O 25 de Abril de 1974 calhou a uma quinta-feira. Na verdade, não calhou. O dia que agora está nos calendários como o feriado da revolução e da liberdade foi escolhido por motivos táticos. Como o País, mesmo pequeno, se fazia grande, com estradas miseráveis que agigantavam os trajetos, os soldados demoravam muito a ir e a vir das visitas às terras e era preciso escolher um dia da semana em que a maioria já tivesse regressado das folgas. Ora, era na noite de quarta para quinta-feira, a meio da semana, que mais gente estava nos quartéis. Era também preciso que a revolução não se fizesse no 1º de Maio, porque nessa data, Dia do Trabalhador, as forças do regime estariam completamente mobilizadas, atentas a qualquer movimentação estranha. Era preciso apanhá-los desprevenidos. Por isso e sabendo que os inimigos são muitas vezes aqueles de que menos suspeitamos, os capitães de Abril fizeram, nos dias antes do golpe, passar a mensagem de que se estava a preparar alguma coisa para outro dia. Cada um passou a informação a dez dos que considerava mais insuspeitos e leais. E, já depois da revolução feita, vieram a descobrir que a informação falsa achou mesmo o caminho da PIDE.
A história que aqui descrevo foi-me contada pelo coronel António Rosado da Luz, um dos capitães de Abril. E ela mostra-nos como a História se faz de acasos, de circunstâncias e de traições. Também nos mostra como, entre aqueles que os militares de Abril consideravam os mais leais, havia bufos. Eles sabiam-no. Foi precisamente por o saberem que fizeram circular por eles uma informação falsa para despistar a PIDE. Este pequeno pormenor, uma nota de rodapé sem importância para a História, ilustra bem o País que esteve debaixo de uma ditadura durante 48 anos. Um regime político não se sustenta sem uma massa de gente que ou o apoie ativamente – como aconteceu durante a maior parte do Estado Novo – ou, pelo menos, o suporte por inércia e medo, como acontecia já perto do fim do regime.
Durante décadas, os que fizeram frente a Salazar eram muito poucos. Os do reviralho, os velhos republicanos, os intelectuais de esquerda, os comunistas eram uma exceção. Um desvio. Ser opositor a uma ditadura não é para todos. Exige coragem física. Exige enfrentar o terror. Exige estar disponível para andar escondido, para ser perseguido, para ficar sem trabalho, para deixar o país e a família, para ser preso, para ser torturado, para ser morto. Os heróis desses 48 anos foram, por isso, um punhado de gente de quem os “portugueses de bem” queriam uma distância higiénica, para não terem chatices. Era (como em certa medida nunca deixou de o ser) o País do “cá se vai andando”.
Havia fome, havia miséria, havia crianças descalças a andarem quilómetros para chegar à escola, havia humilhações constantes para os mais pobres, destituídos de qualquer direito, merecedores apenas das migalhas inconstantes da caridade, pelas quais deviam mostrar-se agradecidos. E havia os que iam fazendo pela vida. Os que mantinham um certo estatuto social, fazendo da conivência com os poderes uma alavanca social, aproveitando a pobreza dos outros para ter criados que de outra forma não teriam como pagar. Havia ainda, menos numerosos e visíveis, os incrivelmente ricos. Umas quantas famílias a quem o velho ditador que morreu pobre garantiu a riqueza, através de monopólios e rendas, oleando com essas trocas de favor uma máquina do Estado profundamente corrupta, que se fazia de pequenos e grandes favores, cunhas, pedidos, atenções. Era uma hierarquia perfeita, admirada por aqueles que acham que a desigualdade é uma coisa natural. “Cada um é para o que nasce.”
Durante 50 anos e porque era preciso criar um chão comum onde a democracia pudesse medrar, varreram-se estas memórias para debaixo do tapete da sala da História. Toda a gente garantiu que o 25 de Abril tinha sido o dia mais feliz das suas vidas. Toda a gente tinha sido, afinal, antifascista. Mesmo que a narrativa viesse cheia de “mas”, eles ficavam reservados à caricatura do taxista que suspirava por “um Salazar em cada esquina”, às conversas em surdina nos cafés, às caixas de comentários das notícias online.
Está na altura de sermos claros. O 25 de Abril não é consensual. As revoluções não são consensuais. Como poderiam sê-lo? Se uma ditadura garante que o poder se concentra na mão de muito poucos, como poderiam esses muito poucos ver de bom grado fugir-lhes o poder para a mão de tantos? Ainda por cima, se esses tantos eram o povo, iletrado, maltrapilho, desqualificado. Sob a capa democrática, manteve-se o nojo ao povo. E assentada a poeira revolucionária, os velhos poderosos voltaram, de uma forma ou de outra, a ocupar os seus lugares. Como se isso fosse natural e não pudesse ser de outra maneira. Porque é perigoso que se perceba que a saúde pode ser gratuita para todos, que o trabalho pode ter direitos, que o ensino público pode ser universal. Perigosas não são as utopias, são as construções reais que mostram que o que foi sonhado é possível. E foi por isso que se começou a armadilhar e a desmontar as conquistas de Abril, debaixo do mantra das inevitabilidades. Não há alternativa. “Manda quem pode, obedece quem deve.”
Vi na exposição Venham Mais Cinco, sobre o PREC (Processo Revolucionário em Curso), uma imagem que me impressionou muito. Era a fotografia de uma menina camponesa, de roupa pobre, sentada numa cama, em cima de uma colcha delicada, com uma bonita boneca nos braços. Era a filha dos trabalhadores que invadiram a casa da herdade. E a menina viu-se assim no quarto de outra criança, a filha dos proprietários. O rosto da menina revela espanto, alegria e o medo de quem sabe que está onde não deve estar. Meio século depois, onde estará aquela rapariga? Fará parte daqueles que, graças ao ensino público, conseguiu chegar à universidade, apenas para perceber que o canudo que tudo prometia vale pouco sem os contactos certos? Que o mérito é uma coisa que vale pouco sem um apelido? É provável que assim seja. Que ela se mate a trabalhar e o dinheiro não lhe sobre, que pague pela saúde e pela educação que deviam ser gratuitas, que se revolte pelos impostos que paga e pela corrupção que sustenta. E é natural que se sinta traída e zangada. Só é triste que a sua zanga esteja contra aqueles que lhe abriram a porta do quarto onde ela descobriu que havia colchas finas e bonecas com que nunca tinha sonhado. E não contra os que têm feito tudo para que ela e os seus nunca mais ousem sonhar com nada.