As áreas de soberania são domínios de política pública em que o sentido de Estado é especialmente necessário e em que é fundamental manter um quadro de intervenção que preserve o prestígio das instituições.
Ao longo de dois anos, a impreparação de Luís Montenegro e o radicalismo do propagandista trauliteiro Leitão Amaro, associados a um perfil deliberadamente desajustado nas duas nomeações para o MAI, colocaram em risco a segurança dos portugueses e transformaram a área da segurança interna num território de perigosa dependência ideológica do Governo relativamente ao Chega.
Antes de mais, tivemos o amadorismo atrevido que levou a desvalorizar a prevenção de riscos e conduziu ao fracasso do Governo em todas as situações de emergência, sejam incêndios rurais, apagões ou tempestades.
A prioridade da limpeza dos terrenos, das casas e das aldeias desapareceu do discurso político com a chegada de Montenegro ao poder. O ordenamento das florestas foi subordinado à lógica de gestor de subsídios do ministro da Agricultura e foi degradado o papel da AGIF, a agência criada por recomendação da CTI de 2017, que deixou de depender do primeiro-ministro e passou a ser ignorada junto do Secretário de Estado das Florestas. Estes factos contribuíram para os desastres da gestão dos incêndios rurais em 2024 e 2025.
Em 2024, foi só em setembro que Montenegro veio tentar desviar as atenções da incompetência do Governo na prevenção e combate aos incêndios, com uma fantasia sobre redes de incendiários e apelos à mão pesada da Justiça, qual imitador de André Ventura, que não preveniu nada e fez esquecer o tema mal começou a chover.
Em 2025 foi ainda pior, com a festa do Pontal a prosseguir enquanto o País ardia, com apoios logo anunciados mas que ainda hoje não foram pagos e com a formação de uma nova Comissão Técnica Independente tão urgente, que só foi nomeada em abril de 2026.
Pelo meio, o Governo mostrou impreparação na resposta ao apagão, com umas vagas insinuações sobre o SIRESP mas sem qualquer mudança no sistema ao fim de um ano, e respondeu com desleixo e vídeos de propaganda à tempestade Kristin.
É, por isso, muito positivo o regresso do discurso da prevenção de riscos feito esta semana pelo MAI Luís Neves, avisando que é essencial limpar os terrenos e que poderemos enfrentar “um verão terrível”, tal como foi uma boa decisão a criação de unidades especiais de proteção civil para recolher as árvores derrubadas pelas tempestades e que são rastilho perigoso para os próximos incêndios.
Foi também prudente adiar para depois do verão o debate retrógrado, exigido pela Liga, a estrutura corporativa das associações de bombeiros, sobre o regresso ao modelo distrital de coordenação da proteção civil, sem qualquer articulação com a forma de organização sub-regional dos municípios que são as autoridades locais de proteção civil.
Esteve igualmente bem o novo MAI ao dizer na Assembleia da República, deixando a arder as orelhas de Leitão Amaro, que a operação de instrumentalização política da PSP efetuada na rua do Benformoso com ele não se realizaria daquele modo humilhante e inconsequente.
Foi igualmente claro e coerente o ministro Luís Neves ao negar dois chavões da extrema-direita populista, replicados por Luís Montenegro nas suas charlas dramáticas de abertura de telejornal.
Segundo o ministro, existem obviamente novos problemas de segurança, mas não existe qualquer aumento descontrolado da criminalidade gerador de uma crise de insegurança. Em segundo lugar ,foi cristalino na recusa de existência de qualquer correlação entre as dinâmicas de criminalidade e o aumento da população imigrante.
Mas a parte mais relevante da defesa de forças de segurança prestigiadas foi quando declarou ter despachado em poucas semanas dezenas de processos, pendentes há vários anos, de afastamento das polícias de elementos responsáveis por atos de violência contra os cidadãos, em especial de setores mais frágeis como imigrantes ou pessoas sem-abrigo.
Ainda desiludiu mais a extrema-direita parlamentar quando referiu a preocupação a nível europeu com o aumento da atuação de movimentos neonazis, como o 1143, bem conhecido de dirigentes do Chega, e referiu o caráter pontual do caso ocorrido durante a recente manifestação de um movimento anti-aborto.
Para completar a tentativa de inversão do sinal de desnorte e manipulação ideológica do Governo Montenegro na área da segurança interna, concluiu anunciando o alargamento do recrutamento de novos elementos para a PSP já este ano, com dois novos cursos de formação de agentes, para tentar compensar a redução do efetivo em 183 polícias, verificada em 2024, e de 331 em 2025, revelado ontem pelo Balanço Social da PSP relativo ao ano passado. O desafio não será fácil quando cerca de 20% dos elementos da PSP superam já os 55 anos, idade em que já se podem candidatar à pré-aposentação.
Provavelmente pela clareza de discurso, e por desmentir quase tudo o que foi dito por Montenegro, Leitão Amaro e André Ventura ao longo de dois anos, Luís Neves é um caso raro de popularidade nas sondagens no meio de um Governo com resultados desanimadores, pelo que merece o benefício da dúvida de um prémio Laranja Doce.
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