Os turistas atropelam-se no final da tarde de sábado. Os vestidos florais, as sandálias com meias, os chapéus ou simplesmente o ar vagamente perdido denunciam-nos. São turistas. É possível percebê-lo à distância, olhando para eles, circulando pela Baixa de Lisboa enquanto o dia de verão acaba. Pergunto-me se se reconhecerão uns aos outros. Se conseguirão perceber que não há por aqui um português, enquanto vagueiam por entre lojas de souvenirs ou param numa montra onde um Cristiano Ronaldo de tamanho real os encara de mãos à ilharga e brincos de brilhantes nas orelhas, incitando-os a comprar uma t-shirt com as cores nacionais, provavelmente feita no Bangladesh ou na China.
O Rossio tornou-se uma espécie de feira. A placa central da praça toda tomada por barracas de madeira, onde se vendem bugigangas asiáticas, comidas gordurosas e bebidas baratas em copos XL ou dentro de cascas de ananases e cocos. Vem de lá uma música pimba de arraial, talvez para dar um ar genuíno e nacional àquele folclore feérico que faz desaparecer as fontes e a imponência da calçada, desenhada à sua volta para um efeito de dignidade que agora ficou completamente atropelado.
Circular pelas ruas da Baixa tornou-se uma estafeta. É impossível andar dez passos sem ser interpelada por um empregado de restaurante com uma ementa na mão. Sou abordada em inglês, espanhol, italiano e português. E uma e outra vez vou repetindo que já jantei, enquanto escapo à caça desesperada de quem vê restaurantes vazios e esplanadas a meio gás, apesar do bom tempo. Há dias, falei com a diretora de um hotel na Baixa que me explicava que os quartos estão quase todos ocupados, mas o difícil é chamar clientes para o restaurante. “Comem sandes”, dizia, com desalento.
O mesmo turismo que recuperou as casas em ruínas é o que agora corrói a alma da cidade como um ataque de térmitas. Estamos a ser comidos por dentro e o que sobra é uma casca, vazia, pronta a ser cuspida à primeira crise
Apetece-me um doce. Atravesso as lojas de fancaria, os restaurantes com bandeiras portuguesas à porta e aspeto de quem quer enganar turistas, duas ou três lojas de gelados com um ar desinteressante e plástico, uma loja de açaí e dois restaurantes de ramen, antes de chegar a uma montra de pastelaria. Os bolos têm um ar dececionante, mas a minha gula é grande. Arrisco, sabendo que vou sofrer uma desilusão. Cumprimento a empregada que se aproxima de mim enquanto olho para a montra e peço-lhe um bom-bocado. Responde-me num inglês de sotaque asiático carregado e eu aponto para o bolo tradicional português, que é uma versão de pastel de nata sem a massa folhada. Levemente irritada, acabo por levar o bolo, que custa três euros e não sabe a nada.
Tenho encontro marcado numa conferência e é para lá que vou. Chegada à morada, tudo indica que não estou no local certo. Mas estou. A entrada faz-se pelo meio de uma loja de souvenirs, onde um homem asiático, vestido com uma camisola da Seleção Nacional, olha para um telefone, sentado num banco. Passo pelos galos de Barcelos, pelos porta-chaves de cortiça, pelas bandeirolas verdes e vermelhas, pelos ímanes de frigorífico em forma de azulejo ou de pastel de nata. Todo o imaginário português reduzido a um merchandising de baixa qualidade, produzido em fábricas asiáticas por mão de obra quase escrava, igual em lojas e lojas, que se repetem por toda a Baixa e onde muitas vezes o que mais se vende é a garrafa de água fria e a cerveja para quem passa pela rua. De que viverão estas lojas?, pergunto-me, pensando nas rendas astronómicas que por ali se cobram e em todas as teorias da conspiração que se tecem sobre negócios que parece impossível que sejam rentáveis. Quantas Nossas Senhoras de Fátima fluorescentes e t-shirts “I love Lisbon” será preciso vender para sustentar estas rendas?
Passo por aquele bricabraque plástico, tão feérico como triste, porque são sempre tristes estas coisas que têm ar de lixo antes de o ser. Tralha produzida para ser comprada por impulso e descartada. E subo as escadas de madeira, passando por uma casa de massagens tailandesa que anuncia à porta preços, com imagens relaxantes de raparigas asiáticas deitadas em marquesas, tão deslocadas daquele prédio pombalino em avançada decrepitude que me pergunto quem entrará ali à procura de relaxamento e mãos terapêuticas.
Subo mais um andar. Chego por fim à coletividade onde me esperam e onde explicam que estão ameaçados de despejo. “Não estamos todos?”, brinco, com uma ironia ácida, provavelmente deslocada naquela desolação. No bar, estão sentados três ou quatro idosos, de olhos postos no ecrã gigante de uma televisão led por onde passa, repetitivo, mas aparentemente empolgante – pelo menos, a julgar pelo entusiasmo do repórter – um autocarro, onde percebo que vai a Seleção portuguesa de futebol. Nem vale a pena dizer que é masculina, que só se diz o género se for feminina, claro.
O chão de madeira range. Na sala onde será a conferência há uma parede inteira ocupada por uma cena onde meninas vestidas de bailarinas dançam no que parece ser um bosque. Nas paredes laterais, há placas de mármore com nomes de atores e datas antigas. E lustres no teto, que devem ter já ali assistido a muitas festas, bailaricos e teatros, e para os quais agora olhamos com medo de que nos caiam em cima da cabeça.
Quando saio dali, ao final da noite, as ruas estão escuras e quase vazias. Digo quase, porque ainda me cruzo com grupos de homens asiáticos, de peles escuras, envergando com orgulho as camisolas contrafeitas com as cores da bandeira do país para onde vieram trabalhar e onde cada vez mais gente os manda para a terra deles. Dou por mim a pensar na metáfora daquele prédio às camadas, com a loja de fancaria nacional no rés do chão, a suspeita casa de massagens tailandesa no primeiro andar e a envelhecida e histórica coletividade ameaçada de expulsão pela especulação imobiliária por cima. Lisboa tornou-se neste bolo às camadas, cheio de corantes artificiais. O mesmo turismo que recuperou as casas em ruínas é o que agora corrói a alma da cidade como um ataque de térmitas. Estamos a ser comidos por dentro e o que sobra é uma casca, vazia, pronta a ser cuspida à primeira crise.
Quando começaram a pintar-se fachadas e a abrir restaurantes modernos nos locais das tascas, foi como se Lisboa recebesse um novo fôlego e se renovasse. Passaram mais de dez anos e a espiral desenfreada da especulação, a sofreguidão do lucro e a ausência de regras e escrúpulos, própria dos governantes pobres que vivem de mãos estendidas, fizeram os seus estragos. O capitalismo é um animal esfaimado. A besta deixou-nos os ossos. Não é só a debandada de portugueses, que já evitam a Baixa e o Chiado. É mesmo este espetáculo triste, de coisa artificial, que depressa desencantará os visitantes. E depois? O que ficará depois desta plastificação do que um dia foi a zona mais nobre da capital?
O estado a que chegaram a Baixa e o Chiado, com o desespero evidente dos lojistas que suspiram pelos mesmos clientes, mais exigentes e abonados, que expulsaram com os seus preços impossíveis e a sua fancaria barata, é no fundo uma metáfora triste de um país reduzido à produção de estalajadeiros. Um país que desistiu de produzir e inovar, com empresários que vivem à espera da renda e do subsídio, explorando os trabalhadores e enganando os clientes. É preciso que o nosso futuro não se pareça com isso. Um futuro assim tresanda a passado.