Conheceram-se esta quinta-feira os números nacionais do consumo de psicofármacos receitados em 2025. Pasme-se, aumentou. Dir-se-ia que algo dramaticamente: 80 mil embalagens por dia, 29,4 milhões anuais e o valor mais elevado da última década – que custaram 152 milhões de euros ao Estado. Estamos a falar de 882 a 1,2 mil milhões de comprimidos, de um consumo per capita de 96 comprimidos anuais (contando todos os portugueses), a um ritmo diário de 3 milhões de comprimidos. Estamos no “seleto” lote dos países do mundo com maior taxa de medicação mental, consistentes nos pódios: líderes crónicos no consumo de ansiolíticos na UE, em segundo lugar nos antidepressivos na OCDE, top 5 mundial nos antipsicóticos.
Eu acredito na terapia medicamentosa. Em tempos de pseudociência e influenciadores que escalam o “governo dos imbecis” (de que falava Eça de Queirós, nos idos de 1872), é importante sublinhar que estes medicamentos são preciosos coadjuvantes terapêuticos. Demonizá-los é atrasar melhoria. Mas muita da reação especializada a estes números lateraliza demasiados pontos de falência no sistema de saúde mental – preferiram sublimar o que correu melhor: há mais diagnósticos, logo, há mais medicamentos receitados. E ainda: há mais turistas e estrangeiros a visitar e residir em Portugal, aumenta o consumo. Só que nesta matéria não há como ver o copo meio cheio, porque está praticamente seco. Temos das piores taxas europeias de: (a) prevalência de depressão, ansiedade e burnout (e não, o aumento dos diagnósticos pós-Covid-19 não explica integralmente o aumento de doença mental); (b) acesso a cuidados de saúde mental; (c) número de psiquiatras e psicólogos disponíveis no SNS; e, (d) acesso à psicoterapia. Sublimar o aumento de casos diagnosticados sem considerar os fatores sociais (que pioram) a falência (não será antes inexistência?) da política pública de saúde mental e o acesso assimétrico dá-me sede – e não é de água.
Facto: o acesso à psicoterapia é muitíssimo baixo, sendo a psicoterapia a ferramenta mais efetiva no tratamento da doença mental, se necessário, com medicamentos a auxiliar o processo terapêutico. As doenças mentais são multifatoriais, envolvem causas neurobiológicas, ambientais e sociais. Há algum comprimido que trate determinantes sociais e ambientais?
A incapacidade de resposta do SNS e financeira das pessoas determina que 1 em cada 4 portugueses com sintomas moderados de depressão ou ansiedade não receba qualquer acompanhamento psicoterapêutico, limitando-se o tratamento aos psicofármacos prescritos. Perto de 2,5 milhões de portugueses não têm capacidade financeira para suportar uma psicoterapia privada continuada, com sessões semanais.
No privado, os preços são de “renda de casa moderada” montenegrina, ou seja, proibitivos para a muitos dos portugueses: na psicologia privada, o preço médio de uma sessão de psicoterapia é de 65€; o preço médio atual de uma consulta de psiquiatria no privado: 115€. Já o SNS integra 1000/1100 psicólogos, mas nos cuidados de saúde primários (vulgos Centros de Saúde) estão apenas 300 – 3 psicólogos por 100 mil utentes, quando o rácio mínimo eficiente é de 1 psicólogo/ 5 mil utentes. Estão inscritos na Ordem dos Psicólogos Portugueses mais de 25 mil psicólogos, 24 mil dos quais estão no setor privado. Os psiquiatras também podem fazer psicoterapia, mas no SNS existem apenas 850.
E os tempos de espera no SNS? Para consulta de psicologia: casos prioritários, que são os muito urgentes, 15 a 30 dias, em muitas geografias (bem) mais; consultas não-urgentes, 6 a 20 meses. Segundo a OPP, em maio de 2025, estavam 20 mil pessoas à espera de consulta de psicologia no SNS – 45% das quais acima do tal de Tempo Máximo de Resposta Garantido (TMRG). Para consulta de psiquiatria: crises agudas vão para as urgências, o pior é depois; casos muito urgentes, 15 dias; prioritários, 30 a 60 dias; prioridade “normal”, 6 a 12 meses, mas para baixo de Lisboa são à volta de 15 meses. Inscritos em lista de espera para primeira consulta de psiquiatria: 70 mil utentes – 40% já acima do TMRG. Apesar da expansão e aumento da cobertura dos seguros de saúde.
Uma vez que os psicólogos não são médicos, o que os inibe de prescrever medicamentos, impõem-se diversas questões: (1) quem é que receitou os 29,4 milhões de caixas de medicamentos – um médico de família, numa consulta de 15 minutos? Um psiquiatra? (2) Alguém prescreveu análises e outros meios de diagnóstico, para despistar (também) causas físicas dos sintomas daquela pessoa? E como sou desde criança a menina dos porquês, continuo: (3) já alguém fez a conta para a taxa de substituição dos psicofármacos face à ausência de acesso a psicoterapia? Alguém sabe, sobre os consumidores destas extraordinárias 29,4 milhões de caixas de comprimidos, quantos os tomam como tratamento único, ou como coadjuvantes da psicoterapia na dianteira? A resposta dá-se curta, como tudo nesta conversa: (1) MGF na maioria dos casos, (2) claro que não, (3) jamais.
Enquanto fazia estas perguntas todas, nas três horas que dediquei à escrita desta crónica, venderam-se 4800 embalagens de antidepressivos, 3459 de ansiolíticos e 1884 de antipsicóticos. Nos 10 minutos que demore a lê-la, cerca de 2000 comprimidos. Isolados, são números que impressionam. Contextualizados, são uma parcela da odisseia da saúde mental em Portugal – em 2025 melhor diagnosticada, mas, como sempre, por resolver.
LINHAS DE PREVENÇÃO E APOIO
Serviço de Aconselhamento Psicológico SNS24
808 24 24 24 (opção 4)
Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico
1411
SOS Voz Amiga
Lisboa
Das 15h30 às 00h30
213 544 545 — 912 802 669 — 963 524 660
Conversa Amiga
Inatel
Das 15h às 22h
808 237 327
210 027 159
Vozes Amigas de Esperança de Portugal
Voades-Portugal
Das 16h às 22h
222 030 707
Telefone da Amizade
Porto
Das 16h às 23h
228 323 535
Voz de Apoio
Porto
Das 21h às 24h
225 506 070
SOS Estudante
Linha de apoio emocional e prevenção do suicídio.
Todos os dias das 20h à 1h (exceto férias escolares)
915246060 (Yorn) — 969554545 (Moche) — 239484020 (Fixo)
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