O segredo é uma forma de pudor. E o pudor é uma forma de verdade. Para uma coisa não ser vista, precisa do que a defenda: uma fachada, o arvoredo, um arco, as traseiras de um jardim. A vulgaridade expõe-se. O que é valioso guarda-se. Daí que uma coisa seja tanto mais preciosa quanto mais velada se encontra.
A totalidade da minha teoria sobre a cidade resume-se a esta ideia simples: a grandeza de uma cidade mede-se pelos segredos que guarda. Se isto vale para Oz, para a Terra Média ou para a liturgia tradicional, por que raio não há-de valer para a cidade, que tem sempre um bocado de fantástico, medieval e santo?
Veneza é um bom exemplo, por excesso. Veneza mostra tudo. Uma beleza quase indecente. Uma pessoa chega a Veneza e sente-se diminuída, abre a boca e pasma-se. Mas é um truque (Veneza é velha e é sabida). O que Veneza não quer é que o turista descubra os seus segredos. Vocês não sabem, mas eu vou dizer-vos: por detrás daquelas fachadas escondem-se pátios, e ao fundo desses pátios esquinas, e a dobrar essas esquinas um tesouro; sobre o qual, como é evidente, não posso falar.
Lisboa também é assim. Apesar de a conhecer desde pequeno e de cá viver desde que vim para a Faculdade estudar Filosofia e tocar em bandas de roque-enrole, meia-volta Lisboa lá me surpreende. Não vou enumerar as surpresas. Fico-me pela de anteontem.
Há um segredo escondido entre os becos contíguos à Igreja da Encarnação, em pleno Chiado. Aposto que nem sabiam que há becos contíguos à Igreja da Encarnação, em pleno Chiado. Há. Para se ter acesso a eles, é preciso entrar por uma porta que parece dar para um prédio. Mas engana. Dá para uma antecâmara com duas portas. Uma delas, sim, é de um prédio. A outra, não. Os segredos são assim. Fazem-se passar por outras coisas. É a sua malícia.
Só que o segredo não são os becos, ali ao lado da Hermès do Largo do Chiado. O segredo é pior. É mais fundo. É tão secreto que se esconde atrás do próprio segredo. Chama-se Escola do Largo. Não sabiam? Claro que não. Eu sei, mas sem grande mérito nisso. Sou irmão do director. Não é como se tivesse hipótese de ser inocente no assunto.
Na Quarta-feira fui lá ver A Poltrona e Diálogos, duas pequenas peças da Natalia Ginzburg, traduzidas pelo Jacinto Lucas Pires e encenadas pelo meu irmão Marcos. Qual é o interesse? Vários. Antes de mais, este: o acto de sair de casa, à noite, durante a semana, apanhar um transporte, entrar numa sala e ficar duas horas a olhar para pessoas a representar. É uma limpeza. Uma pessoa chega suja de ecrãs, de pressa, de opiniões e de ruído, e senta-se diante de corpos vivos a dizer palavras. Não é como ir à Missa, evidentemente. Mas pertence à mesma família dos gestos rituais. O homem contemporâneo perdeu quase tudo, mas perdeu sobretudo a capacidade de estar verdadeiramente num sítio. De consentir que o corpo e a alma ocupem o mesmo lugar ao mesmo tempo.
Mas A Poltrona e Diálogos não valem por obrigarem o espectador a uma ginástica espiritual contra a tepidez dos tempos. Isso seria pouco. Valem pelos seus méritos próprios: a sobriedade da encenação, a clareza dos actores, a secura do texto.
Em Ginzburg não há propriamente acção. Há pessoas a falar. E falar a sério é bastante perigoso. As pessoas dizem uma coisa porque não conseguem dizer outra. Ou porque conseguem, e têm medo. É nas intersecções do que é dito, do que fica por dizer, na mediania feroz das conversas como elas são, que se abrem as fendas do teatro. Que são as fendas da vida. Uma mulher pergunta por uma poltrona e está a pedir ajuda. Alguém fala do tempo e está a confessar uma derrota.
N’A Poltrona, a primeira das peças, tudo gira em volta desse objecto feio, azarento, quase responsável pela ruína da casa. No texto, está lá. Na encenação, não estava. Como se houvesse certas coisas que, por não caberem no quadro, ficam de fora do quadro. Trabalham por baixo.
Num tempo de exposição total, de panfletos, pedagogias e denúncias, um teatro que ainda acredita na palavra, na contenção, no tempo interior torna-se necessariamente clandestino. Não há outra forma. E viver assim escondido, oculto no coração de Lisboa, é quase o melhor a que poderia aspirar. Como a tal poltrona. Fora de cena, mas decisiva.
Manuel Fúria é músico e vive em Lisboa.
Manuel Barbosa de Matos é o seu verdadeiro nome.
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