Há um ano, faltou a luz e, de repente, apareceu tudo o resto.
As conversas que estavam adiadas. O vizinho que afinal conhecíamos só de vista. O jantar sem televisão ligada. O silêncio estranho de uma casa sem notificações. A sensação quase desconfortável de não haver nada para distrair.
Durante algumas horas, fomos obrigados a parar. Curiosamente, foi nesse parar que muita gente sentiu uma proximidade que já não sabia como lhe chamar.
Dissemos que o apagão nos aproximou. Mas talvez isso não seja totalmente verdade.
Não foi o apagão não nos aproximou. Foi o que fizemos com ele.
Foi a porta que se abriu para perguntar se estava tudo bem. Foi a conversa que finalmente aconteceu. Foi o tempo que apareceu quando o ruído desapareceu.
Aqui entra uma verdade pouco romântica: nós não estamos assim tão sem tempo. Estamos, muitas vezes, demasiado distraídos para aquilo que realmente importa.
Quantas vezes dizemos que não conseguimos estar mais com quem gostamos, mas passamos horas em piloto automático fazer scroll no telemóvel, a saltar entre tarefas, ecrãs e urgências que amanhã já nem nos lembramos?
É certo que o nosso cérebro se habituou à recompensa imediata: a notificação, a resposta rápida, o estímulo constante. A dopamina gosta de novidade, de rapidez, de movimento. Estar parado exige mais esforço do que parece.
Talvez por isso o apagão tenha sido tão desconcertante, e não foi apenas pela falta de eletricidade. Foi sobretudo pela ausência de fuga. Sem distrações, sobrou o essencial
Um ano depois, tudo voltou ao normal. Demasiado normal. Voltámos a dizer que não temos tempo. Voltámos a adiar cafés, conversas e visitas. Voltámos a precisar de circunstâncias extraordinárias para fazer aquilo que, no fundo, sabemos ser importante.
Talvez essa seja a parte mais incómoda: às vezes, não é a rotina que nos afasta. Somos nós que a usamos como desculpa. É mais fácil culpar o ritmo do que admitir que também escolhemos onde colocamos a atenção.
Não precisamos de outro apagão para desligar. Precisamos, talvez, de mais honestidade. De reconhecer que proximidade não nasce da falta de luz, mas da decisão de estar. De ouvir. De interromper o circuito automático.
Hoje, podemos escolher fazer o mesmo. Sem desculpas.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.