À hora de fecho desta edição, na segunda-feira, a Humanidade estaria a chegar de novo à Lua, 53 anos depois da última visita do programa Apollo, em dezembro de 1972. Após mais de meio século e aqui chegados, vale a pena fazer a pergunta: que Humanidade é essa que levamos agora até à Lua?
No fim de semana, dois tipos de Humanidade encaravam-se à janela. Uma era representada pelos quatro tripulantes da missão Artemis II, colados ao vidro da janela da nave enquanto viam a Terra na sua totalidade, fascinados. “Houve um momento, há cerca de uma hora, em que o controlo de missão de Houston reorientou a nossa nave espacial enquanto o sol se punha por trás da Terra. E não sei o que todos esperávamos ver naquele momento, mas dava para ver o globo inteiro, de polo a polo. Dava para ver África, a Europa e, se olhássemos bem de perto, dava para ver a aurora boreal. Foi o momento mais espetacular e fez com que nós os quatro parássemos para admirar”, descreveu o comandante Reid Wiseman que, apesar dos seus 50 anos, parecia um miúdo a ver o mundo pela primeira vez.
Em Houston, no centro de controlo de missão da NASA, alguém escreveu isto quando se publicaram as fotos tiradas por Wiseman: “Uma lembrança de que, por mais longe que formos, continuamos a ser um só mundo, a observar, a ter esperança e a alcançar voos mais altos.”
Houston, claro que a Terra, vista assim de longe, nos desperta esta poesia toda, estes sentimentos elevados. O problema, como canta Caetano Veloso, é que “de perto, ninguém é normal”.
Aqui na Terra, numa outra janela muito pública, a rede social Truth Social, Donald Trump escrevia assim, ainda as fotos tiradas na Artemis II embelezavam as primeiras páginas dos jornais: “Terça-feira será o Dia da Central Elétrica e o Dia da Ponte, tudo junto, no Irão. Não haverá nada igual!!! Abram o raio do Estreito, seus bastardos loucos, ou vão viver no inferno – ESPEREM SÓ! Louvado seja Alá. Presidente DONALD J. TRUMP.” É o outro género desta nossa Humanidade.
Houston, estamos aqui com tantos problemas que nem o incrível azul dessa bola com auroras boreais chega para dissipar o nevoeiro carregado que vamos atravessando. Como as personagens do filme Amarcord, de Federico Fellini, deambulamos nestas cidades por entre a névoa, perdendo o sentido de orientação, num nevoeiro que tanto representa a “longa noite do fascismo” como a confusão mental trazida pela dissipação da realidade.
Apesar de todas as imagens em todos os ecrãs, duvidaremos de Artemis como duvidámos do seu irmão gémeo Apolo? Como poderemos chamar loucos a Donald Trump, a Benjamin Netanyahu e ao regime dos aiatolas e, ao mesmo tempo, ignorar a inação do Congresso norte-americano para travar um Presidente em tudo desequilibrado?
É que o “louco” de serviço já conseguiu algumas proezas como fazer com que a Europa se tenha tornado o maior importador de armas do mundo, com as importações a crescerem mais de 200% entre 2021-2025. Metade dessas armas importadas vêm obviamente dos EUA, mas a Alemanha e França também têm sido bastante beneficiadas.
Houston, agradecemos a distração e o sonho desde a janela da Artemis II. Mas não temos agora grande Humanidade de sobra para exportar para outros mundos.