Gabor Maté nasceu na Budapeste de 1944, em janeiro, dois meses antes de os nazis entrarem na Hungria naquela que ficou conhecida como a Operação Margarethe. Filho de judeus, os seus avós maternos morreram em Auschwitz, o seu pai foi levado para trabalhos forçados e a sua mãe ficou mais de um ano sem saber do marido. No meio do caos da guerra e do pânico pela sobrevivência, a mãe entregou-o ao cuidado de estranhos quando ele tinha apenas 1 ano. Era para lhe salvar a vida, mas um bebé de 1 ano não entende este contexto. Quando voltou a reunir-se com a sua mãe, ele não conseguiu olhá-la nos olhos durante várias semanas.
Hoje com 82 anos, Gabor Maté é um dos médicos mais conhecidos a nível mundial, especialista em adição, trauma e desenvolvimento infantil. A ferida do abandono acompanhou-o a vida toda, por muito que a razão de um adulto tenha vindo a justificar o que a criança era incapaz de entender. Os chamados mecanismos de defesa psicológicos, que constituem a forma como o nosso cérebro lida com o trauma, são maneiras de nos adaptamos a um ambiente inseguro e protegem-nos de uma dor que não conseguimos processar. Mais tarde, tornam-se pesados demais e emocionalmente desadequados, ora boicotando as nossas relações, ora causando doenças e transtornos mentais.

Penguin Livros, €19,76
Este livro de Gabor Maté é das obras mais lidas sobre o PHDA (perturbação de hiperatividade e déficit de atenção), concentrando-se naquilo que podemos controlar: o meio ambiente em que o cérebro infantil se desenvolve. Para o médico, também ele diagnosticado com a perturbação, ambientes de stresse e conflito, povoados por relações tensas, são gatilhos para levar a criança a “desligar” o cérebro, como forma de se proteger. Um mecanismo de defesa que irá causar sofrimento mais tarde.
Este é o ponto de partida para uma conversa que começou com o PHDA (perturbação de hiperatividade e déficit de atenção) e acabou na possibilidade de cura numa sociedade que esmaga as “necessidades emocionais humanas mais básicas”. Gabor Maté fala dos episódios da sua vida, mas garante: não é preciso estarmos perante um acontecimento extremo, como o que lhe sucedeu na infância, para adoecermos. O stresse da vida moderna é ele próprio um gatilho poderoso.
Autor best-seller, traduzido em 34 línguas, com obras como O Mito do Normal, No Reino dos Fantasmas Famintos, Quando o Corpo Diz Não ou Mentes Dispersas, Gabor Maté emigrou para o Canadá em 1956 e lá se formou, especializando-se em Medicina Familiar. É uma “pop star” do wellness e do desenvolvimento pessoal, com a sua dose de polémica, por vezes acusado de minimizar doenças graves, como o cancro ou a esclerose múltipla, atribuindo-lhes uma vertente ligada à dor psicológica.
Por outro lado, é também graças a ele que se olha para certas condições de outra forma, mais humana e compassiva, como no caso das adições. Eis o seu mantra: “Não perguntem o porquê da adição; perguntem o porquê da dor.”
No seu livro Mentes Dispersas, diz que o PHDA (perturbação de hiperatividade e déficit de atenção) não tem apenas causas genéticas. Que outras origens encontrou aqui?
Primeiro, não é genético. Há 20 mil genes no corpo humano – dez mil estão dedicados ao sistema nervoso central. Isso não é o suficiente para formar todos os biliões de circuitos nervosos, conexões e sistemas no cérebro. Em segundo lugar, o cérebro desenvolve-se sob o impacto do ambiente. Nenhum bebé nasce com atenção, com regulação de impulsos, com controlo emocional. Isso tem de se desenvolver. Portanto, trata-se de uma questão da Ciência a forma como o cérebro se desenvolve através da interação com o ambiente. Não invento isto, só estou a dizer o que explica a Ciência. A parte mais importante desse desenvolvimento no meio ambiente é a relação emocional do bebé com os seus cuidadores. Os filhos são muito sensíveis; quando os pais estão stressados, os filhos ficam stressados. Aliás, podemos medir as hormonas do stresse na criança e isso vai dizer-nos o quão stressados os pais estão. Não é que a genética não contribua, mas ela não determina, não define, não decide. O que é genético é a sensibilidade. Quanto mais sensível se é, mais se sente o que está a acontecer no seu ambiente. E alguns filhos são geneticamente mais sensíveis. Isso não significa que eles têm um gene para PHDA. Significa que eles têm genes para a sensibilidade, ou seja, são mais afetados pelo ambiente. Sob condições de stresse, que são muito comuns na sociedade de hoje, é afetada a forma como se desenvolvem o cérebro das crianças e os seus círculos. E o desligar-se ou a mente distraída é, na verdade, uma forma de proteção.
Um mecanismo de defesa da criança.
Sim. Se eu a estivesse a stressar agora, você poderia fazer duas coisas: ou desligava esta chamada ou dizia-me para parar. Mas e se você não pudesse fazer nada disso? O que o seu cérebro faria seria desligar-se da situação para a proteger. É o que fazem filhos sensíveis num ambiente stressante – não porque os pais não os amam, não porque os pais não fazem o seu melhor, não porque os pais não têm boas intenções, mas porque eles próprios estão stressados. E é por isso que estamos a assistir a um aumento desta perturbação. Se fosse genético, não haveria um aumento. Os genes não mudam em dez, 20 ou 30 anos.
Portanto, não precisa de ser sequer um ambiente violento ou abusivo para uma criança desenvolver o déficit de atenção.
Não tem nada a ver com violência. É verdade que os estudos mostram que quanto mais trauma há, maior a probabilidade de desenvolver PHDA. Isso é verdade, mas não é condição. Só requer pais que estão stressados, ocupados com as suas vidas, talvez a lidar com os seus próprios traumas não tratados, talvez com problemas na relação entre eles. Não é uma questão de não amarem os filhos, mas quando os pais estão stressados, eles não conseguem estar sintonizados com os filhos. Sintonizar significa a capacidade de entender o que está acontecer com o outro e responder a isso. Então o filho desenvolve um mecanismo de proteção. Escrevi este livro há 27 anos e é provavelmente o maior best-seller do mundo sobre PHDA. Anos depois, num artigo sobre o desenvolvimento do cérebro, feito na Universidade de Harvard e publicado no jornal oficial da Academia Americana de Pediatria- lê-se o seguinte: “A arquitetura do cérebro é construída para um processo continuado que começa antes do nascimento, continua até pela idade adulta e estabelece uma fundação ou forte ou frágil para toda a saúde, a aprendizagem e o comportamento que se seguem.” Isto significa que o stresse na mulher grávida já está a afetar o desenvolvimento do cérebro do feto.
Mas como protegemos as crianças num ritmo de vida moderna em que o stresse já é quase uma identidade?
Esse é o tema do meu livro mais recente, chamado O Mito do Normal – Trauma, Doença e Cura numa Cultura Tóxica. Se olharmos para a forma como os seres humanos evoluíram durante milhões de anos, vivemos na Natureza e em pequenas comunidades onde os filhos estavam sempre com os adultos. Na sociedade moderna, ambos os pais têm de ir trabalhar, as pessoas estão em crise económica constante, há um desmembramento da família ampliada, da comunidade e das instituições comunitárias, há menos apoio, as pessoas estão mais isoladas e stressadas, e há muitos traumas passados de uma geração para a próxima. Agora, deixe-me dizer-lhe mais uma coisa sobre a genética. Estas crianças com PHDA estão mais sujeitas ao risco de desenvolver asma, eczema ou alergias. Também sabemos que quanto mais stressados os pais são, mais provável é que os filhos desenvolvam mais risco de sofrer de asma. A fisiologia reflete o ambiente psicológico.
Os estudos mostram que quanto mais trauma há, maior a probabilidade de desenvolver PHDA. Isso é verdade, mas não é condição. Só requer pais que estão stressados, ocupados com as suas vidas, talvez com problemas na relação entre eles
Também temos mais poluição.
Sim, tudo contribui. A comida ultraprocessada também contribui, mas estou a focar-me aqui no ambiente emocional. O que temos de fazer é entender a psicologia da criança e dar-lhe aquilo de que ela precisa emocionalmente. Isso vai ajudá-la a desenvolver novos circuitos do cérebro.
Só que nem sempre está nas mãos dos pais mudar isso. Como disse, é uma cultura tóxica.
Sim, é um grande desafio, mas, pelo menos em casa, está nas nossas mãos criar um outro tipo de ambiente. Eu falo sobre o meu próprio casamento e, quando meus filhos eram pequenos, a minha mulher e eu tínhamos uma relação muito stressante. Os nossos filhos captaram esse stresse [Gabor Maté revelou em tempos que os seus três filhos, e ele próprio, foram diagnosticados com PHDA). As pessoas podem trabalhar as emoções no seu casamento e criar um ambiente mais pacífico em casa, os pais podem trabalhar em si mesmos. Se tentarmos controlar o comportamento dos filhos, tudo o que obtemos é oposição. Mas se entendermos que o comportamento dos filhos é apenas um sintoma de uma distorção emocional e se lidarmos com as suas necessidades emocionais, então os comportamentos mais desafiantes vão parar. Por isso é importante entendermos as experiências internas tanto dos filhos como dos adultos. Aliás, um diagnóstico não explica nada. Uma pessoa tem PHDA e como é que sabemos? Porque é distraída, tem pouco controle de impulsos, é desorganizada? Mas porque é que ela é assim? Porque tem PHDA. Ou seja, não tem significado nenhum, é apenas uma descrição. É útil descrever algo, mas a descrição não é uma explicação e, para obter uma explicação temos de olhar para as condições em que esse ser humano se desenvolveu. Ansiedade e tensão não são atributos individuais, eles refletem a sua relação com o ambiente. Nas escolas, por exemplo, se os professores entendessem que uma criança não está a ser deliberadamente má, iriam relacionar-se com ela de forma muito diferente. Ao invés de punir e controlar, podemos construir uma relação com a criança.
É possível uma criança que não tenha tido as suas necessidades emocionais satisfeitas curar o PHDA em adulto?
É. Escrevi Mentes Dispersas em 1999, após ter sido diagnosticado com PHDA. Estava a tomar medicamentos e isso ajudou-me a concentrar-me para escrever o livro. Já quando escrevi O Mito do Normal, que foi publicado há três anos, e que é um livro muito mais complexo e com vasta pesquisa, não tomei qualquer medicamento. Não precisava, o meu cérebro mudou. Como? Com muita terapia para lidar com os meus problemas emocionais, ao mesmo tempo que cuidava do meu corpo, comendo corretamente, fazendo exercício, fazendo alguma meditação, não aguentando para lá dos meus limites sempre que posso… A cura está disponível para qualquer ser humano, desde que exista consciência e é assim que se reprograma o sistema nervoso. Ainda que o PHDA fosse 99% genético e 1% ambiental, o que podemos trabalhar é com o 1%, é o ambiente interno e externo que podemos trabalhar e esse é o meu foco. Porque com os genes não há nada que se possa fazer.

Como é que se ganha essa consciência de que fala? Porque nós passamos pela vida a repetir padrões inconscientes, como se a repetição fosse uma forma de cura.
A boa terapia ajuda muito. No primeiro capítulo de O Mito do Normal, conto um episódio. Vinha de uma conferência, aterrei no aeroporto de Vancouver e a minha mulher não estava lá à minha espera. Fiquei enfurecido, mesmo muito chateado. Porquê? Podia ter simplesmente apanhado um táxi até casa. Mas tenho uma perceção muito profunda de ter sido abandonado. Eu tinha apenas 1 ano quando a minha mãe me deu a um estranho. Ela fez isso para salvar a minha vida, mas como é que uma criança com 1 ano experiencia isso? Como um abandono. Quando estamos numa relação, esta é o campo perfeito onde podemos aprender e crescer. E eu podia simplesmente pensar: “A minha mulher não me abandonou, só não foi buscar-me ao aeroporto.” Podemos aprender imenso, mesmo sem terapia, com as nossas reações emocionais quando estas são desproporcionais em relação à realidade. Mas é preciso ter consciência das coisas e conhecimento. É por isso também que escrevo livros. E o mindfulness, bem direcionado, pode ajudar também.
Há agora muitos diagnósticos de défice de atenção nos adultos. É uma tendência?
Cada vez mais adultos estão a ser diagnosticados, quando antes o PHDA costumava ser considerado uma condição de crianças que aparece na infância. Então porque todos esses adultos estão a ser diagnosticados? Se entendermos que o diagnóstico não explica nada, é apenas circular a descrever algo, porque temos as pessoas cada vez menos focadas? Mais ansiosas? Menos reguladas emocionalmente? Basta olhar para a sociedade: mais stresse, mais isolamento, os ecrãs, as redes sociais, o multitasking, a insegurança… É claro que as pessoas têm problemas de concentração! E depois vamos diagnosticá-las com PHDA. Qualquer pessoa stressada, tenha ou não a condição, tem dificuldade em se concentrar.
Estes sintomas podem ser confundidos com outras perturbações mentais, como a ansiedade, a depressão, a personalidade borderline, etc.?
Há uma enorme sobreposição entre o PHDA e adições, ansiedade e personalidade borderline, mas, lá está, são apenas descrições, nenhuma delas explica nada. O importante é perceber isto: sim, quanto mais stresse há na sociedade, mais ansiedade sentimos e mais pessoas que não são emocionalmente reguladas vamos ter. Não importa que nomes lhes damos, são apenas rótulos.
Mas precisamos de rótulos em tudo. E temos agora também um culto da adaptação, vencer é ser flexível com as circunstâncias que a sociedade cria para nós. Isso não coloca uma pressão extra em forma de exigência da reinvenção pessoal?
Também abordo isso no livro O Mito do Normal. Há uma grande pressão para nos adaptarmos a uma sociedade anormal que vai contra as necessidades básicas das pessoas e vai contra a natureza humana básica. Claro que as pessoas vão ter todos os tipos de problemas mentais! E depois ainda lhes dizem que há algo de errado com elas, que é culpa delas, elas é que não estar a adaptar-se, a ajustar-se para caber, que não são resilientes o suficiente… O problema social é transformado num problema individual e as pessoas sentem vergonha.
Na sociedade das perceções, também o trauma não é o que nos acontece, mas a forma como percebemos o que nos acontece?
Não é apenas como entendemos o que nos acontece, não é uma simples questão de perceção. É sobre o que acontece dentro dos nossos corpos e no nosso sistema nervoso. Por exemplo: levo uma pancada na cabeça. Isso não é o trauma. Mas se a pancada me provoca uma concussão, isso é o trauma. Há o evento traumático e há o que acontece dentro de mim. Não é apenas uma perceção, porque algo realmente aconteceu dentro de mim, afetou as minhas funções cerebrais e o meu sistema nervoso. A perceção é apenas uma parte, mas há mais, uma mudança psicológica e fisiológica de facto que persiste. Mas se eu levar uma pancada na cabeça e não houver uma concussão, então não há trauma.
O trauma psicológico inscreve-se também no plano físico?
As pessoas que sofreram abusos sexuais na infância têm um risco maior de doença cardíaca, de esclerose múltipla ou doutras doenças, porque o trauma causa inflamação no corpo. Afeta a forma como percebemos as coisas, mas afeta também a nossa fisiologia. Volto ao tal artigo que referi antes, da Universidade de Harvard. Ele diz: “A evidência científica crescente demonstra que certos ambientes sociais e físicos que ameaçam o desenvolvimento humano por causa de escassez, do stresse ou da instabilidade podem levar a ajustes fisiológicos e psicológicos de curto prazo que são necessários para a sobrevivência e a adaptação imediata, mas que podem também traduzir-se num custo significativo para resultados a longo prazo em aprendizagem, comportamento, saúde e longevidade.” Ou seja, as adaptações que são necessárias numa certa altura tornam-se uma fonte de patologias mais tarde.
Está a descrever os tais mecanismos de defesa psicológicos que o nosso cérebro cria para nos proteger durante determinada situação que nos faz mal?
Deixe-me dar um exemplo. Digamos que vai para o Polo Sul. O que você teria de fazer para se adaptar? Vestir mais roupa. A seguir, vai do Polo Sul para o Equador. Se não tirar aquela roupa toda que o equipou para o polo, provavelmente morre. Falo dessas adaptações elaboradas na infância. A diferença é que agora vestimos as roupas deliberadamente, conscientemente. E tiramo-las quando já não precisamos delas. Mas as adaptações infantis são inconscientes. A criança não as escolheu deliberadamente. Cresce a pensar que as adaptações são, ela mesma, uma identidade. O problema com essas adaptações infantis é que elas podem ser necessárias para a sobrevivência imediata, mas criam problemas depois quando deixam de ser adequadas às situações. A maioria das doenças mentais tem a ver com o meio ambiente e com adaptações que não são úteis depois.
Os homens tendem a explodir mais contra as mulheres e as mulheres são culturalmente programadas para absorver o stresse dos homens. É uma sociedade patriarcal. É por isso que as mulheres têm mais doenças autoimunes. E mais depressão e ansiedade
E muitas vezes é nas relações em que se estabelece intimidade e vulnerabilidade que esses mesmos problemas entram em erupção.
A erupção não é uma adaptação, é uma reação. Mas ela vem de uma adaptação. O que acontece dentro de um vulcão? A pressão de tudo o que foi acumulado é incontrolável. A adaptação é essa: empurrar para dentro tudo o que não puderam expressar no seu meio ambiente. É o que faz uma criança quando não tem as suas necessidades satisfeitas. Isso provoca frustração e a frustração é um motor para a agressão. No entanto, é diferente entre homens e mulheres.
Em que sentido?
Os homens tendem a explodir mais contra as mulheres e as mulheres são culturalmente programadas para absorver o stresse dos homens. É uma sociedade patriarcal. É por isso que as mulheres têm mais doenças autoimunes. E mais depressão e ansiedade. Não há separação, mente e corpo são a mesma coisa. Há muitas doenças físicas com uma contribuição psicológica. Isto foi estudado e eu falo sobre isso em dois dos meus livros, Quando o Corpo Diz Não e O Mito do Normal. Há muita pesquisa sobre a unidade corpo/mente e em como as emoções podem contribuir para certas doenças. Outro estudo de Harvard mostra como mulheres com stresse pós-traumático severo têm um risco de cancro dos ovários duplicado em relação à população em geral. A malignidade não é apenas um evento fisiológico, é também uma resposta a fatores emocionais. Não podemos separá-los. Mas mesmo com toda a ciência… nas escolas médicas não se fala sobre isto.
Como se fosse do domínio da pseudociência.
Mas não é, não é mágico, é científico. As pesquisas mostram que, por exemplo, mulheres que são cuidadoras de crianças com doenças crónicas, os seus cromossomas envelhecem mais rapidamente por causa do stresse do papel de cuidar. As pessoas que cuidam de familiares com Alzheimer podem ficar com o sistema imunitário deprimido.
Pode dar outros exemplos de mecanismos de defesa que nos fazem mal a posteriori?
Voltando à minha própria experiência. Eu nasci em 1944, em Budapeste, dois meses antes de os nazis chegarem à Hungria. Os meus pais eram judeus. O meu pai foi levado para trabalhos forçados, a minha mãe esteve um ano inteiro sem saber se ele estava morto ou vivo. Podíamos ser deportados a qualquer momento, levados para Auschwitz. Há guerra. Os judeus são perseguidos. Qual é o estado emocional da minha mãe? Eu absorvi-o. Como lido com isso? Desligando. Mas o meu cérebro está em desenvolvimento. Então esse desligar ou abstrair fica enraizado no cérebro. Mas este é um exemplo extremo. Por isso falo também do meu casamento durante a infância dos meus filhos. E aqui há outra coisa: nós casamo-nos sempre com alguém que está no mesmo nível de trauma em que nos encontramos, ainda que vindos de contextos diferentes. Houve aqui então dois pais traumatizados, sem sequer saberem que estavam traumatizados, sem terem ainda trabalhado nisso. E têm filhos num casamento muito stressante. Qual é a atmosfera dentro de casa? Nós fizemos o nosso melhor, não batíamos nas crianças, não as tratávamos mal. Mas havia uma tensão constante e um ambiente muito instável emocionalmente. E o cérebro das crianças desliga-se da situação para se proteger.
Descreve então uma pessoa que cresce emocionalmente distante como mecanismo de proteção, é isso?
Há várias formas. Qual é o significado da palavra depressão? Depressão significa empurrar para baixo. É um mecanismo de defesa. Tal como a evitação emocional ou, pelo contrário, as reações ansiosas de apego. Não há um bebé que empurre para baixo as suas emoções. Se precisa de algo, chora. Mas o que acontece se ninguém aparecer para ver de que é que precisa? Ou se a criança começar a interiorizar que, pelo facto de chorar, de estar chateada, os seus pais não vão gostar dela? Tudo começa com um mecanismo de defesa, empurrando para baixo as suas necessidades e emoções. Mais tarde, pode ser diagnosticado com uma doença chamada depressão.
Como podemos então tratar doenças individuais numa sociedade que nos põe doentes? Terapia, consciência, autoconhecimento são respostas individuais e não sociais…
Ao nível das respostas sociais, temos de formar os médicos a entender o desenvolvimento humano. Formar os professores. Voltando ao artigo que citei e que diz que o processo de desenvolvimento do cérebro humano começa antes do nascimento e se prolonga pela vida adulta, isto significa que as escolas devem ser lugares onde o valor mais importante não é a aprendizagem pela memória ou fixação de conhecimentos, mas onde se criam as condições ótimas para o desenvolvimento do cérebro humano, incluindo as condições emocionais. Todas as instituições onde as crianças crescem, começando pela sua própria casa, têm de saber aquilo de que elas precisam, quais são as suas necessidades emocionais. A sociedade tem de ter essa consciencialização.