Alexandre Serpa Pinto “não era uma pessoa comum, pois as pessoas comuns não costumam atravessar a pé a África (ou qualquer outro continente) acompanhados de uma cabra e de um papagaio.”
É assim que começa “O Sonhador da África Perdida”, o nono (e último) título da coleção infanto-juvenil Grandes Vidas Portuguesas, das editoras Pato Lógico/INCM, com texto de Luís Almeida Martins e ilustrações de Filipe Abranches. Numa linguagem acessível aos mais jovens, Luís Almeida Martins, jornalista, escritor e editor da VISÃO História (sim, é cá da casa…), conta-nos em 80 páginas, generosamente ilustradas, a vida deste homem corajoso, destemido, aventureiro que protagonizou várias expedições a África, recheadas de peripécias, no tempo do colonialismo e do mapa cor-de-rosa.
Dono de um espírito indomável e de um enorme desejo de aventura, a vida do explorador Serpa Pinto. daria certamente uma boa história para contar no cinema se estivéssemos em Hollywood. Como não estamos, temos – e ainda bem – este livro para aprender ou recordar a epopeia dos descobridores que ganharam um lugar de destaque na História de Portugal.
A VISÃO publica aqui um extrato de “Alexandre Serpa Pinto – O Sonhador da África Perdida”:
“Certo dia do final de 1876, quando tinha 30 anos e estava de novo em Lisboa e de volta à rotina da vida nos quartéis (já com o posto de major), Alexandre encontrou casualmente no Terreiro do Paço um antigo camarada, que lhe fez uma grande festa. No meio dos abraços («Eh, pá, há que tempos que não te via, como tens passado?» — «Eu bem, e tu? Deixa-me cá apertar esses ossos!»), este contou-lhe que tinha ouvido dizer que estava a ser organizada uma grande expedição destinada a explorar o interior de África, entre as costas de Angola e de Moçambique. Alexandre nem precisou de ouvir mais: foi logo a correr ao gabinete do ministro da Marinha e das Colónias, Andrade Corvo, que ficava mesmo ali ao lado, e ofereceu-se para fazer parte desse grupo de exploradores.
— Que condições e que vantagens pretende para esse serviço? — perguntou-lhe o ministro, que já tinha ouvido falar do jovem Alexandre Serpa Pinto e das suas façanhas durante a desgraçada guerra do Bonga.
A resposta foi rápida e curta:
— Nenhumas!
Para Alexandre, que vivia fascinado por África e pelos seus mistérios, já era recompensa suficiente poder fazer parte da expedição. Foi na altura informado por Andrade Corvo de que os seus companheiros na aventurosa viagem (no caso de ela se realizar mesmo, o que ainda não estava garantido, pois era preciso que o Governo concedesse a verba indispensável) seriam dois oficiais da Armada (ou Marinha de guerra): o capitão-tenente Hermenegildo Capelo e o primeiro-tenente Roberto Ivens. Este último achava-se de momento em São Paulo de Luanda, a capital de Angola, mas Capelo estava em Lisboa. Alexandre marcou logo um encontro com ele no Café Martinho. Era cinco anos mais velho do que o nosso amigo e tinha um ar calmo e ponderado. Enquanto sorviam o café aos golinhos foram conversando sobre o tema que mais os fascinava e simpatizaram um com o outro. O dito tema era, evidentemente, África.
E, palavra puxa palavra, foram trocando impressões sobre as viagens de exploração africana levadas a cabo por estrangeiros, de que os jornais falavam desde há anos, e de que eram protagonistas sobretudo os britânicos David Livingstone e Henry Stanley. Livingstone era um missionário e explorador escocês falecido pouco antes, em 1873, com 60 anos. Foi o primeiro europeu a visitar vastas regiões do interior africano, durante as viagens que empreendera desde 1851.
(…)
O famoso Livingstone não era nada amigo dos portugueses. Sentia, decerto, alguma inveja (dor de cotovelo, como se costuma dizer) por os nossos antepassados terem sido pioneiros em África numa altura em que os ingleses ainda nem sequer navegavam para mares distantes, e evidenciava inclusive um comportamento um bocado racista. Por exemplo, na zona do Bié o missionário escocês conheceu pessoalmente o comerciante português Silva Porto, um dos primeiros brancos a habitar nos matos do interior africano. Silva Porto era um homem honesto e corajoso, mas não possuía cultura científica. Por isso, quando o escocês, para o atrapalhar, lhe pediu que indicasse no mapa o ponto onde se encontravam, ele não foi capaz de o fazer. Foi o suficiente para Livingstone, nos seus escritos, o classificar de «mulato» (que por acaso não era, embora vivesse com uma mulher africana e tivesse por isso filhos mestiços) e «traficante de escravos», prática repugnante a que ele nunca se dedicou.
(…)
Alexandre Serpa Pinto e Hermenegildo Capelo conversaram, pois, sobre estas e outras coisas que entusiasmavam a opinião pública, no tal encontro do Café Martinho. Depois, os dias e os meses foram passando, sem que o ministro desse mais notícias acerca da planeada viagem. Mas um dia elas vieram: a expedição científica portuguesa ao interior da África Austral iria mesmo realizar-se, com um crédito de 30 contos de réis obtido pelo Estado. Hoje, 30 contos corresponde a apenas 150 euros, mas naquele tempo era uma quantia enorme; quem possuísse um conto (um milhão) de réis era considerado milionário, palavra que ainda hoje usamos para designar quem é muito rico.”