Alexandra Correia
O lado evangélico da força
Sem nenhuma coerência entre o que dizem e o que fazem, fica difícil convencer os não crentes. Neste atentado à razão, resta suspirar, como Jesus Cristo: “Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem”
Os mandadores sem lei
Enquanto se acusa Marrocos de ter fechado os olhos à travessia em massa, o governo espanhol de ser permissivo e os imigrantes africanos de andarem a “invadir a Europa”, convenientemente se ignoram as redes sociais sem rei nem roque em nome da liberdade de expressão, ainda que a desregulação dessa expressão provoque tantas vítimas
O terror da opinião
A liberdade de expressão, que a ultradireita e o próprio Donald Trump costumam reclamar para si, é sempre uma das primeiras vítimas do autoritarismo. Não se pode falar, a opinião é um terror. Ou, como escreveu Hannah Arendt, “não existem pensamentos perigosos; pensar, por si só, é perigoso”
Nesta areia democrática
Naturalmente, existem praias onde se encontram mais garrafões ou cervejas levadas na geleira e outras onde predominam os gins e os dirty martinis servidos em bandeja de prata debaixo das sombrinhas de palha. Mas o princípio está lá: não há leis que impeçam qualquer pessoa de frequentar umas e outras
As licenças para matar
Não se trata aqui de clamar por uma justiça popular nem sequer de defender um aumento da moldura penal. Mas no intervalo que vai da pena mínima à pena máxima, muitos sinais têm os juízes dado à sociedade. Na violência doméstica prevalecem as penas suspensas ou o trabalho comunitário
A sombra dos socialistas
Dos “boys” aos “polvos”, passando pelas “cabalas”, nada tem minado tanto a democracia e alimentado tanto os populismos como a ideia de que “eles só querem ‘mama’” ou a de que “todos roubam
Os protetores das mulheres
É o Senhor das Moscas versão homens contra mulheres. Onde falha a empatia, sobra a necessidade de afirmar superioridade e domínio, algo tão presente no movimento “red pill”, a corrente de afirmação da masculinidade dominante e altamente tóxica, que tem vindo a ganhar lastro nas gerações de homens jovens
A cultura tem partido?
Há visões estratégicas difíceis de explicar. Qual será a razão pela qual a EGEAC dá 75 mil euros por ajuste direto a um Chic-Nic?
Houston, temos tantos problemas!
Houston, estamos aqui com tantos problemas que nem o incrível azul dessa bola com auroras boreais chega para dissipar o nevoeiro carregado que vamos atravessando
A doença e o sexo
Quando a Ciência e a Medicina apontam noutra direção, é caso para perguntar: afinal, quem é que faz do género um problema ideológico?
Entalados na rede
Como se protege a democracia quando o Estado começa a ter inclinações autoritárias e faz uso do imenso poder que, entretanto, lhe entregámos? Não é preciso muito. Do democrático país de Donald Trump chegam-nos já as notícias da polícia a bater à porta de casa para questionar cidadãos sobre opiniões que expressaram nas redes sociais
O predador e os amigos
Já ninguém quer ser amigo de um fantasma – o bilionário, que fez fortuna com fraudes e esquemas financeiros, enforcou-se na prisão em 2019. Mas eram muitos e influentes os seus amigos quando estava no auge
Alguns problemas desta raça “superior”
É mais fácil ir parar à prisão pertencendo a grupos de supremacistas brancos do que convivendo em paz com os imigrantes muçulmanos . Um aviso tanto para os pais que ignoram como para os que incentivam a radicalização dos seus filhos através de discursos de ódio
O voto dos emigrantes na extrema-direita
O fenómeno dos emigrantes, menos misterioso do que o do Entroncamento, está largamente estudado pela ciência política e pela psicologia e, de forma muito básica, resume-se a isto: já que apanhei, também vou bater
A morte, esse episódio pontual
Esta imagem que os responsáveis políticos tentam transmitir de que estamos melhor do que nunca esbarra com a realidade de que o SNS entra em roda-viva com o pico da gripe. São erros atrás de erros
Bandos de pardais à solta
Esta coisa de nomear gerações com letras do alfabeto, atribuindo-lhe características, não é de todo científico. Começou, aliás, como uma estratégia de marketing e os estudos que se fazem são nesse domínio, apurando os seus gostos para se saber o que lhes vender. Mas os putos não são apenas consumidores; são cidadãos. E vão de telemóvel em punho, a sua maior arma, “quando a tarde cai”, reivindicar o que é deles por direito, os tais futuros que querem roubar-lhes
Vamos reclamar do quê?
O que leva as pessoas à greve (ou não) é a tal gotinha decisiva que provoca a inundação, um cansaço de tudo e não só de propostas laborais, um protesto contra a inação política em áreas sufocantes como a habitação, os transportes, o custo de vida, os salários, sim, e contra o ar que vai ficando irrespirável para certos grupos sociais, como as mulheres e os imigrantes
Dos pequenos poderes
Os pequenos poderes mostram o tom da hipocrisia podre e sem valores de certos discursos políticos, anti-imigração e cheios de masculinidades mais do que tóxicas, criminosas, que, mais do que qualquer partidarismo, demonstram uma falta de humanidade (ainda) chocante
O que é ser homem?
O galo já não canta de galo e parece-lhe o fim do mundo que a galinha já não precise dele numa união que só valha pelo afeto e não pela dependência
Coitada da Cláudia
Não basta cada um fazer a sua parte no dia a dia; a luta, colocada ao nível da responsabilidade dos consumidores, fica sempre aquém do que o planeta pede. A questão é governamental e a “guerra”, como bem lhe chamou a ministra do Ambiente e Energia, trava-se contra um sistema poderosíssimo
Os biscates da saúde
Os hospitais já não vivem sem eles – seria quase impossível manter uma urgência a funcionar sem os tarefeiros, enquanto os concursos para o quadro ficam vazios