Percebe-se a tentação de procurar ler nos resultados das recentes eleições espanholas algumas lições para o futuro da situação política portuguesa. Afinal de contas, dos dois lados da fronteira, os principais partidos estão divididos pelas mesmas famílias políticas, há uma história democrática iniciada em simultâneo e, naturalmente, uma proximidade linguística e geográfica que quase nos obriga a estabelecer relações e a encontrar semelhanças – mesmo quando não há substância que sustente essa aparência. Na verdade, apesar das ilusórias parecenças, a realidade espanhola está muito marcada por dois fatores sem paralelo com o que acontece em Portugal: a memória de uma guerra civil que deixou muitas cicatrizes, e até algumas feridas por sarar, e um pulsar autonómico que, nomeadamente no País Basco e na Catalunha, é suficiente para baralhar todos os prognósticos de qualquer entendimento político na formação de um governo de coligação.
Há, no entanto, algo que nos aproxima e que começa a tornar-se quase universal, sempre que há eleições: a surpresa com os resultados finais, expressados nas urnas, que contrariam as narrativas instaladas nos últimos dias de campanha eleitoral. Sucedeu isso, agora, em Espanha – onde, depois das eleições regionais de maio, o cenário de uma maioria absoluta do bloco de direita (PP+Vox) era visto, de forma quase unânime, como o mais provável – como já tinha ocorrido, em janeiro de 2022, em Portugal, quando o PS alcançou a maioria absoluta, apesar do “empate técnico” com o PSD anunciado pelas sondagens.