A confiança é a base para quase tudo na nossa existência, especialmente na interação com os outros, na vida em família ou na sociedade. E é fundamental para o jornalismo e para as empresas de comunicação social, já que constitui o elo principal com a audiência, seja ela composta por leitores, ouvintes, telespectadores ‒ ou com eles em todos esses estados em simultâneo, como agora acontece nas plataformas digitais. A confiança, como sabemos por experiência de vida, fortalece-se ao longo dos tempos, alimenta-se de pequenos gestos ou de provas extremas, mas não é infinita: pode ser quebrada, de forma repentina e permanente, por causa de uma única ação ou de um comportamento inesperado, mesmo que involuntário.
Durante os anos em que, não há muito tempo, fui convidado para dar a primeira aula de uma pós-graduação em Jornalismo, a primeira coisa que fazia quando chegava à sala era escrever a palavra “confiança” no quadro. Tinha por minha missão explicar àquele grupo de jovens alunos como funcionava e se organizava a redação de um órgão de comunicação social, e sempre senti que, antes de apresentar gráficos ou imagens com fluxos noticiosos e hierarquias de comando, o mais importante era sublinhar-lhes a relevância da confiança que é preciso existir entre todos. E como essa mesma confiança constitui, depois, o capital mais precioso para um título de informação, tanto no contacto com as fontes como na forma como apresenta as informações que recolhe, com critério e rigor, ao público.
Ao longo das suas mais de três décadas de história, existiu sempre um enorme cuidado na redação da VISÃO em procurar estreitar e elevar os laços de confiança com os seus leitores. Seguindo aquilo em que acreditamos: informar com rigor, respeitar os princípios deontológicos do jornalismo, afrontar com coragem e independência todos os poderes, nunca vacilar perante a verdade dos factos e o respeito pelas regras do contraditório, olhar o mundo sem preconceitos e soltos de quaisquer amarras ideológicas.
Com esses princípios, criou-se em redor da VISÃO uma comunidade de leitores, exigente e resiliente, que muito nos orgulha: os milhares de assinantes, alguns deles com mais de 20 anos de “casa”, que sempre estiveram connosco e que, persistentemente, nos interpelam e criticam quando consideram que nos afastámos do nosso rumo, mas que, continuamente, nos incentivam a melhorar e, acima de tudo, a não desistir. Milhares destes leitores são também assinantes das outras revistas produzidas nesta redação e que têm contribuído para a afirmação da VISÃO como uma marca de confiança e de qualidade: a VISÃO História, a VISÃO Saúde, a VISÃO Biografia e a VISÃO Júnior.
Como a confiança se constrói numa relação de verdade com os leitores, e porque é agora pública a difícil situação financeira da empresa proprietária da VISÃO, é justo lembrar que os nossos assinantes foram as primeiras vítimas desta crise na Trust in News. Há uns meses, para desespero da redação da VISÃO, deixaram de receber as revistas em papel, quando a empresa se viu incapaz de pagar o crescente preço dos portes de correio das publicações (grátis em diversos países europeus…) e decidiu uma transição acelerada para o formato digital. Se a maioria dos assinantes, habituados a uma relação longa e semanal com a revista, até aceitou essa troca, a verdade é que muitos sentiram essa decisão como uma quebra de confiança – que precisa, urgentemente, de ser restabelecida e, se possível, fortalecida.
Da nossa parte, o mais importante é sublinhar que, tanto nos bons como nos maus momentos, a redação da VISÃO não vacila nos seus princípios, não baixa os braços e permanece empenhada em continuar a produzir o jornalismo rigoroso e de qualidade que é apreciado – e comprado, a preço justo – por milhares de pessoas. É isso que queremos continuar a fazer. Com a confiança dos leitores.
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