” que representou a passagem do candidato de extrema-direita Jean-Marie Le Pen à segunda volta das presidenciais, com apenas 16,86% dos votos, foi com estas palavras que Jacques Chirac escolheu iniciar o seu discurso perante os apoiantes e o resto do país. Chirac era, até àquele momento, um Presidente extremamente fragilizado, resignado a abandonar em breve o Palácio do Eliseu, após sete anos de vários escândalos e de muitas picardias, e sem hipóteses, segundo todas as sondagens, de conseguir resistir a um duelo com o então primeiro-ministro socialista Lionel Jospin.
A popularidade do Presidente era tão baixa que nem sequer conseguiu chegar aos 20% dos votos na primeira volta. No entanto, a dispersão dos eleitores entre 16 candidatos permitiu-lhe ser o mais votado para ir ao duelo final, frente a um homem que fazia ecoar os piores pesadelos da república colaboracionista de Vichy e que considerava o Holocausto um “percalço histórico”.
Naquela noite traumática para a esmagadora maioria dos eleitores franceses, Chirac, um conservador de centro-direita, com uma longa e prolífica carreira política, não demorou muito tempo a perceber em que situação se encontrava, ainda para mais no país da “liberdade, igualdade e fraternidade”. Assumiu, imediatamente, que apenas contava, como as urnas ditaram, com o apoio de um em cada cinco eleitores. Mas não se importou de ser considerado o “mal menor”, face a um oponente assumidamente racista e xenófobo, que queria acabar com a semana de trabalho de 35 horas, sair da União Europeia, o regresso do franco como moeda, a expulsão de imigrantes, recusar a nacionalidade aos filhos dos delinquentes estrangeiros e até, imagine-se, expulsar da seleção francesa de futebol (campeã do mundo em título) os jogadores que não soubessem cantar A Marselhesa. Chirac assumiu o papel que lhe competia: o de aglutinador de um povo e garante de um regime – mesmo sabendo que não era a primeira escolha para o desempenhar.
“Apelo a todos os franceses e francesas para que se unam na defesa dos direitos humanos, na garantia da coesão da nação, na afirmação da unidade da República, na restauração da autoridade do Estado”, foi o repto lançado por Jacques Chirac naquela noite, iniciando uma caminhada que iria culminar, duas semanas depois, com a sua eleição, com mais de 80% dos votos dos franceses.
Esta não foi, no entanto, uma vitória solitária de Jacques Chirac. Ela só foi possível porque, de facto, perante a possibilidade, mesmo vaga, de poder existir um Presidente antidemocrático e contrário aos valores da República, todos os outros dirigentes partidários, de todos os quadrantes, apelaram ao voto no único homem que podia derrotar Le Pen. Sem tibiezas, nem cálculos baseados em táticas de curto prazo ou de sobrevivência política. E, dessa forma, permitiram que, de facto, Jean-Marie Le Pen sofresse uma “tareia” histórica, com apenas 17,79% dos votos, um resultado muito semelhante ao do primeiro turno. Essa derrota monumental acabou, aliás, por ditar a sua morte política: cinco anos depois, ficou em 4º lugar, com apenas 10% dos votos e, na eleição seguinte, já nem se apresentou às urnas, substituído pela filha Marine, que também não conseguiu chegar à segunda volta (em que o socialista François Hollande roubou a Presidência a Nicolas Sarkozy).
Passou, entretanto, quase um quarto de século e o mundo, como sabemos, está diferente. Mas também nos dá, continuamente, novas lições sobre os perigos e os riscos de ter, ao comando de um país, alguém que despreza os valores democráticos, a tradição humanista, a justiça social e a coesão nacional. A política deve ser construída nos valores e não na tática do curto prazo. Quem não perceber isso acabará, mais tarde, por perder o jogo que não quis disputar, mas para o qual teve a oportunidade de ser convocado e ajudar a ganhar – com goleada.